quarta-feira, 12 de junho de 2013

APAIXONAMENTO >> Carla Dias >>

Apaixonou-se por ela, antes mesmo de conhecê-la, como no poema de Vinícius de Moraes: “eu te peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”.  Apaixonou-se por todas as qualidades que lhe atraiam, pela certeza de que eles coexistiam com os defeitos, que era para condimentar a pessoa construída por isso e aquilo, encontrando o equilíbrio onde?

Por algum tempo, foi nos pés da acrobata.

Seu olhar fora atraído pela capacidade dela de equilibrar-se graciosamente sobre uma linha. Depois, pela sua habilidade em jogar-se ao ar, agarrando-se com destreza em trapézios. Sem contar que era impossível desviar o olhar enquanto ela dançava. Tudo nela fluía belamente, seus gestos eram como fragmentos de uma coreografia de sutilezas. Porém, bastou algum tempo de convivência para que ele compreendesse que uma bela figura nem sempre abriga uma boa pessoa.

Por algum tempo, sentiu-se traído pela vida, desapontado consigo por ter acreditado que seus olhos realmente haviam alcançado a essência da acrobata, mas que alcançaram mesmo a sua capacidade de matar a fome da alma com uma graciosidade interpretada.

Para um capturador de imagens, um colecionador de fascínios, o coração partido dói de uma maneira muito mais profunda. Os amigos o acham dramático demais, que é uma bobagem sofrer por ter sido enganado pelo olhar. Mas para ele, o olhar não é apenas um fisgador de atrativos. Seu olhar já mergulhou em miséria, já marejou de tristeza, já colecionou momentos que não podem ser repetidos. O olhar que lhe cabe não é oriundo de uma criação moldada aos atributos cuspidos pelas capas de revistas de moda. O seu olhar é um compartilhador de cenas capazes de contar uma história, como aquela que surrupiou anteontem, que tinha a cidade como cenário, o sol se (im)pondo à carcaça de um prédio em construção.

 Apaixonou-se por ela aos poucos, como se o amor fosse tecido pelo destino desprovido de pressa. Até reconhecer esse amor, trafegou pelas paixões provisórias, enamorou-se por possibilidades de dar certo, arranhou as paredes frias do desapontamento. E o tempo, que não se preocupa com quanto tempo se leva para se reconhecer o amor, beijou-lhe as faces, levou-o adiante, até onde a memória passa a ser menos acessada, porque é preciso viver o agora.

Apaixonou-se por ela em um passado de sonhos viris e desbravadores, quando quase tudo era possível. Hoje, experiente nos desmandos e nas importâncias, sacudido pela vida de tantas formas, o olhar ainda capaz de contar histórias, reconhece tal amor nesse agora mesmo, quando o olhar dela acarinha o horizonte, e se trança ao dele bem mais adiante.

Não faz ideia de há quanto tempo ela está ali, sentada ao seu lado, pertencendo ao seu momento. Não a esperava em banco de parque, e sim em algum cenário e momento retumbantes. Mas ela sorri, e aquele sorriso é um pelo qual ele se apaixonou sem ainda tê-lo recebido. E assim, silenciosamente, depois de tantos desmandos na sua busca pelo amor, ele a reconhece, como se reconhecesse uma companhia constante. E compreende que ali o seu olhar encontrará a sua própria história. E ele a contará.

Imagem: Ale Frata - alefrata.com.br



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