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Mostrando postagens de Junho, 2013

NÃO É SÓ POR VINTE CENTAVOS. NEM PELO QUILO DO FEIJÃO. >> Sílvia Tibo

Saí pra comprar feijão, apaixonada que sou pela especiaria. No sacolão mais próximo, me deparei com o pacotinho de um quilo por nove reais. Olhei feio pra vendedora, franzi a testa, torci o nariz. E saí, de mãos vazias, revoltada e assustada, como alguém que acabara de sofrer tentativa de furto. 
Disse a mim mesma que a culpa era do dono do negócio, que pretendia extorquir os moradores da região, aproveitando-se do fato de seu estabelecimento ser o único do gênero ali nas redondezas. Até então, a culpa era apenas do proprietário do sacolão, que, em poucos instantes, na minha mente, tornou-se um criminoso da pior espécie. 
Fôlego retomado, dirigi alguns metros até o próximo supermercado, um pouco mais longe de casa, certa de que ali os desejados grãozinhos marrons estariam sendo vendidos por um valor mais justo e razoável. Pra minha surpresa e decepção, o preço era exatamente o mesmo. E a vendedora, dessa vez, me desencorajou a andar até o terceiro mercadinho, dizendo que o aumento ti…

SOBRE FAZER PARTE DE UMA NAÇÃO >> Mariana Scherma

Cada vez mais eu acho que as pessoas (sem generalizar, hein!) têm uma preguiça danada de pensar. Como se parar um pouco pra olhar pra dentro de si mesmas e do mundo fosse roubar tempo de... sei lá o quê.  Olhar ao redor e se sentir parte de uma nação não é das coisas mais simples, é sempre mais fácil esquecer em quem votou e pôr a culpa na corja de políticos. Mas aí vieram as manifestações e eu fiquei ainda mais na dúvida sobre esse questionamento em relação ao nosso mundo – ou só ao nosso Brasil mesmo.
Antes de mais nada: não, eu não sou contra a manifestação que encheu as ruas e deu fôlego a nossa democracia bebê, também não vou falar da falta de foco, afinal, não falta foco, o que sobra, na verdade, é problema. Educação precária, excesso de tarifa (cujo dinheiro vai pra onde mesmo?), saúde em colapso, transporte terrível (mas caro) e, na minha opinião, o principal: políticos que se esqueceram de que são representantes do povo e que só estão no Congresso pra resolver problemas própri…

É PROIBIDO PIRAR >> Carla Dias >>

Ah, mas quê? Nem se apegue ao artefato verbo-vintage. Pirar ainda é uma das coisas que podem ser boas, se aplicada da maneira correta. E então você me diz que não há maneira correta de pirar, e eu concordo. Há apenas a escolha mais justa. Pirar é o tipo de coisa que pode ser boa, quando não pulamos a cerca do limite alheio, e agimos como se lá fosse o quintal da nossa casa.

Mas que isso! Não precisa torcer o nariz ao adjetivo desinibido que é o proibido! Mas também não me venha com clichês de doer olhos e ouvidos, como o proibido é mais gostoso, porque nunca acreditei nisso. Sem contar que mais gostoso é menos bacana (adjetivo-vintage) do que anda se falando em Saramandaia. Sou mais o bastantemente ótimo.

Porque é proibido pirar, meus caros, se a piração tem como alvo o que não deve sê-lo. Esqueçamos aquelas ideias que temos na sala de casa, num domingo chuvoso, quando falar sobre política significa descer o sarrafo no que desconhecemos, e em dois segundos, a conversa se mistura às ga…

SENDO CLICHÊ >> Clara Braga

Hoje eu vou ser clichê! Achei melhor avisar, já que não é todo mundo que gosta de ler textos que não necessariamente contam algo novo, mas diante de tantos manifestos, eu não queria ficar de fora do grande grupo de pessoas que tem algo a dizer sobre o assunto.
Percebi que algumas pessoas já estão irritadas com a quantidade de comentários, agora só se fala disso, parece que ninguém tem outro assunto. Mas convenhamos, não é uma delícia abrir o facebook e, ao invés de se deparar com uma enorme quantidade de comentários reclamando da segunda feira, ver uma enorme quantidade de comentários de pessoas que estão ansiosas por lutar por um Brasil melhor? Claro, existem aqueles que vão pela baderna, aqueles que vão sem saber direito porque estão indo, mas independente do motivo, há quanto tempo não se via tanta gente assim nas ruas reivindicando algo?
Outro dia fui almoçar no restaurante do meu trabalho e reparei que todas as pessoas das mesas ao redor discutiam sobre as manifestações e as med…

A SOMBRA >>Zoraya Cesar

Tudo começou poucos dias antes do casamento. Durante a madrugada, violentas batidas na porta acordaram Cristiano, que, ao espiar pelo olho mágico, nada viu que pudesse provocar tamanho barulho nem fazer a porta tremer de maneira tão forte. Intrigado, pediu para o porteiro subir e averiguar o que estava acontecendo, mas, estranhamente, o empregado nada viu nem ouviu. 
Cristiano voltou para a cama convencido de que se tratava de alguma brincadeira dos amigos, uma espécie de despedida de solteiro, já que ele não quisera fazer nada. Mal pegou no sono, e foi novamente acordado, dessa vez, por gritos altos e estranhos, mais pareciam uivos. Ele nem se deu ao trabalho de chamar o zelador; escancarou a porta, pronto para dar uma lição no engraçadinho, pronto para qualquer coisa, menos para aquilo: à soleira, estava a enorme sombra de um homem, que, ao abrir a boca vazia de dentes, exalou um odor tão fétido, que Cristiano quase desmaiou antes mesmo de fechar a porta com um estrondo. 
Mais uma …

ME DESCULPEM, MAS VOU FALAR DE AMOR >> Fernanda Pinho

Havíamos combinado de nos casar no mês de setembro, no Brasil. Imaginando que o processo era burocrático, três meses antes começamos a reunir a documentação necessária. Mas fui muito modesta no que imaginei. A burocracia era muito maior que o esperado, já que ele não é brasileiro e tínhamos o agravante de não estarmos no Brasil. Foi então que alguém deu a ideia e acatamentos imediatamente: vamos ver como faz pra casar aqui no Chile. O plano era simples: se fosse um pouco menos complicado que no Brasil, faríamos um casamento chileno no civil e um casamento brasileiro na igreja. Tudo em setembro. Ainda era junho, tinha que dar tempo.
Se deu. Mais uma vez fomos surpreendidos pela burocracia. No caso, pela falta dela.E assim começou a história de um casamento que só não foi o mais rápido que eu já vi porque existe Las Vegas (se bem que, eu não conheço ninguém que casou em Las Vegas, então o meu continua sendo o único casamento de supetão que eu já presenciei).
“Por favor, queremos infor…

AJUDANDO A ACONTECER >> Carla Dias >>

Há um bom tempo a minha noção sobre arte, artistas e apreciadores de tais, vem sofrendo algumas mudanças. A música e a literatura que mais me apetecem já não são na sua maioria os frequentadores das paradas de sucesso, das listas das mais-mais que pontuam o cenário do marketing ostensivo. Não que eu não deseje sucesso a todos, mas com o olhar da internet ficou muito mais fácil encontrar um punhado de gente fazendo coisas muito boas sem serem alcançados pelos holofotes.

Por incrível que pareça, apesar de o sucesso ser almejado, às vezes eles serem apanhados pela condição frágil de celebridades, a maioria dos artistas quer o que qualquer pessoa, detentora de dotes artísticos ou não, deseja: viver da sua profissão. Porém, o artista trabalha com algo que reflete diretamente no gosto alheio, sendo muito fácil, e infelizmente frequente, sua profissão ser qualificada como supérflua, mesmo um mundo sem a arte nos parecer inconcebível.

Nesse balaio - no qual se misturam os que batalham diariam…

DE VOLTA! >> Sílvia Tibo

Engraçado como certos acontecimentos tem o poder de nos afastar da realidade por algum tempo. E interessantes também são os efeitos que essas escapulidas do mundo real são capazes de provocar em nós. 
É como se, por alguns instantes (que podem até durar dias, meses ou anos), nossos espíritos se desligassem dos corpinhos que os tornam visíveis e palpáveis. E assim, livres, leves e soltos, transitassem por um universo íntimo, perfeito e particular, criado por eles próprios, na tentativa de fugir da realidade que os machuca ou, simplesmente, no desejo de experimentar momentos de felicidade pura e plena. 
Quando minha mãe partiu, há alguns poucos anos, essas sensações me acompanharam por um bom tempo. Nas semanas seguintes à partida dela, lembro-me de ter ouvido alguns amigos e parentes dizerem-se impressionados com a suposta força com que eu vinha enfrentando aquela perda tão grande e recente. 
Depois de ouvi-los, eu lhes dirigia sempre um sorriso, ganhava deles um abraço... E me despedia r…

REPERTÓRIO EMOCIONAL [Ana González]

Eu estava sentada na primeira fileira de bancos, bem atrás do motorista. Pouca gente no ônibus. Um som de rádio tocava um som de música sertaneja. Não é comum esse som de rádio em ônibus. Nada que incomodasse.

O caminho conhecido seguia pela janela desenrolando a paisagem urbana e suas personagens. Apesar do dia de céu azul e poucas nuvens, o sol deitava sem muito entusiasmo, sua luz e calor. Naquele horário não havia trânsito. Era o meio de uma manhã no meio de uma semana morna. Tudo estava muito morno.

Mas, aos poucos, o repertório musical começou a aparecer mais do que eu desejaria. Percebi-me acompanhando as letras de tom emocional e subjetivo, de casos de amor: “Pra vc! Pra vc! ... pensei que nunca mais ia te ver!” “ ... bom estar apaixonado por vc! Só vc querer!“ Promessas de alegrias de amor em vozes masculinas intensas.

Incomodava de forma sutil. Me remexi no banco. Comecei a perceber coisas demais. Observava agora todos os movimentos do motorista e escutava sua conversa com…

DÁ PRA GUARDAR NO POTINHO? >> Mariana Scherma

Eu estava esperando o ônibus seguir viagem quando entrou um cara mudo e deixou sua mulher e sua bebezinha no banco. Ele gesticulou muito, beijou a mulher e a nenê com o maior amor do mundo e foi embora. As duas estavam no banco à minha frente e eu fui admirando a menininha. Veja bem, não sou dessas que passaram na fila do instinto maternal, nunca carreguei um bebê na vida por medo de ele começar a chorar pra sempre e nunca passei a mão em barriga de mulher grávida porque acho intromissão demais (pobres grávidas, que ganham carinhos de estranhos e ainda têm que sorrir constrangidas só porque estão barrigudinhas...). Já pensou se esse hábito acontecesse também com homens bebedores de cerveja?

Mas aquela bebezinha chamou minha atenção. Ela sorria demais pra mim e é isso que mais gosto nas crianças: esse sorriso ingênuo e sincero pra uma pessoa que nunca viram antes ou mesmo para o apoio de braço da poltrona do ônibus. Pureza e fofurice em estado bruto. De repente, ela pegou minha mão e ap…

APAIXONAMENTO >> Carla Dias >>

Apaixonou-se por ela, antes mesmo de conhecê-la, como no poema de Vinícius de Moraes: “eu te peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”.  Apaixonou-se por todas as qualidades que lhe atraiam, pela certeza de que eles coexistiam com os defeitos, que era para condimentar a pessoa construída por isso e aquilo, encontrando o equilíbrio onde?

Por algum tempo, foi nos pés da acrobata.

Seu olhar fora atraído pela capacidade dela de equilibrar-se graciosamente sobre uma linha. Depois, pela sua habilidade em jogar-se ao ar, agarrando-se com destreza em trapézios. Sem contar que era impossível desviar o olhar enquanto ela dançava. Tudo nela fluía belamente, seus gestos eram como fragmentos de uma coreografia de sutilezas. Porém, bastou algum tempo de convivência para que ele compreendesse que uma bela figura nem sempre abriga uma boa pessoa.

Por algum tempo, sentiu-se traído pela vida, desapontado consigo por ter acreditado que seus olhos realm…

FICA A DICA >> Clara Braga

Eis que chega mais um dia dos namorados!! Ahhh, o amor está no ar! Mesmo você não tendo um namorado ou namorada, é difícil ficar indiferente a esse dia, afinal, jornais noticiam, programas falam sobre formas de surpreender seu parceiro ou parceira, vitrines dos shoppings sugerem diversos presentes e no seu trabalho ou sala de aula, alguém vai receber um buquê de flores.
Ninguém gosta de confessar certas coisas, mas vai dizer que não bate aquela invejinha quando alguém do seu trabalho é surpreendido com flores ou caixa de bombom? Só não dá inveja quando é carro de som, ai sim você respira aliviado por não ter sido com você! Ninguém merece carro de som...
Ano passado o dia dos namorados caiu em uma terça-feira, e lá estava eu escrevendo minha crônica e desejando um feliz dia dos namorados para todos, independente de terem ou não um namorado! Lembro que eu comentei da quantidade de críticas que eu li sobre o dia no facebook, diferente desse ano, que ainda não vi nenhum comentário sobre,…

MILHARES DE PUTOS >> André Ferrer

Ainda que premida entre a espuma de um fone e o tímpano, a música é livre, alforriada dos esforços mentais do ouvinte. O texto, no entanto, carece da prisão dos olhos e do labor cerebral. Essa diferença cruel - e tão capaz de transformar livros em recantos indevassáveis - tem me incomodado. Quisera que o conteúdo dos livros vagabundeasse no ar como a música!
A ideia - vai - nem é tão absurda assim. Este mundo está cheio de gente crédula. Na internet, por exemplo. Textos, fotos e vídeos sobre conspirações. Todo aquele material a respeito de experiências metafísicas e abdutivas. Os iluminati. O G12. O projeto HAARP. Enfim. Por que o meu desejo seria tão absurdo?!
Há muita esperança nas facilidades tecnológicas eu sei. Mas não é o meu caso. Para mim está bom como está. Enquanto nenhum ET aparece aqui na minha rua, o melhor a fazer é lamentar tanta credulidade e preguiça mental. Evidentemente, também é preciso rir - e muito - diante do vaudeville.

Para mim, como está, ficaria. Venço qualquer…

O ESCRITÓRIO >> Whisner Fraga

De algumas histórias, apreendemos somente a metade ou menos ainda, apenas flashes, trechos que nos interessam. Perdemos a noção do resto, não temos ideia de onde queriam chegar com a narrativa. A trama está truncada em nossa cabeça. Tenho um arsenal de excertos em minha memória e ora o utilizo em alguns contos, ora o abandono, esperando um roteiro em que se encaixe. Vários destes episódios tiveram origem nas rodas familiares, nas noites de domingos modorrentos em que visitávamos meu avô ou em um fio de conversa que os adultos deixavam escapar até nossos ouvidos. Uma dessas passagens, sem início e sem fim, narro a seguir.

Meu pai, como tantos outros de sua geração, começou a trabalhar cedo. A família pobre precisava dos cobres a mais que levava para o lar: deixava o dízimo no chapéu de meu avô todo início de mês. Assim, unia o útil ao agradável: ia fugindo da escola chata e amealhando os trocados para o cinema e para as paqueras do final de semana. Isso quando tinha seus quinze, dezesse…

CONDOMÍNIO >> Zoraya Cesar

Engraçado como seres civilizados podem se transformar em monstros irracionais quando se trata de reunião de condomínio. Engraçado, também, como estes seres, que chegam quase às vias de fato contra o vizinho, no dia seguinte estão conversando amigavelmente sobre o futebol, a carestia, o tempo lá fora.
O que não é engraçado são os pensamentos escondidos atrás de toda essa fachada. Porque, terminada a reunião, há mágoas que não se apagam junto com as luzes. A verdade, Leitores Amigos, é que todos temos duas caras, e você pode até conhecer a sua própria face oculta, mas nunca imagina que a do vizinho pode ser ainda mais feia.  
D. Julinha iria morrer sem entender por que pessoas – algumas – tão inteligentes votavam seguidamente em D. Glória para síndica. A mulher era uma imprestável, o condomínio estava sempre no vermelho e não havia taxa extra que desse jeito. No entanto, como ela era um tanto quanto rude, muitos achavam que ela tinha pulso forte para levar o condomínio adiante. Levar a…

NÃO ACORDE O DRAGÃO >> Fernanda Pinho

Quando eu era criança, um dos meus brinquedos preferidos era um jogo de tabuleiro chamado Não Acorde o Dragão. O jogo consistia em fazer com que quatro pinguins completassem um circuito, carregando seus ovos em cima da cabeça. O problema é que no meio do circuito havia um dragão e, em determinado momento, ele acordava, rugia e fazia toda a estrutura tremer, derrubando pinguim com ovo e tudo.A estratégia do jogo era, portanto, evitar que o dragão se despertasse.
Com certeza faz mais de vinte anos que eu brinquei com esse jogo pela última vez, mas tenho pensando nele com certa frequência. Sobretudo naqueles momentos em que constato desanimada que o mundo parece estar infestado de dragões.Fiquei estarrecida quando li a notícia do senhor que matou os vizinhos e depois se matou por causa dos barulhos emitidos no apartamento de cima. Esse caso foi notícia porque o crime aconteceu em um condomínio de luxo mas, infelizmente, não é uma situação isolada. Definitivamente, a tolerância deu seus…

ATENCIOSAMENTE, >> Carla Dias >>

Na correria do diariamente, do esquecimento como objeto abstrato deflagrador de desopilação, da alquimia das músicas diversas sendo tocadas em inúmeros iPods, da facilidade de passar por, sem despreguiçar a atenção a fim de contemplar diferença. E das tantas palavras engolidas em nome do silêncio, esse herói mal compreendido, que nasceu para pausas, para assanhar nuances, não para calar a coragem de se conjugar verbos com o som que sai de nós, nem sempre educado, nem sempre correto.

Em meio a essa selva dos sentidos, é possível se compreender que olhares são bichos que correm em liberdade, ainda que eles se façam de polidos. Nem sempre contam a melhor versão da imagem que alcançam, quase nunca são justos. Às vezes, precisam de tempo para alcançar a essência do que não sabe ser sem a necessidade de se cavar fundo para compreender. Só que também marejam fácil, de facilidade poética e entremeada em importâncias.

O que mais confunde a humanidade do ser humano, que veste a desumanização p…