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AJUDANDO A ACONTECER >> Carla Dias >>

Há um bom tempo a minha noção sobre arte, artistas e apreciadores de tais, vem sofrendo algumas mudanças. A música e a literatura que mais me apetecem já não são na sua maioria os frequentadores das paradas de sucesso, das listas das mais-mais que pontuam o cenário do marketing ostensivo. Não que eu não deseje sucesso a todos, mas com o olhar da internet ficou muito mais fácil encontrar um punhado de gente fazendo coisas muito boas sem serem alcançados pelos holofotes.

Por incrível que pareça, apesar de o sucesso ser almejado, às vezes eles serem apanhados pela condição frágil de celebridades, a maioria dos artistas quer o que qualquer pessoa, detentora de dotes artísticos ou não, deseja: viver da sua profissão. Porém, o artista trabalha com algo que reflete diretamente no gosto alheio, sendo muito fácil, e infelizmente frequente, sua profissão ser qualificada como supérflua, mesmo um mundo sem a arte nos parecer inconcebível.

Nesse balaio - no qual se misturam os que batalham diariamente para não terem de abandonar o trabalho artístico, as celebridades inventadas, os criadores de obras efêmeras e descartáveis, os gênios das artes, os filósofos da poesia, da música, do cinema, da diversidade cultural que assola o planeta -, há também aqueles que, em um momento de lampejo criativo, compreendem qual caminho seguir para se manterem fieis as suas criações e a si mesmos.

A primeira vez que escutei falar sobre projeto colaborativo, foi bem antes da acessibilidade aos computadores, da internet. Foi em uma conversa informal entre um artista conhecido do grande público – que como muitos artistas da época, sofria com as mudanças da indústria fonográfica - e um dos seus parceiros de composição. Ele não tinha uma gravadora que bancasse seu disco, mas tinha pessoas que apreciavam sua música. Então, ele resolveu receber dessas pessoas, seus fãs, o pagamento antecipado, por um disco que ainda não havia sido gravado. Com esse dinheiro, ele bancou estúdio e confecção dos discos, e os fãs receberam o que desejavam.

Hoje em dia, a internet permite a qualquer um levantar apoio para financiar seus projetos, e em qualquer área. Porém, raramente o projeto se sustenta sem a rede de amigos, fãs, simpatizantes do autor dele. Através de recompensas, os autores permitem que seus colaboradores mergulhem mais fundo no projeto, até mesmo façam parte da realização ou criação dele. É uma relação mais próxima, que poucos conseguem manter com aqueles que apreciam. O próprio livro do Crônica do Dia, o Acaba Não, Mundo, é resultado de um projeto colaborativo.

Para aproveitar essa ferramenta do toma lá dá cá cultural, é preciso pesquisar e criar algo realmente interessante, caso o desejo seja o de ir além dos próprios contatos para a realização de um projeto. É preciso criatividade, bom gosto e abertura para que as recompensas sejam realmente atraentes. Em tempos de mega shows, receber um artista de quem gostamos para uma performance na sala de casa seria impagável, mas pode ser possível, por alguns reais, quando se trata de um projeto colaborativo.

Essa ferramenta faz pela cultura o que a Lei Rouanet deveria fazer, não andasse na contramão. Ela oferece a oportunidade para que projetos originais e criativos ganhem espaço.

Por indicação de um amigo, assisti ao vídeo da palestra de Amanda Palmer, cantora e compositora que aprendeu que saber pedir, ter consciência da razão pela qual seu pedido é atendido, faz grande diferença na vida e na obra de um artista que conta com o apoio de seus fãs para realizar seus projetos. Vale a pena assistir à palestra, que é curtinha, pouco mais de treze minutos, e muito esclarecedora.



E aproveitando o canal, apresento a vocês mais um projeto de um querido amigo e artista que admiro muito:  


Página da campanha de crowdfunding de Kleber Albuquerque:
www.mobilizefb.com/kleber.albuquerque

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