domingo, 9 de junho de 2013

O ESCRITÓRIO >> Whisner Fraga

De algumas histórias, apreendemos somente a metade ou menos ainda, apenas flashes, trechos que nos interessam. Perdemos a noção do resto, não temos ideia de onde queriam chegar com a narrativa. A trama está truncada em nossa cabeça. Tenho um arsenal de excertos em minha memória e ora o utilizo em alguns contos, ora o abandono, esperando um roteiro em que se encaixe. Vários destes episódios tiveram origem nas rodas familiares, nas noites de domingos modorrentos em que visitávamos meu avô ou em um fio de conversa que os adultos deixavam escapar até nossos ouvidos. Uma dessas passagens, sem início e sem fim, narro a seguir.

Meu pai, como tantos outros de sua geração, começou a trabalhar cedo. A família pobre precisava dos cobres a mais que levava para o lar: deixava o dízimo no chapéu de meu avô todo início de mês. Assim, unia o útil ao agradável: ia fugindo da escola chata e amealhando os trocados para o cinema e para as paqueras do final de semana. Isso quando tinha seus quinze, dezesseis anos, embora eu desconfie que tenha começado na labuta um pouco antes. Nessa época, fazia o papel de office boy em um escritório de contabilidade.

Havia três secretárias. Uma delas lindíssima, outra, que não era de se jogar fora e a terceira, que ficaria para titia. Dois moleques, meu pai um deles, sonhavam com uma bicicleta enquanto corriam aos bancos da cidade, a pagar contas e a enfrentar filas. Sempre se encontravam no extinto Bemge para matar um pouco do tempo, porque ninguém era de ferro nem mesmo naquela época. Bebiam um refrigerante quando era início de mês, pois ainda podiam se dar ao luxo e falavam sobre as meninas do escritório.

Pois bem, eles eram, como de resto todo adolescente é, peraltas. Combinaram de ficar um pouco depois do expediente, naquele dia, para uma ação inadiável. Havia um único banheiro em todo o primeiro andar do prédio e era utilizado por todos os funcionários. A parte de trás dava para um terreno vazio, tomado pelo mato e pelo lixo que a vizinhança depositava por lá. Por algum conluio entre um péssimo arquiteto e um construtor pão-duro, o vaso ficava bem em frente ao terreno, de modo que os meninos concluíram que um buraco naquela parede lhes forneceria um bom ângulo para espreitar as secretárias. Aquele dia furaram a parede e testaram o ângulo de visão. A coisa ficara melhor do que a encomenda.

No outro dia, foram à feira e trouxeram, para surpresa de toda a repartição, três duzias de laranja. Foi uma festa. Eles se desculparam, não, não queriam chupar não, já haviam feito isso nas barraquinhas. Podiam se esbaldar. E se retiraram, dali a pouco, para o quintal ao lado. Foi uma festa, evidentemente. Se pudessem descolar uma câmera fotográfica, teriam registrado o momento. Aliás, os momentos, porque o banheiro ficou movimentado naquele dia.

Eu sei que houve uma esperta que desconfiou daquele buraco e viu algum olho frenético por trás da parede, mas não sei os detalhes. Parece que foram demitidos, o que não era nenhum drama, pois emprego como aquele havia aos montes na cidade. Mas não sei, posso estar especulando, misturando essa história com outra, inventando, concluindo. Não sei mesmo. Mas que essa parte de descobrirem a cor das calcinhas das meninas foi um sucesso, ah, foi sim.

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