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A BANDA >> Whisner Fraga


Nós nos sentávamos no banco, ali na esquina da rua 14, quase todos os dias. Ou todos os dias, se fosse o caso. Só para conversar, porque não havia muito o que um adolescente pudesse fazer num início de tarde em uma minúscula cidade no interior mineiro. Eu andava um quarteirão e meio para chegar à casa do meu amigo e sempre tentava aproveitar as tiras de sombra que as velhas casas estendiam pelo caminho. Os quarenta graus queriam cozinhar tudo o que encontravam pela frente e mesmo assim eu vestia calças compridas, pois tinha vergonha de minhas pernas brancas. Era irônico ser tão claro em uma cidade de gente bronzeada.

O banquinho de madeira na esquina da 14 estava mascado por nossas unhas ansiosas. Havia tanto a tratar, tanta conversa para colocar em dia, tanta banda para descobrir no meio daquela hora e meia de falta de assunto, que era sempre bom nos refrescarmos com um sorvete. Como eu nunca tinha dinheiro, porque não ganhava mesada e era estudante full time, só me restavam duas opções: passar vontade ou ganhar o picolé de alguém.

Às vezes eu entrava, a mercearia ficava mesmo com as portas abertas e, afinal de contas, eu também era amigo de suas irmãs. E, de repente, estava tocando alguma música, de alguma banda que eu ainda não conhecia, mas da qual instantaneamente começava a gostar: U2, Depeche Mode, Simple Minds, Duran Duran, Police, The cure. Não era nada parecido com o rock pesado do Twisted sister ou do Nazareth, com o qual eu vinha aproveitando a vida desde então. Mas meu preferido era o The cure e aquela “A letter to Elise” me nocauteava. Então, eu ia até a sala e o volume estava bem alto e todos pareciam apreciar o som, porque caminhavam tranquilamente de um cômodo para outro e até me ofereciam algo para comer. Em minha casa, eu só podia ouvir música se colocasse os fones de ouvido, o que era, invariavelmente, um pouco frustrante para mim.

Assim, eu perguntava para uma irmã de meu amigo o que era aquele arranjo triste que se irradiava pela copa, chegando aos meus ouvidos despreparados para a violência da melancolia. Eu quis conhecer mais daquilo, eu quis aprender mais sobre aquele sentimento que me levava a respirar desesperadamente uma nostalgia de aventuras que não havia vivido ainda. Era quando eu precisava ir embora, era quando uma realidade de tarefas e estudos me levava de volta para minha própria batalha, que consistia em um quarto dividido com dois irmãos.

Apesar do The cure, eu ainda me encantava mais com a crueza do Twisted sister e tentava decifrar o que Dee Snider cantava em uma época sem Internet e discos sem encarte. Era complicado, mas o vício me levava a contatar Deus e o mundo em busca de uma resposta ou de um xerox daquelas letras obscuras. Burn in hell falava sobre o quê? Captain Howdy? Don’t let me down, minha preferida?

Vinte anos depois e a notícia: eles estariam no Brasil, para um único show, o último em que usariam maquiagem. Meu irmão concordou em ir comigo e eu queria muito que ele fosse, porque é sempre bom comemorar com uma pessoa querida. Ana preferiu ficar e se deitar mais cedo, afinal era muito barulho para o seu ouvido de MPB. Então, nos sentamos, pois não havia outra alternativa a não ser esperar. E, enquanto aguardávamos, nossa história desfilava, provocante e incompleta, na passarela daquela noite inesperada.

Comentários

fernanda disse…
Nunca vi alguém escrever tão bonito sobre um show sem precisar falar do show :)
(fiquei curiosa pra saber qual era a cidade do interior mineiro).
albir disse…
Esse cenário mineiro me encanta. Banco de madeira, esquina, mercearia, e trilha sonora. Também fiquei com vontade saber qual a cidade. Pura poesia suas reminiscências, Whisner.
whisner disse…
Fernanda, Albir, a cidade é Ituiutaba, no triângulo mineiro. Muito obrigado pela leitura. Abraços!
Carla Dias disse…
Um exemplo muito bem escrito sobre como a música se embrenha na biografia da gene, provocando acontecimentos e sentimentos. Muito bacana, Whisner!

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