quinta-feira, 27 de junho de 2013

SOBRE FAZER PARTE DE UMA NAÇÃO >> Mariana Scherma

Cada vez mais eu acho que as pessoas (sem generalizar, hein!) têm uma preguiça danada de pensar. Como se parar um pouco pra olhar pra dentro de si mesmas e do mundo fosse roubar tempo de... sei lá o quê.  Olhar ao redor e se sentir parte de uma nação não é das coisas mais simples, é sempre mais fácil esquecer em quem votou e pôr a culpa na corja de políticos. Mas aí vieram as manifestações e eu fiquei ainda mais na dúvida sobre esse questionamento em relação ao nosso mundo – ou só ao nosso Brasil mesmo.

Antes de mais nada: não, eu não sou contra a manifestação que encheu as ruas e deu fôlego a nossa democracia bebê, também não vou falar da falta de foco, afinal, não falta foco, o que sobra, na verdade, é problema. Educação precária, excesso de tarifa (cujo dinheiro vai pra onde mesmo?), saúde em colapso, transporte terrível (mas caro) e, na minha opinião, o principal: políticos que se esqueceram de que são representantes do povo e que só estão no Congresso pra resolver problemas próprios, pra ficarem ainda mais ricos – e isso desde que o Brasil é Brasil.

Aí parte dos manifestantes joga a culpa do colapso do nosso tempo na conta do PT e pede impeachment da Dilma. Oi? O que o impeachment resolve, minha gente? Nossos direitos de cidadãos têm sido precários há muito tempo, sem contar que as pessoas deveriam saber que a presidenta não tem todo esse poder onipresente, não. Boa parte dos manifestantes preguiçosos mostra suas placas de “fora, Dilma”, se orgulha de se dizer sem partido, fala muito, mas sem conteúdo coerente. Eu fico um pouco chateada com esse olhar superficial sobre a nossa política (mais uma vez, eu sei que não é a maioria), dando um jeito de parecer que é a Dilma o começo e o fim de todas as nossas mazelas. Essa preguiça de entender tudo o que acontece me deixa com vergonha alheia e não me representa em nenhum momento.

Nossos problemas começam na educação. Uma educação que não ensina ciência política, que não ensina você a enxergar mais fundo, que mal ensina você a interpretar um texto e, mesmo assim, o passa de ano. Talvez venha daí o sucesso das frases de efeito que pipocam no Facebook. Pra que ler um livro página por página se você pode abrir aspas e colocar meia dúzia de palavras da Clarice Lispector pra serem curtidas? E cá entre nós, a nossa educação anda deficitária faz tempo, não foi culpa do governo atual... Nossos problemas não começaram com a construção dos estádios da Copa de 2014. Nossa inimiga, a meu ver, não é a Copa. O Brasil poderia melhorar com a Copa, como aconteceu em países que receberam eventos desse porte. Poderia. Mas aí vem a corrupção, vêm os políticos preocupados em superfaturar e tudo se perde.

Não sei o rumo que todo esse movimento vai tomar, o que vai mudar... Só o tempo dirá quais os resultados que virão dele (a PEC 37 já foi pelo ralo, pelo menos). De um jeito ou de outro, todo mundo acordou mesmo e está se dando conta de que poderia viver num Brasil melhor, ninguém pode mais dizer que futebol é o circo do nosso pão e circo. Agora, falta questionar a culpa do governo atual, aprender como funciona o Congresso, pensar muito sobre as eleições do ano que vem, não endeusar nenhum político (e checar quem ele já apoiou e se já apoiou alguém do nível do Feliciano). Olhar para o nosso passado político é uma forma de evitar erros futuros. O problema é que nem todo mundo quer fazer isso, mais fácil achar um culpado só, pensar numa frase de efeito pra um cartaz e boa. Não é por esse caminho que vamos mudar o país. Afinal, política é das ciências mais complexas, não é simples de entender e deveria muito ser incluída nos currículos escolares. Se isso acontecesse, evitaria esse meu desabafo aqui.


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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Muito claro seu texto, Mariana. Eu sou contra as atuais manifestações - que acho nem podem mais serem chamadas assim. Virou uma confusão generalizada, ninguém nem sabe pelo que está nas ruas. E sou a favor do exército sim, pra conter essa multidão que me parece mais de desocupados e baderneiros do que gente séria. Fico chocada de ver gente que julgo inteligente postando coisas como impeachment, achando lindo a tomada do Congresso, o povo nas ruas e tudo mais. Lindo sim pra quem olha de cima, de longe, do alto. Vá lá precisar passar na Paulista com alguém tendo um enfarto no seu banco de passageiro. Vá lá tentar entrar dentro do metrô às seis da tarde, depois de um dia em que vc esteve trancada num escritório pra levar o leite, o arroz e feijão pra sua casa. Vá lá tentar chegar na escola do seu filho passando pela multidão - antes que a criança pense que vc a esqueceu. Sim, as fotos são bonitas e emblemáticas - mas cada um faz sua leitura. Eu, pessoalmente, estou horrorizada - com o que vejo nas ruas e com o que vejo rodando no meu feed. Será que viramos crianças achando que fazendo "a birra da passeata" vamos conseguir tudo que queremos? Essa preguiça de entender o que efetivamente está acontecendo além da beleza (questionável) das fotos - ou esse entendimento às avessas - também não me representa. Beijo pra vc.

Anônimo disse...

Falou tudo, mt boa