sábado, 15 de junho de 2013

REPERTÓRIO EMOCIONAL [Ana González]

Eu estava sentada na primeira fileira de bancos, bem atrás do motorista. Pouca gente no ônibus. Um som de rádio tocava um som de música sertaneja. Não é comum esse som de rádio em ônibus. Nada que incomodasse.

O caminho conhecido seguia pela janela desenrolando a paisagem urbana e suas personagens. Apesar do dia de céu azul e poucas nuvens, o sol deitava sem muito entusiasmo, sua luz e calor. Naquele horário não havia trânsito. Era o meio de uma manhã no meio de uma semana morna. Tudo estava muito morno.

Mas, aos poucos, o repertório musical começou a aparecer mais do que eu desejaria. Percebi-me acompanhando as letras de tom emocional e subjetivo, de casos de amor: “Pra vc! Pra vc! ... pensei que nunca mais ia te ver!” “ ... bom estar apaixonado por vc! Só vc querer!“ Promessas de alegrias de amor em vozes masculinas intensas.

Incomodava de forma sutil. Me remexi no banco. Comecei a perceber coisas demais. Observava agora todos os movimentos do motorista e escutava sua conversa com o cobrador. Era uma intimidade fraterna. Era um assunto que já havia começado antes de eu entrar. Acredito que a música agradava a ambos.

Estava me sentindo agora só e desamparada, porque o caminho ainda estava ao meio. Na verdade, eu gostaria de poder fugir dali, agorinha mesmo.

Eis que no próximo ponto, o ônibus parou e pegou os passageiros que lá esperavam. Um rapaz forte e bem vestido de terno com gravata subiu e se acomodou perto da entrada, na escada assim que a porta da frente se fechou.

Ele começou uma conversa com o motorista, daquelas sem compromisso, sem nos alongarmos, sem assuntos relevantes. Aquela troca que faz o dia mais contentinho. Daqueles diálogos que são espécie de amostra de cidadania entre pessoas que suportam bem o cotidiano e estão de bem com a vida. Pelo menos naquele dia, naquela hora. Simplesmente irritante.

Então eu ouvi uma frase: “Sabia que essa música faz diferença no ônibus? Boa demais.“, falou ele para o motorista. O som do rádio era motivo de afinidade celebrada!

Cheguei quase ao desespero. Um desconsolo. Tocaiada num canto de mim mesma, com uma infinidade de pensamentos a brigar. Não tenho nada contra qualquer tipo de música sertaneja. Mesmo não sendo minha favorita, gosto muito de Almir Sater e de Renato Teixeira. Inezita Barroso e Rolando Boldrin fazem um trabalho primoroso no cuidado de nossas raízes. Por que então este som agora me incomodava tanto? E eles não paravam de falar.

No fundo, eu me cobrava postura ética ou coisa parecida. Sim, a diversidade existe. Eu tentava uma conversa comigo mesma. A mente se enchera de caminhos insuspeitados, nada mornos, tornando o dia multicolorido. Juntava pensamentos e emoções em uma série pouco organizada.

Finalmente, desci no local de meu destino. Olhei em volta e respirei. Silêncio de ouro. Passarinhos na árvore à minha frente. E, então comecei a rir alto, sem esconder de ninguém uma descontração que na verdade era meio torta. Debochava de mim mesma. Estava literalmente cansada por uma situação emocional sem lógica alguma. Não fui dona de mim mesma e me deixei levar por uma ocorrência totalmente irrelevante, por motivações instintivas e talvez inconscientes.

Bem, arre. Pude repensar a situação da música do rádio, fechando a questão sem muitas delongas. Alívio, sem culpa nenhuma. Sem dar espaço para repertório emocional. Não, essa música que tocava no rádio não cabe no meu mundo. Da próxima vez, se isso acontecer de novo, estarei pronta para trocar de banco ou descer do ônibus se for impossível suportar aquele ou qualquer outro gênero de música que esteja no meu padrão de preferência. Ponto final nesse des-concerto indesejado.

www.agonzalez.com.br



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5 comentários:

Unknown disse...

Ana, tenha um aparelhinho de som, se vc não usa celular (existem pessoas que o dispensam, sim!!! conheço pelo menos dois em 200 milhões de brasileiros...), ache a nova brasil, estação de rádio, ou a alpha, ou outra qualquer das 5 ou seis de música no universo de 200 de rádios evangélicas ou de sertanojo ou samba pagode comigo ninguém pode.

Alternativamente, tampões auriculares. Tem uma loja japonesa na rua direita que tem uns ótimos, a preço módico.

bjão.

paulo américo, seu fã

Varlice disse...

Anuska
Sertanejo tenho certeza de que foi tudo o que você não ouviu.
Garanto a você que tem coisa pior. Michel Teló aqui: http://www.youtube.com/watch?v=TDbBkvVYN3s - "É nóis fazê parapapá".
Preciso dizer mais?

Ana González disse...

rsrsrsrs... valeu, Paulo !!! Vou me lembrar de vc a cada vez que ligar o rádio (de que gosto muito) (que estatística triste, heim!)...rs..

Varlice, preciso de coragem para entrar nesse link. Mas sugestão sua é para ser levada a sério!!! rsrs.

Abraço aos dois!

seramigo disse...

Tbém ficaria 'arretado' c/ a situação. Descer do 'bus' seria conturbar o trajeto, então daria um jeito de 'mexer ' na iniciativa musical. A 'dica' do auriculor/tampão ou escolha própria, é boa pra essas situações.
Adirei, Ana! bjs
P.S. concordo tbém que vc deve ter ouvido qualquer 'tranqueira' menos os autores que citou.

Ana González disse...

Wilson, sabia que essa crônica levantou debates? rsrsrs...Parece que a questão mereceria tb uma manifestação nas ruas... rs...Obrigada. bjss Ana