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AS BONECAS >> Fernanda Pinho



Sete minutos. Eu estava naquele corredor encarando o cartaz com a foto de uma enfermeira fazendo sinal de silêncio há apenas sete minutos. Mas a sensação que eu tinha era a de que toda a minha vida havia passado mais depressa que aqueles míseros sete minutos. Não tinha, aliás, transcorrido nem meia hora desde que vi minha Carolina cair desmaiada no chão, após chocar-se com sua bicicleta contra o muro de concreto de nossa garagem. Minutos depois, eu e Hugo adentramos por aquele hospital com nossa filha ensanguentada, e ainda desacordada, nos braços. Imediatamente após nossa chegada, Carol foi levada por enfermeiras para o bloco cirúrgico e a mim não restava mais nada a não ser tentar encontrar algum resquício de fé e suplicar a qualquer força superior que não me tirasse a minha filhinha. Não era justo, admissível, nem ao menos natural que algo de errado acontecesse a ela, com apenas seis anos.

    Seis anos. A mesma idade que tinha a outra Carolina, quando nos conhecemos. A Carolina da minha infância. A Carolina que homenageei ao batizar minha filha... Como numa tentativa de fugir daquela agonia, todos os meus pensamentos voltaram no tempo e me concentrei em lembrar-me da outra Carolina. Eu estava com sete anos e morava naquele prédio desde que havia nascido. Tinha três amigas ali, as gêmeas Renata e Rebeca, de oito anos, e a Sandra, que era da minha idade e, inclusive, estudava na minha sala. Digo que eram minhas amigas por falta de expressão melhor. A verdade é que apenas convivíamos por conveniência, e quando se é criança, é muito fácil conviver apenas por conveniência. Ao menos para mim era fácil. Mas não foi para Carolina. Quando a chamei para brincar conosco, no primeiro dia em que a vi no playground, logo fui recriminada pelas meninas. Elas me explicaram que a Carolina não poderia brincar com a gente, pois não morava no prédio. Era apenas filha da empregada do 402. Elas me explicaram, mas eu não entendi. Tanto que ignorei a advertência e passei a brincar com frequência com Carolina, com quem me entendia muito melhor do que com as outras. Naturalmente, Rebeca, Renata e Sandra não aceitaram de bom grado a novidade e retaliações começaram a acontecer. Primeiro foi comigo, que passei a ser ignorada completamente por elas. Não olhavam mais na minha cara e ficavam aos cochichos quando eu e Carolina passávamos. Não contentes, decidiram aprontar para a própria Carolina também. Jogaram sua boneca na piscina. Cabeça para um lado, corpo para o outro. E roupinha picotada por todos os cantos. Ainda me lembro da expressão de choque no rostinho de Carolina ao ver sua única boneca naquele estado. Ela não sabia nadar, mas eu, sim. Pulei na piscina, juntei as partes da boneca e a levei para minha casa.  Enxuguei-a com a ajuda do secador de cabelo da minha mãe e pedi à Sônia, que trabalhava lá em casa, que costurasse a cabeça de volta ao corpo. Por fim, vesti a boneca com uma roupinha da Janaína, minha irmã que estava com dois anos, e corri, ansiosa, para o 402. Encontrei Carolina amuada na cozinha, mas vi um sorriso iluminar seu rosto quando lhe mostrei a boneca. Ela riu de canto a canto, revelando as covinhas nas bochechas.
- A partir de hoje, ela vai se chamar Juliana, como você. – Sentenciou Carolina, como um gesto de agradecimento. Aquele foi um marco na nossa amizade que durou mais quatro anos, até meu pai ser transferido para o litoral e nos mudarmos do prédio. Na última vez que vi Carolina, ela segurava Juliana nos braços e me acenava, com lágrimas nos olhos. Dez anos depois, voltei a morar na nossa cidade. Tive vontade de reencontrá-la, mas havia perdido toda e qualquer referência. Ainda assim, dei à minha filha o nome da melhor amiga da minha infância. A Carolina que eu havia conhecido há trinta anos.

    Trinta anos. Onde estaria Carolina agora? Fui arrancada dos meus devaneios pela entrada súbita da enfermeira no corredor. E, então, a realidade voltou a me sacudir.
- Minha filha. Cadê a minha filha?
- Fica tranquila, vocês podem me acompanhar?
    Hugo e eu seguimos a enfermeira por um corredor estreito e, por fim, entramos num consultório, onde uma médica nos aguardava.
- Um dia, com todo o amor que é possível um ser humano demonstrar, você salvou minha Juliana. Hoje, eu salvei a sua Carolina.
    E então ela sorriu e suas covinhas se revelaram. Inconfundíveis. 



[Mais um conto. Variação sobre o mesmo tema do outro]
Imagem: www.sxc.hu

Comentários

Kika disse…
Ai que lindo! Lindo, lindo, lindo. Não encontro outra palavra! Lindo!
beijos.
Debora Bottcher disse…
Só posso concordar com a Ana: muito lindo, sensível demais - até me arrancou lágrimas... :) Um beijo, bonita.
O que mais admiro no ser humano é essa incrível capacidade de superação durante toda sua vida. Você se superou mais uma vez com um texto, na minha opinião, "inadjetivável". Certeza que será publicado no próximo livro e se não for, eu mesma imprimo e grampeio na primeira página.
Paulo disse…
hoje, pela primeira vez, ofereci um texto para uma possível seleção em forma de crônica. Diante disso, resolvi ler a primeira crônica que encontrasse. Me deparei com a sua " as bonecas". Fiquei perplexo. Parabéns!
Paulo Pereira Claudio.
Mineiros-Goias.
Marilza disse…
Belíssimo e de uma sensibilidade extremada...
Mônica disse…
Muito lindo!
albir disse…
Fernanda,
ainda bem que você resolveu abrir a gaveta dos contos!
Carla Dias disse…
Belíssimo texto para dizer a amizade e a força do afeto. Beijos, Fernanda.
Pro Ex Mc disse…
São poucos que valorizam uma boa amizade. Simplesmente linda essa crônica. ^^

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