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Mostrando postagens de Novembro, 2017

ROMPANTES >> Carla Dias >>

Ela fosse, meu bem, ele seria. Seríamos todos, em comum acordo, extasiados pelo desacordo ter assumido sua rebeldia. Porque há dias em que acontece assim: ralentamos, mas não de jeito ruim. Ralentamos para encontrar o passo, para amparar sorriso lançado ao mundo, assim, sem destinatário. 
Quer coisa mais triste que sorriso desabrigado?

Quando ela for, meus caros, ele será. Seremos todos, sem que pese sobre nós a intolerância das nossas manias. Porque, às vezes, nossas amiúdes intolerâncias – nem por isso menos injustas e danosas – são péssimos hábitos que replicamos, apenas por não termos prestado atenção à prosa; quando ela rezava, na retumbância das suas erradas, a solidão parida pelas certezas que escolhemos assumir, ignorando diferenças que deveríamos procurar compreender.

Compreender nos leva a esse lugar onde encontramos a nós mesmos. Encontrar a si mesmo não é tarefa fácil, não à toa a evitamos a todo custo, preenchendo os corredores desse supermercado emocional que nos habita …

(IN)SANIDADE MENTAL >> Clara Braga

Tenho verdadeira adoração pelos livros da Adriana Falcão. Já li e reli e sempre fico encantada com sua forma de escrever: simples e delicada, tratando sempre com leveza e as vezes até humor as situações mais diversas.
Seu histórico familiar foge um tantinho ao comum, difícil acreditar que uma pessoa que viu o pai se suicidar quando tinha apenas 18 anos e a mãe morrer de overdose consiga passar em seus textos sensações tão leves e gostosas. 
Esses dias fui reler uma entrevista dela que há tempos tinha lido e me divertido. Na entrevista ela contava que todas essas questões familiares a deixaram um tanto ansiosa, a ponto de ter ido um dia a uma taróloga e ter dito que tinha medo de avião, então a taróloga a tranquilizou: você não irá morrer em um acidente de avião. Isso foi o suficiente para ela decidir acompanhar as filhas em uma viagem de intercâmbio, só assim as filhas estariam salvas, afinal, seu destino iria se encarregar de segurar aquele avião no ar. Porém, ela acabou fazendo uma…

DO BEM, DO MAL E DA LEI >> Albir José Inácio da Silva

Tem vagabundo escrito na testa, o meliante. Fica ali, encolhido no chão com cara de coitado - que todos eles fazem essa cara mesmo - mas a mim não engana. Essa cor, esse cabelo, esse andar malandreado, a gente conhece essa raça. Só falta o fragrante.
Bastava trabalhar ele uns dois minutinhos que ele falava até o não perguntado. Mas agora tá difícil da gente trabalhar. Tem câmera em cada poste, cada esquina, além de um bando de desocupados com celulares por trás das cortinas e venezianas.
Mas não é só. Até o material que a gente carregava pra essas emergências – um pozinho, uma erva, uma pistola enferrujada - já não pode mais. Aviso da corregedoria, do comandante e do secretário. Como é que se trabalha assim? Depois reclamam que crime neste país não é solucionado!
Bem diferente dos anos 70 quando encontrei minha vocação. Aquela era uma época em que se podia fazer justiça. Tinha-se apoio das autoridades e da sociedade.
Antes disso, ainda na infância, divertia-me com as histórias do meu…

PACIÊNCIA >> Paulo Meireles Barguil

 "Eu sou nuvem passageira Que com o vento se vai." (Hermes de Aquino, Chuva passageira) Paciência, conforme o Houaiss, significa "1 qualidade do que é paciente. 1.1 virtude que consiste em suportar dissabores e infelicidades; resignação. 1.2 capacidade de persistir numa atividade difícil; perseverança. 1.3 calma para esperar o que tarda.".

Será que quem é paciente precisa pedir ou cobrar paciência ao outro?

Será que quem é paciente entende e aceita a impaciência do outro?

Será a paciência fruto da paz interna?

Caso sim, o que precisamos fazer para que ela floresça?

Véus, nuvens, crenças, sentimentos: quantos obstáculos a serem soprados para que, enfim, a Luz se manifeste em cada um de nós....

A paciência tem fim?

Ora, se a vida tem!

Acredito, contudo, que ambas, em algum espaço-tempo, recomeçam...


[Foto de minha autoria. 25 de agosto de 2011]

AOS MÚSICOS E AOS OUVINTES >> Carla Dias >>

Vivo evitando calendário e suas celebrações. É coisa minha, de quem adora dar presentes em dias ímpares, e fica feliz que só quando o dia ímpar cai em quarta-feira. É coisa que me aconteceu, na verdade. Já me basta o calendário dos compromissos da rotina. Os outros, aqueles que frequentam o ambiente dos meus afetos, a eles eu dedico certa elasticidade nesse tempo de calendário. Porém, costumo ser bem inspirada nas celebrações.

Ontem, conversando com um amigo sobre música, ele muito agoniado sobre uma geração que não conhece o que de bom as anteriores fizeram, percebi que, apesar de compreender e compartilhar de tal desalento, tenho a sorte de conhecer músicos que não me permitem apegar àquela frase abismal: não tem mais jeito.

Não há como deixar de ter jeito. Haverá sempre aqueles que farão música de forma tão bonita, seja compondo ou interpretando. Lembro-me de quando assisti a uma apresentação de orquestra pela primeira vez. Eu não conhecia aquela música, e graças às pessoas que a …

QUANDO NASCE UMA MÃE >> Clara Braga

Logo que descobri que estava grávida lembrei das pessoas dizendo: sempre que uma criança nasce, nasce também uma mãe. Me apeguei a essa ideia. Não porque a achava linda, mas porque precisava. Não me imaginava mãe de jeito nenhum, se quando meu filho nascesse não nascesse uma mãe junto ele estaria enrolado. 
Chegada a hora do parto o momento era de felicidade e dor, muita dor. Mas também, como poderia ser diferente? De dentro de mim sairia um bebê e uma mãe! Mas a verdade é que depois do bebê só saiu mesmo a placenta. Foi aí que eu descobri que mãe também é gestada por nove, quase dez meses, mas para parir é diferente. Você só se percebe mãe em momentos específicos.
Me percebi mãe quando acordei com uma respirada mais forte do meu filho ainda na maternidade. Quem diria, justo eu que há tempos não ouvia mais o despertador se ele não estivesse no máximo.
Também me vi mãe quando 20h deixou de ser a hora que eu começava a me arrumar para sair e passou a ser um horário muito tarde para faz…

NUA, BEIJANDO O SAGRADO >> Sergio Geia

Trespassa o janelão, e encontra o céu claro que emoldura o Bixiga, paisagem campestre, vazio coletivo, rico, transbordante, plural. De fora, a árvore da Lina, tão íntima, tão nua, beija o sagrado, um astro-rei, sol a iluminar São Paulo, que, cinquentenário, sabe provocar, instigar, demolir, sacodir entranhas — facadas na alma. Alguém disse que o janelão é ilegal, que contraria o Código Civil? Isso é sério, gente? A onda do mar se arma, se agiganta, vai subindo, crescendo de tesão, sobe, sobe, ereta ela sobe ainda mais, um paredão verde pronto a se desmanchar, rasgando em mil pedacinhos de inconsciências, quebrando cremosamente até tudo levar, os pensamentos mais vis. Limpa, oxigena, zera. A primavera, as noites primaveris (“A primavera é quando ninguém mais espera, a primavera é quando ninguém não, a primavera é quando do escuro da terra, acende a música da paixão; a primavera é quando ninguém mais espera, e desespera tudo em flor, a primavera é quando ninguém acredita e ressuscita por…

CHARLIE, O 'SOLITARIOFÓBICO' >> Zoraya Cesar

Era um desinfeliz, o velho Charlie. Seu epitáfio poderia ser: “nunca teve uma mulher que prestasse e todas o abandonaram”. No entanto, acreditem, ele se esforçava arduamente para manter seus relacionamentos. 
Charlie, o metamorfo – mudava de atitude, aparência, personalidade para se adequar aos gostos e preferências das amantes, namoradas, esposas (sim, casara quatro vezes). Fazia de tudo para agradar, mimar, fidelizar suas mulheres. Nada adiantava. Depois de algum tempo elas o abandonavam, deixando-o desesperado, à beira da insanidade.

Charlie ficava assim, desestruturado, por amor? Coração partido, dor de cotovelo, orgulho ferido? Não exatamente.
Charlie, o gerascomonofóbico – nosso amigo não aguentava a solidão e tinha medo de envelhecer sem a companhia de uma esposa para dividir a vida. Estar descasado ou sem namorada o deixava doente.

Doente, talvez não fosse, mas, desequilibrado, definitivamente. Vejamos. Se passasse mais de um mês sem namorada, flerte, pretendente, surtava. Deprimi…

ANTI-PAPAI NOEL>>Analu Faria

Adoro esta época do ano: é quando eu mais tenho trabalho. Eu não tenho nome, mas a partir do momento em que as luzes de Natal começam a tomar conta das ruas eles me chamam de Anti-Papai Noel. Eu também não tenho gênero, poderiam me chamar de Anti-Mamãe Noel, mas já que a  civilização judaico-cristã ocidental não dá muita bola para a Mamãe Noel, faz mais sentido eu ser a antítese do personagem principal, dada a minha importância.
Sou eu quem cutuca as entranhas até dos familiares mais despolitizados e faz com que eles se ponham a brigar, na ceia de Natal, com a tia, o avô, o primo, a neta sobre as próximas eleições. E sobre as eleições passadas também. E sobre o fato de ninguém-se-lembrar-em-quem-votou-para-vereador. (Note: o tal parente cutucado também não se lembra). Sou eu quem faz os pais se esquecerem das crianças se estapeando na cozinha, sou eu também quem enfeitiça os que estão na festa para que não percebam a avó ali no cantinho da sala, triste e sozinha. Sou eu quem cochicha…

CANTANDO NA CHUVA | DA SALA DE CASA AO PALCO DO TEATRO >> Carla Dias >>

Lembro-me, vagamente, porque minha memória adora reinvenções, de quando ficava em frente à tevê, esperando a hora. Então, a hora chegava, e enquanto as primeiras cenas aconteciam, eu arrastava os móveis, de jeito a ter o espaço necessário para meu faz de conta.

Não era a história que me fisgava, porque era menina de tudo, tinha entendimento zero sobre o que falavam. Minha diversão era acreditar que, lá na sala de casa, aconteceria igual ao que acontecia no filme, se eu me esmerasse em repetir tudo, direitinho. Por isso, se eu colasse no personagem, dançaria e cantaria bonito feito ele.

Essa é uma das coisas interessantes sobre a arte. Ela é muito da liberdade, e ousa nos permitir nos sentirmos personagens principais em histórias que não nos pertencem. Propicia devaneios sobre como seria se fizéssemos aquilo que, ao observarmos o outro executar, nos enche de prazer. A arte que nos inspira sondar nossa própria capacidade de ir além.

Cantando na Chuva é um filme americano estrelado por G…

TODO DIA É DIA >> Clara Braga

Dia de natal todos ficam mais fraternos, mais amigáveis, e sempre passamos pelo natal pensando: as pessoas podiam passar o ano inteiro sendo tão agradáveis quanto no natal, essa atmosfera natalina é tão boa!
Dia da consciência negra as escolas fazem o dia letivo diferenciado, várias programações são voltadas para a luta contra o racismo, e então pensamos: as pessoas podiam se unir para lutar contra o racismo o ano inteiro e não só em novembro.
Dia das mulheres é lindo de ver! Parece até que todo mundo entende de fato a importância desse dia. Mas se todo mundo entende, porque ainda é tão necessário que ele exista? Acho que as pessoas não entendem tanto assim.
Dia da pessoa com deficiência todo mundo entende as limitações do outro e está pronto para ajudar, nos outros dias nem lembram que existem no mundo pessoas com deficiência, afinal, não esbarram frequentemente com elas nas ruas. Engraçado, nunca pensam que se elas não estão na rua é porque a rua não é lá muito acessível. Bom, mas …

O QUE VOCÊ ESCOLHE? >> Paulo Meireles Barguil

 Fincar-se na Terra ou verter-se na Água?

Brincar com o Fogo ou fugir do Ar?

Purificar-se na Água ou queimar-se no Fogo?

Entregar-se ao Ar ou esconder-se na Terra?

Expandir-se na Água ou dissipar-se no Ar?

Transmutar-se com o Fogo ou sujar-se na Terra?


[Aquiraz – Ceará]

[Foto de minha autoria. 14 de setembro de 2017]

LUCINA E A BELEZA DE SEU CANTO DE ÁRVORE >> Carla Dias >>

Música é algo surpreendente. Para mim, ela tem servido de fio condutor para muitos relacionamentos profissionais, mas principalmente aos pessoais. No amparo da música, tenho construído a minha percepção sobre a vida. Ela é mutante, não por ser frágil, a ponto de se adequar à percepção do outro, por puro comodismo. Ao contrário, minha percepção é rebelde por natureza. Vive das inquietações e, assim, é mutante porque se mistura ao aprendizado diário, adquirido com a experiência do experimentar a música.

Nessa importância que a música tem na construção da pessoa que me torno a cada dia – construção ininterrupta e que acabará somente quando eu deixar de existir –, mora a disponibilidade de me permitir surpreender pelo o que se destaca com exuberância. Na verdade, mora a expectativa, a espera pelo o que trará essa exuberância ao conhecimento da minha percepção.

Uma dessas surpresas é o novo disco de Lucina, Canto de Árvore. Compositora que admiro muito, ela traz para esse feito uma coleçã…

APRENDENDO A VIVER EM UM MUNDO COM BEBÊ >> Clara Braga

Tornar-se mãe é só saber falar sobre maternidade. Tá aí uma afirmação que eu sempre questionei, sempre achei que mesmo sendo mãe você não pode deixar sua vida de lado. Mordi minha língua e entendi que só se fala sobre maternidade pois só se vive a maternidade.
Mas engana-se quem acha que só viver a maternidade é algo tedioso, nunca em um único mês eu aprendi e vivi tantas coisas.
Para começar pelo mais simples, descobri que pelos próximos anos não vou pegar uma blusa na gaveta que não tenha uma marca da última golfada que ele deu.
Entendi que o famoso conselho "quando ele dormir, durma também" é lindo na teoria, mas quase impossível de ser colocado em prática. Quando ele dorme você escolhe entre dormir também, comer, tomar banho ou viver um pouco. Isso quando você não está dando atenção para alguma visita. Mas é sempre bom lembrar que cochilos de 15 minutos são essenciais para sua sanidade mental.
Lavar o cabelo todo dia é luxo. Aliás, descobri que minha mãe não era louca q…

ALGUMAS RUAS >> Sergio Geia

Andava ontem, de noitinha, uma coisa boa me bateu. Nostalgia doce, logo pensei. Era a Professor Moreira; de novo. Vi o pensionato das freiras (hoje a fria Cúria Diocesana de Taubaté), a Doceria Nívea, a casa dos Castilhos. Vi a juventude (bons tempos), e me vi perambulando, sozinho, à cata de coisas que não tinha a menor ideia do que seriam, nem sabia definir, mas que empurravam a vida pra frente. A Doceria Nívea (pra minha alegria) ainda está lá — desde 83, segundo o aviso na porta. Pois me vi entrando, escolhendo doces a fim de presentear a amada (Nívea foi participante ativa de minhas táticas de sedução, pra conquistar a mulher da minha vida. Ainda engatinhando um namoro, dei de presente uma cesta de doces — a boca ainda enche de água, o coração aperta). Vi-me entrando nos Castilhos para assistir Porky’s. Vi-me empunhando um violão, soltando a voz ainda fraca, na frente do pensionato. E vi a janela se abrindo, emoldurando os mais belos sorrisos das mais belas jovens que já vi. Mas n…

ESVAZIADO >> Carla Dias >>

Há um descaramento no olhar dela que desperta nele um alvoroço interno. Descamba em um estremecimento. Tem nada a ver com devassidão, ao que ele está disponível.

Vem com esse olhar a ideia de que nunca fora observado dessa forma. Nunca um olhar o desafiara com tamanha espetaculosidade. Há algo oculto nele. Não camuflado. Sobrenatural. Há algo nesse olhar que lhe arrepia os pelos e confrange seu espírito.

Por que não se apegar ao óbvio?

Tem para si que seria muito mais benéfico para ambos se ela caminhasse em sua direção e se acomodasse em seu corpo. Experimentassem um da saliva do outro. Jura que provaria dela com desfastio, livre dúvidas ou pudores. Contudo, ela continua a oferecer o tal olhar, que muda a cadência da respiração dele.

Diz que o que ele quer é perigoso. Ele quer saber o que a leva a pensar assim. Diz que não seria problema ir até ele e estancar-lhe os desejos, mas teme o que mora nele.

“O que mora em mim? ”, ele pergunta.

Ela sorri, luxuriosa.

“O vazio”.


Imagem: Seated…