quinta-feira, 13 de junho de 2013

DÁ PRA GUARDAR NO POTINHO? >> Mariana Scherma

Eu estava esperando o ônibus seguir viagem quando entrou um cara mudo e deixou sua mulher e sua bebezinha no banco. Ele gesticulou muito, beijou a mulher e a nenê com o maior amor do mundo e foi embora. As duas estavam no banco à minha frente e eu fui admirando a menininha. Veja bem, não sou dessas que passaram na fila do instinto maternal, nunca carreguei um bebê na vida por medo de ele começar a chorar pra sempre e nunca passei a mão em barriga de mulher grávida porque acho intromissão demais (pobres grávidas, que ganham carinhos de estranhos e ainda têm que sorrir constrangidas só porque estão barrigudinhas...). Já pensou se esse hábito acontecesse também com homens bebedores de cerveja?

Mas aquela bebezinha chamou minha atenção. Ela sorria demais pra mim e é isso que mais gosto nas crianças: esse sorriso ingênuo e sincero pra uma pessoa que nunca viram antes ou mesmo para o apoio de braço da poltrona do ônibus. Pureza e fofurice em estado bruto. De repente, ela pegou minha mão e apertava, dizia “dada” com eloquência. A mãe da fofura olhou pra trás e eu elogiei sua filhota, foi quando ela me fez sinal e descobri que, assim como o marido, ela também era muda.

Aquilo me emocionou de um jeito diferente. Os pais eram mudos, a filha, uma menininha tagarela falando “dada” e “mama” loucamente. Fiquei pensando como deve ser difícil criar uma filha nessa situação. Criança apronta, como eles vão falar “para”, “sai de cima do sofá”, “só ganha sobremesa se comer o brócolis” e essas coisas de pai e mãe? Ensinar o que é certo e errado é das tarefas que mais tiram o sono dos pais (eu imagino que seja, porque não tenho filhos)... E se você não pode falar e, às vezes, berrar? É claro, a bebê vai crescer falando português e a linguagem dos sinais, aí tudo fica fácil, mas e antes disso?

O que mais me emocionou nessa viagem foi ver a menina inquieta, falando, se remexendo sem parar e, com um abraço e um beijo da mãe, ela já se acalmava. Mágica pura entre mãe e filha. Foi desses momentos que me fizeram questionar tudo o que sempre falei e defendi: “não quero ter filhos, o mundo é ingrato. É muita responsabilidade criar uma criança”. Pra essa mulher no ônibus, seria ainda mais difícil ter e criar uma pessoinha. Mas ela teve. E estava se saindo muito bem na criação, pelo menos durante os quilômetros que dividimos no mesmo ônibus.

Meus olhos já tinham juntado uma poça de lágrimas só de presenciar aquela cena, principalmente quando me lembrei do pouco que sei de Libras e disse à mulher que a filha dela era linda. Ela me sorriu em agradecimento, mas quem tinha que agradecer era eu. Essa poderia ser dessas histórias que deixam a gente comovida e tudo mais, mas a cena terminou com risos. A mulher apontou para o bumbum da nenê e fez sinal de que estava cheirando ruim... A fofura tinha enchido a fralda e, pra entender isso, não é preciso falar português nem Libras ou ouvir, basta respirar bem fundo.

Depois dessa, ainda acho que criar uma criança é a maior aventura e responsabilidade do universo. Ainda acho que não é pra mim... Mas admiro todas as mães que fazem a vida ter esses momentos que nos fazem querer guardar no potinho. A vida é difícil e tão linda, tudo ao mesmo tempo.


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Um comentário:

Debora Bottcher disse...

Pois é, Mariana... Eu também optei por não ter filhos e não me arrependo. Mas isso não nos impede de amar as crianças e respeitar suas mães - que sempre serão as melhores mães que poderão ser. Eu tenho uma amiga cuja irmã é surda e muda também e lembro que quando ela se casou, também com um rapaz com as mesmas limitações, pensei em como seria quando eles tivessem filhos. Mas foi tudo bem: as crianças são saudáveis (falam e ouvem perfeitamente) e os avós e tios ajudam no 'falatório' essencial; mas o amor, a gente sabe, é a melhor comunicação do mundo... :) Gosto muito de te ler - nem sempre comento, mas gosto.
Beijo pra vc.