domingo, 6 de novembro de 2011

DESEJOS BUROCRÁTICOS
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Pois não, senhor, em que posso atendê-lo?

— Preciso de uma autorização.

— Pode falar.

— Aliás, uma não, várias.

— Aí complica.

— Tenho direito a quantas autorizações?

— Depende... o que o senhor deseja?

— Pequenas coisas sem importância.

— Costumam ser as mais difíceis.

— Mas têm muita importância pra mim.

— Não tenho o dia todo, senhor...

— Claro, claro, desculpe. Eu gostaria de ser feliz.

— Isso é o que o senhor chama de coisa sem importância?

— Felicidadezinha boba, pequenos prazeres...

— Só posso ajudar quando souber do que se trata.

— Posso tirar meleca do nariz?

— Aqui?

— Aqui, acolá, em qualquer lugar. E a qualquer hora. Quero uma autorização permanente.

— E o senhor já não faz isso?

— Tenho vergonha.

— E é pra ter mesmo.

— Mas eu gosto...

— Não é necessária autorização para isso.

— Mas eu preciso...

— Que mais o senhor deseja?

— Andar de pés descalços.

— Aqui não pode.

— Na praia. O dia todo. Sem trabalhar nem um minutinho sequer.

— Nessa cidade não tem praia, senhor.

— Eu sei. Mas eu...

— Se o senhor não tiver mais nada para pedir, eu preciso atender o próximo da fila. Aliás, a próxima...

— Quero olhar mulher bonita.

— É só se virar nesse instantinho mesmo.

— Olhar pra sempre, cada vez que eu quiser...

— Pede a mulher em casamento.

— Não posso pedir mais de uma mulher em casamento.

— Olhar não tira pedaço nem carece de autorização.

— Quero olhar com calma, devagar, sem pressa, sem ser acusado de traidor ou de tarado. Olhar assim pra mulher feito quem olha para uma escultura no museu.

— O senhor está brincando comigo?

— Por falar nisso, também gostaria de uma autorização para brincar.

— O senhor pensa que eu não tenho mais o que fazer.

— Desculpe, moço. Eu deveria ter começado direito...

— Última chance!

— Tenho uma dúvida.

— Sim...

— Eu preciso de uma autorização específica para pedir outras autorizações?

— O que eu sei é que eu não preciso de autorização para chamar os seguranças.

— Os seguranças, não! Por favor, não!

— Tá com medo, é?

— Sempre.

— Ok, meu amigo. Você me diz onde é que está a câmera, vocês me pagam pela pegadinha, eu assino a autorização e todos saímos ganhando.

— Qual autorização você assina?

— A que você quiser.

— Pode ser uma autorização em branco?

— Posso fazer melhor. Deixe seu e-mail que mando um modelo com firma eletronicamente reconhecida e espaço em branco para  você preencher e imprimir quando quiser.

— Jura?

— Pegar ou largar.

— Você me dá uma autorização para pegar?

— Autorização dada.

— Preciso por escrito.

— Um momento... Aqui...

— Ah, obrigado, então eu... Opa, mas eu não pedi autorização para isso aqui.

— É tudo que eu tô podendo autorizar no momento.

— Posso mesmo?

— Vá fundo.

— Minha mulher vai reclamar.

— Mulher sempre reclama.

— Ela vai ficar furiosa.

— É só mostrar essa autorização.

— E a autorização para pegar a sua oferta de uma autorização genérica?

— O senhor pode usar essa mesma que acabei de lhe dar.

— Mas essa só me autoriza a eu me...

— É só você tirar cópia e entregar para as pessoas das quais o senhor tem vergonha.

— Mas aí elas vão se...

— A ideia é essa.

— Parece arriscada.

— Funciona.

— Se não funcionar, eu volto aqui.

— Se funcionar, volte também. Quero saber dos detalhes.

— Combinado.

— Passe bem.

— Obrigado. Até breve.

— Tchau. Próximo...



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6 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Aiai, Eduardo!
Adorei...rs
Você é mesmo uma caixinha de surpresas, senhor criatividade! :)
Bjs

Marilza disse...

gostei..

albir disse...

Bom e suave. Marisa tem razão: você reinventa a invenção.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente. Inventor mesmo foi quem inventou vocês. :)

Carla Dias disse...

Eu quero uma autorização para final feliz sem cenas do próximo capítulo de continuação com um monte de coisas tristes. Tem?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Concedida, Carla. :)