quinta-feira, 20 de junho de 2013

ME DESCULPEM, MAS VOU FALAR DE AMOR >> Fernanda Pinho



Havíamos combinado de nos casar no mês de setembro, no Brasil. Imaginando que o processo era burocrático, três meses antes começamos a reunir a documentação necessária.  Mas fui muito modesta no que imaginei. A burocracia era muito maior que o esperado, já que ele não é brasileiro e tínhamos o agravante de não estarmos no Brasil. Foi então que alguém deu a ideia e acatamentos imediatamente: vamos ver como faz pra casar aqui no Chile. O plano era simples: se fosse um pouco menos complicado que no Brasil, faríamos um casamento chileno no civil e um casamento brasileiro na igreja. Tudo em setembro. Ainda era junho, tinha que dar tempo.

Se deu. Mais uma vez fomos surpreendidos pela burocracia. No caso, pela falta dela.  E assim começou a história de um casamento que só não foi o mais rápido que eu já vi porque existe Las Vegas (se bem que, eu não conheço ninguém que casou em Las Vegas, então o meu continua sendo o único casamento de supetão que eu já presenciei).

“Por favor, queremos informação sobre como faz pra casar aqui”.
“Preciso de um documento de identidade de cada um”.
“Mas a noiva não é chilena”.
“É a mesma coisa para chilenos e estrangeiros. Apenas um documento de identidade”.

Entregamos os documentos, meio assustados com a facilidade. Assustados por inteiro ficamos com o que veio depois.

“Ótimo, pode ser sábado?”
“Pode ser sábado...o que exatamente?”
“O casamento. Vocês não vieram marcar um casamento? A juíza pode ir na casa de vocês no sábado, pode ser?”
“É...pode”.

A gente se ama. A gente já dividia o mesmo teto mas, nem por isso, foi fácil dizer que podia. Esperávamos sair de lá com, no máximo, um casamento pré-agendado pra dali a três meses. E, vale dizer, até o casamento anteriormente marcado para setembro já estava sendo considerado um pouco precipitado pelas pessoas, digamos, um pouco mais planejadoras que nós.

Mas a gente havia acabado de dizer “sim”. Não O Sim definitivo, mas que “sim, podemos nos casar no sábado”. A gente se casaria de verdade, usaríamos alianças, mudaríamos nosso estado civil na hora de preencher formulários de toda ordem, organizaríamos em três ou quatro dias o que algumas pessoas levam anos organizando e, por fim, assinaríamos aquele documento como quem diz “olha aí, gente, é sério mesmo”.

Eu estava chocada por tudo isso, o que não significa dizer que eu estava exatamente pensado nisso. A verdade é que eu não estava formulando nenhum tipo de pensamento eloquente. Fiz o percurso todo de volta pra casa em silêncio pensando coisas como: “Vou casar. C-A-S-A-R. Sábado é o o meu casamento. C-A-S-A-M-E-N-T-O. Sábado. Eu. Casar. Noiva”.

Só recuperei a compostura mental quando tive que dar a notícia para minha família e o fato de eu ter que explicar me fez entender. “Oi, mãe, tudo bem? O que você vai fazer sábado?”. “Não sei, por que?”. “Porque eu e o Osvaldo vamos nos casar”. Vamos casar porque nos amamos, porque queremos ter nossa casa, começar nossa família, nossa vida, nossa história. Queremos dividir a cama, as contas, as alegrias e as tristezas. Porque queremos ter uma casa com decoração de guitarras e girafas e filhos para presentear com livros e aparatos tecnológicos. Porque queremos ficar juntos por todos os anos e queremos que todos sejam muitos.

E desses muitos, o primeiro já passou. Com o primeiro ano, passou também o choque inicial, o que nos deixa, hoje, muito mais leves e maduros para comemorar que naquele 23 de junho.  Por isso hoje, pelo menos hoje, resolvi deixar de falar de manifestações para fala de amor. Pelo menos hoje, vou esquecer os cartazes e fazer um cartão de coração. Pelo menos hoje, vou dar um tempo num acontecimento que pode mudar a história do meu país, para falar de um acontecimento que mudou minha vida e nada mais. Pelo menos hoje, quero apenas celebrar o ato mais revolucionário da minha vida: o casamento.


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