Pular para o conteúdo principal

APAIXONAMENTO >> Carla Dias >>

Apaixonou-se por ela, antes mesmo de conhecê-la, como no poema de Vinícius de Moraes: “eu te peço perdão por te amar de repente/embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”.  Apaixonou-se por todas as qualidades que lhe atraiam, pela certeza de que eles coexistiam com os defeitos, que era para condimentar a pessoa construída por isso e aquilo, encontrando o equilíbrio onde?

Por algum tempo, foi nos pés da acrobata.

Seu olhar fora atraído pela capacidade dela de equilibrar-se graciosamente sobre uma linha. Depois, pela sua habilidade em jogar-se ao ar, agarrando-se com destreza em trapézios. Sem contar que era impossível desviar o olhar enquanto ela dançava. Tudo nela fluía belamente, seus gestos eram como fragmentos de uma coreografia de sutilezas. Porém, bastou algum tempo de convivência para que ele compreendesse que uma bela figura nem sempre abriga uma boa pessoa.

Por algum tempo, sentiu-se traído pela vida, desapontado consigo por ter acreditado que seus olhos realmente haviam alcançado a essência da acrobata, mas que alcançaram mesmo a sua capacidade de matar a fome da alma com uma graciosidade interpretada.

Para um capturador de imagens, um colecionador de fascínios, o coração partido dói de uma maneira muito mais profunda. Os amigos o acham dramático demais, que é uma bobagem sofrer por ter sido enganado pelo olhar. Mas para ele, o olhar não é apenas um fisgador de atrativos. Seu olhar já mergulhou em miséria, já marejou de tristeza, já colecionou momentos que não podem ser repetidos. O olhar que lhe cabe não é oriundo de uma criação moldada aos atributos cuspidos pelas capas de revistas de moda. O seu olhar é um compartilhador de cenas capazes de contar uma história, como aquela que surrupiou anteontem, que tinha a cidade como cenário, o sol se (im)pondo à carcaça de um prédio em construção.

 Apaixonou-se por ela aos poucos, como se o amor fosse tecido pelo destino desprovido de pressa. Até reconhecer esse amor, trafegou pelas paixões provisórias, enamorou-se por possibilidades de dar certo, arranhou as paredes frias do desapontamento. E o tempo, que não se preocupa com quanto tempo se leva para se reconhecer o amor, beijou-lhe as faces, levou-o adiante, até onde a memória passa a ser menos acessada, porque é preciso viver o agora.

Apaixonou-se por ela em um passado de sonhos viris e desbravadores, quando quase tudo era possível. Hoje, experiente nos desmandos e nas importâncias, sacudido pela vida de tantas formas, o olhar ainda capaz de contar histórias, reconhece tal amor nesse agora mesmo, quando o olhar dela acarinha o horizonte, e se trança ao dele bem mais adiante.

Não faz ideia de há quanto tempo ela está ali, sentada ao seu lado, pertencendo ao seu momento. Não a esperava em banco de parque, e sim em algum cenário e momento retumbantes. Mas ela sorri, e aquele sorriso é um pelo qual ele se apaixonou sem ainda tê-lo recebido. E assim, silenciosamente, depois de tantos desmandos na sua busca pelo amor, ele a reconhece, como se reconhecesse uma companhia constante. E compreende que ali o seu olhar encontrará a sua própria história. E ele a contará.

Imagem: Ale Frata - alefrata.com.br

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …