quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ROMPANTES >> Carla Dias >>

Esse texto foi inspirado nesse desenho, nessa obra linda
da talentosa Carolina Bicudo. Agradecida pela inspiração.

Ela fosse, meu bem, ele seria. Seríamos todos, em comum acordo, extasiados pelo desacordo ter assumido sua rebeldia. Porque há dias em que acontece assim: ralentamos, mas não de jeito ruim. Ralentamos para encontrar o passo, para amparar sorriso lançado ao mundo, assim, sem destinatário. 

Quer coisa mais triste que sorriso desabrigado?

Quando ela for, meus caros, ele será. Seremos todos, sem que pese sobre nós a intolerância das nossas manias. Porque, às vezes, nossas amiúdes intolerâncias – nem por isso menos injustas e danosas – são péssimos hábitos que replicamos, apenas por não termos prestado atenção à prosa; quando ela rezava, na retumbância das suas erradas, a solidão parida pelas certezas que escolhemos assumir, ignorando diferenças que deveríamos procurar compreender.

Compreender nos leva a esse lugar onde encontramos a nós mesmos. Encontrar a si mesmo não é tarefa fácil, não à toa a evitamos a todo custo, preenchendo os corredores desse supermercado emocional que nos habita com pensamentos-clientes desinteressados em nos fazer bem.

Compreender é esse antídoto eficaz para tempo perdido com o que – ou quem – não vale a pena.

Ela fosse, ele se tornaria, não para agradá-la, para atender a um desejo. Todos nos tornaríamos, sem a necessidade de desqualificarmos nossos talentos secretos: observadores de tardes furtivas, silenciadores de mágoas, iluminadores de escuridão indesejada.

Na singeleza das suas ousadias, até mesmo na grandiosidade de suas revanches, quando ela é, não há como ele não corresponder sendo também. Não há como não sermos, em resposta. Porque, se a vida fosse unicamente simples e objetiva, meu bem, ele também o seria. Seríamos, então, uma história pautada por esperas pelo óbvio. Ele, o ser humano, amiudaria. Nós definharíamos.

Enquanto ela for dos rompantes, assim ele será. Seremos. Melhor dessa forma, que ninguém quer passar a vida como quem gasta o último centavo com desejo emprestado. Proprietários dos sentimentos que abrigamos, encaramos a vida, um rompante de cada vez. Mil apaixonamentos a cada tempo.

Imagem © Carolina Bicudo | Visite: Flogoníssima.

carladias.com



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terça-feira, 28 de novembro de 2017

(IN)SANIDADE MENTAL >> Clara Braga

Tenho verdadeira adoração pelos livros da Adriana Falcão. Já li e reli e sempre fico encantada com sua forma de escrever: simples e delicada, tratando sempre com leveza e as vezes até humor as situações mais diversas.

Seu histórico familiar foge um tantinho ao comum, difícil acreditar que uma pessoa que viu o pai se suicidar quando tinha apenas 18 anos e a mãe morrer de overdose consiga passar em seus textos sensações tão leves e gostosas. 

Esses dias fui reler uma entrevista dela que há tempos tinha lido e me divertido. Na entrevista ela contava que todas essas questões familiares a deixaram um tanto ansiosa, a ponto de ter ido um dia a uma taróloga e ter dito que tinha medo de avião, então a taróloga a tranquilizou: você não irá morrer em um acidente de avião. Isso foi o suficiente para ela decidir acompanhar as filhas em uma viagem de intercâmbio, só assim as filhas estariam salvas, afinal, seu destino iria se encarregar de segurar aquele avião no ar. Porém, ela acabou fazendo uma bela confusão e pegou o vôo errado, foi sozinha para Londres chorando com medo de que o avião que levava suas filhas pudesse cair.

Na época que li essa entrevista pela primeira vez ri muito dessa situação e pensei: que coisa de doido, um exagero sem tamanho! Que bom que ela consegue rir dessa situação pois eu no lugar dela estaria preocupadíssima com minha sanidade mental!

Hoje releio com um novo olhar, pela perspectiva de mãe. As conclusões são quase as mesmas: coisa de doido, um exagero sem tamanho!! Alguém teria o telefone da Adriana Falcão? Preciso urgente do contato dessa taróloga, não custa nada saber se nas viagens de férias é mais prudente eu ir no mesmo avião ou em um avião diferente do meu filho.

Já é hora de me preocupar com minha sanidade mental?


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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

DO BEM, DO MAL E DA LEI >> Albir José Inácio da Silva

Tem vagabundo escrito na testa, o meliante. Fica ali, encolhido no chão com cara de coitado - que todos eles fazem essa cara mesmo - mas a mim não engana. Essa cor, esse cabelo, esse andar malandreado, a gente conhece essa raça. Só falta o fragrante.

Bastava trabalhar ele uns dois minutinhos que ele falava até o não perguntado. Mas agora tá difícil da gente trabalhar. Tem câmera em cada poste, cada esquina, além de um bando de desocupados com celulares por trás das cortinas e venezianas.

Mas não é só. Até o material que a gente carregava pra essas emergências – um pozinho, uma erva, uma pistola enferrujada - já não pode mais. Aviso da corregedoria, do comandante e do secretário. Como é que se trabalha assim? Depois reclamam que crime neste país não é solucionado!

Bem diferente dos anos 70 quando encontrei minha vocação. Aquela era uma época em que se podia fazer justiça. Tinha-se apoio das autoridades e da sociedade.

Antes disso, ainda na infância, divertia-me com as histórias do meu herói, Delegado Padilha. Conta-se que ele passava uma laranja por dentro da calça do suspeito de viadagem e, se a laranja não caísse no chão, estava preso. Isso porque calça justa naqueles bons tempos não era coisa de homem. Hoje a viadagem está liberada e se algum herói resolve combatê-la, por uma questão de princípios, acaba em dificuldades administrativas.

Heróis também de toda uma geração eram os 12 homens de ouro, que nos anos 60 já desbravavam os guetos imundos, arrancando de lá a escória que vivia abaixo da linha de humanidade. Limpeza que se refletia na paz e segurança do asfalto e das areias douradas da princesinha do mar e demais cartões postais do Rio de Janeiro.

Mais do que apoiar o trabalho de limpeza, os governantes incorporaram esses métodos quando precisaram cuidar de outro tipo de bandidos, com ramificações internacionais e apoio de países inimigos como Rússia, Cuba e China. Foi graças a essas práticas das delegacias fluminenses que o país não sucumbiu à dominação estrangeira.

Era um tempo em que se podia trabalhar com base na moral e nos bons costumes e não apenas em normas frouxas de um frouxo código penal e um permissivo processo.

Os responsáveis pelo controle externo da atividade policial, chegaram a ser uma preocupação logo após a Constituição de 88, mas se acalmaram depois de arregados com gratificações acima do teto. Então passaram a se ocupar da mídia, deixando espaço para uma atividade mais moralizadora dos agentes da lei.

Mas ontem, infelizmente, fiquei sabendo que, acossados pelos direitos humanos e pela pressão da imprensa, os promotores vão investigar os heróis que mais se destacaram na missão de livrar o mundo destas mazelas. Triste retrocesso.

Não bastassem as câmeras e celulares fofocando sobre o nosso trabalho, ainda temos de enfrentar a Universidade com suas pesquisas e opiniões. As malditas estatísticas apontam que onde a polícia mais mata é também onde mais morre. Os números podem até estar corretos, mas a análise está errada. Morre-se mais porque se mata pouco. “Bandido bom é bandido morto”, segundo os 12 homens de ouro.

E como já disse o comandante da Rota, não se pode abordar favelado do mesmo modo que gente de bem. O morador dos Jardins ou do Leblon, por exemplo, ficaria ofendido com uma “dura”. Bandido é bandido, do mal, ateu, não se confunde com o cidadão que teve um deslize, uns tapas numa vagabunda que passou dos limites, ou aceitou uma comissão em negócios que fazem a grandeza do país. O problema foi essa Constituição que deu direitos humanos a quem não é humano.

Enquanto valorosos representantes da bancada do bem lutam pelo restabelecimento da ordem -   como o projeto de lei que afasta do policial a punição pelas mortes - a maldição dos “direitos humanos” conseguiu emplacar uma audiência de custódia que só serve para manter impunes aqueles contra quem “não temos provas, mas temos convicção”, nas palavras de uma estrela da nossa justiça.

Ainda bem que temos eleições no próximo ano e candidato que reconhece a importância de um interrogatório bem feito, com “massagem” e convencimento.


Minha sugestão é - mais uma vez - tomar de assalto o Congresso e exigir a revogação dessa maldita constituição que protege bandidos e pune o cidadão de bem, voltando a valer a emenda número um de 1969. Aquela sim uma carta com instrumentos para uma justiça justa sob os primados da “ordem e progresso”.


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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PACIÊNCIA >> Paulo Meireles Barguil


"Eu sou nuvem passageira
Que com o vento se vai."
(Hermes de Aquino, Chuva passageira)
 
Paciência, conforme o Houaiss, significa "1 qualidade do que é paciente. 1.1 virtude que consiste em suportar dissabores e infelicidades; resignação. 1.2 capacidade de persistir numa atividade difícil; perseverança. 1.3 calma para esperar o que tarda.".

Será que quem é paciente precisa pedir ou cobrar paciência ao outro?

Será que quem é paciente entende e aceita a impaciência do outro?

Será a paciência fruto da paz interna?

Caso sim, o que precisamos fazer para que ela floresça?

Véus, nuvens, crenças, sentimentos: quantos obstáculos a serem soprados para que, enfim, a Luz se manifeste em cada um de nós....

A paciência tem fim?

Ora, se a vida tem!

Acredito, contudo, que ambas, em algum espaço-tempo, recomeçam...


[Foto de minha autoria. 25 de agosto de 2011]


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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

AOS MÚSICOS E AOS OUVINTES >> Carla Dias >>


Vivo evitando calendário e suas celebrações. É coisa minha, de quem adora dar presentes em dias ímpares, e fica feliz que só quando o dia ímpar cai em quarta-feira. É coisa que me aconteceu, na verdade. Já me basta o calendário dos compromissos da rotina. Os outros, aqueles que frequentam o ambiente dos meus afetos, a eles eu dedico certa elasticidade nesse tempo de calendário. Porém, costumo ser bem inspirada nas celebrações.

Ontem, conversando com um amigo sobre música, ele muito agoniado sobre uma geração que não conhece o que de bom as anteriores fizeram, percebi que, apesar de compreender e compartilhar de tal desalento, tenho a sorte de conhecer músicos que não me permitem apegar àquela frase abismal: não tem mais jeito.

Não há como deixar de ter jeito. Haverá sempre aqueles que farão música de forma tão bonita, seja compondo ou interpretando. Lembro-me de quando assisti a uma apresentação de orquestra pela primeira vez. Eu não conhecia aquela música, e graças às pessoas que a interpretaram naquele dia, eu aprendi um pouco mais sobre a beleza de se escutar e de se tocar um instrumento; de se permitir conduzir pela música. Aprendi, também, por meio da música, que nem tudo o que você aprecia está nas manchetes dos telejornais, nos programas de televisão. Não está no que uns e outros decidem ser bom.

Olhe para o lado. Escute outros sons.

Eu tive a sorte de bons músicos cruzarem o meu caminho. Esses bons músicos me apresentaram a música de outros bons músicos. A partir daí a história da música se misturou à história dos músicos, e eu me peguei curiosa. Talvez, o que falte mesmo seja curiosidade. Sei que é bem complicado dar atenção a ela, em tempos em que informações explodem na nossa cara, sem pausa. Mas a curiosidade é essencial.

Foi pela curiosidade, por exemplo, que me apaixonei pela música de alguns. Nem todos são famosos, mas todos são talentosos. Você pode até não ser fisgado pela música deles, mas certamente veria o talento ali. Sabe como? A música não é apenas entretenimento. Encará-la somente como diversão é aprisioná-la à função de trilha sonora para dancinhas questionáveis. Música provoca as pessoas. Já se sabe que é de grande valia ao nosso querido cérebro. Música pontua nossa vida ao se relacionar com nossas memórias e nos ajuda a socializar. E para termos essa intimidade com ela, de nos permitir emocionar, é preciso compreendermos que a música não acontece porque sim. Os músicos a trazem à vida.

Nesses anos todos lidando com música, já tive a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas, inclusive muitos dos meus ídolos. A música vem com a história dessas pessoas. Obras têm histórias, porque essas pessoas viveram essas histórias ou as imaginaram.

Hoje se celebra o Dia do Músico. Para mim, e para muitos, não é preciso lembrar da importância desses profissionais, mas muitos se esquecem disso. Porque, sim, eles vivem do que você aprecia, do que embala seus encontros com os amigos, sua festa de casamento, sua lembrança sobre quando seu primeiro filho nasceu. Muitas das conexões emocionais que você estabelece com as experiências que vive contam com trilha sonora. Quando a tristeza impera, a música ampara. A música que é trazida ao mundo pelo músico.

Pensando na minha conversa de ontem, na minha tentativa de explicar ao meu amigo que, apesar de parecer que não, há muita gente bacana fazendo música tão bacana quanto, posso concluir que se faz necessário compartilhar a música dessas pessoas. Que esses músicos merecem ser reconhecidos e não há forma mais adequada de fazê-lo do que dando a nós mesmos a chance de escutar algo novo, diferente, valoroso, ainda que não faça parte da trilha sonora da novela. Na verdade, é dar-se uma chance de conhecer alguém que seja capaz, por meio da música, de nos deslumbrar; de enriquecer nosso espírito, nosso vocabulário emocional.

Nesse dia do músico, desejo a você, ouvinte, que se desapegue da ideia de que o que é bom sempre chegará a você, e de que ele tem uma cara só; apenas um estilo. É que, quase sempre, o melhor está em outro lugar. Aos músicos, eu agradeço. Obrigada por abraçarem minha vida com seus sons.

O vídeo abaixo é na conta de um dos shows mais bonitos que já assisti. Naquele dia, Renato Borghetti me deixou muito feliz. Continuo feliz ao escutar a música dele.




PS.: Não vou listar nome dos amigos aos quais desejo um dia, uns dias, uns meses, uns anos, uma vida de músico justa e digna de reconhecimento. Até porque, desejo isso a todos que se dedicam ao ofício com apreço e cuidado. Que entregam ao mundo algo bom. Música boa.

Imagem: A melody © Beatrice Offor

carladias.com


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terça-feira, 21 de novembro de 2017

QUANDO NASCE UMA MÃE >> Clara Braga

Logo que descobri que estava grávida lembrei das pessoas dizendo: sempre que uma criança nasce, nasce também uma mãe. Me apeguei a essa ideia. Não porque a achava linda, mas porque precisava. Não me imaginava mãe de jeito nenhum, se quando meu filho nascesse não nascesse uma mãe junto ele estaria enrolado. 

Chegada a hora do parto o momento era de felicidade e dor, muita dor. Mas também, como poderia ser diferente? De dentro de mim sairia um bebê e uma mãe! Mas a verdade é que depois do bebê só saiu mesmo a placenta. Foi aí que eu descobri que mãe também é gestada por nove, quase dez meses, mas para parir é diferente. Você só se percebe mãe em momentos específicos.

Me percebi mãe quando acordei com uma respirada mais forte do meu filho ainda na maternidade. Quem diria, justo eu que há tempos não ouvia mais o despertador se ele não estivesse no máximo.

Também me vi mãe quando 20h deixou de ser a hora que eu começava a me arrumar para sair e passou a ser um horário muito tarde para fazer qualquer coisa.

Mais de três pessoas passou a ser muita gente. Coitado, ainda não sabe direito nem quem é a mãe e o pai, se ficar ouvindo muitas vozes e passando de colo em colo vai ficar muito estressado.

Meu amor por cachorros sumiu no dia que desci para passear com meu filho no carrinho e um cachorro começou a latir para o carrinho. Normalmente ao ver um cachorro, mesmo latindo, pensava: que lindo, queria tanto um cachorro! Nesse dia pensei: se chegar perto do meu filho vai se arrepender!

Ah, e claro que também me vejo mãe toda vez que vou escrever uma crônica e o único assunto que tenho é a maternidade. Não é que outros assuntos não sejam interessantes ou importantes, mas é que entre fraldas e cólica não me resta mesmo muita novidade para contar.


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sábado, 18 de novembro de 2017

NUA, BEIJANDO O SAGRADO >> Sergio Geia


 
Trespassa o janelão, e encontra o céu claro que emoldura o Bixiga, paisagem campestre, vazio coletivo, rico, transbordante, plural. De fora, a árvore da Lina, tão íntima, tão nua, beija o sagrado, um astro-rei, sol a iluminar São Paulo, que, cinquentenário, sabe provocar, instigar, demolir, sacodir entranhas — facadas na alma. Alguém disse que o janelão é ilegal, que contraria o Código Civil? Isso é sério, gente?
A onda do mar se arma, se agiganta, vai subindo, crescendo de tesão, sobe, sobe, ereta ela sobe ainda mais, um paredão verde pronto a se desmanchar, rasgando em mil pedacinhos de inconsciências, quebrando cremosamente até tudo levar, os pensamentos mais vis. Limpa, oxigena, zera.
A primavera, as noites primaveris (“A primavera é quando ninguém mais espera, a primavera é quando ninguém não, a primavera é quando do escuro da terra, acende a música da paixão; a primavera é quando ninguém mais espera, e desespera tudo em flor, a primavera é quando ninguém acredita e ressuscita por amor” — ouço sua voz guerreira cantando), mas não a noite, primeiro a tarde; sim, a tarde alva, água que vai virando vinho, nuvem negra que vira chuva, chuva que encharca, gelo que quebranta, então a noite, gloriosa, pacífica, desliza suave pós-caos.
O caos, sim, o caos — como eu poderia me esquecer? —, tão necessário, tão importante para tudo; para agrupar, para organizar, para não morrer. Mas não há caos sem onda, sem chuva, sem terra rasgando em fendas, sem Oficina.
Me paraliso no caos, me perpetuo no caos, me entrego no caos, clamo por ele. Caos, você agora é o meu tudo! Stelarc, Orlan, Lady Jaye e Genesis, Aimee. Gregório, Villa-Lobos, Oswald, Nelson, Glauber, Fernanda, Chico, Caio, Ney, Zé. “Um clamor, um convocar, um convulsionar, um amar”, que desorganiza uzyna uzona e gera vida.
Que faz andar, rodar (Roda Viva!), que ayuasca, peyote, donpedrito, vinhos e ervas embalam, ó doce Xamã, salve a sacação! As suas! Sua resistência inspira, desorganiza, sacode, convoca, convulsiona, faz amar! À descolonização! À revolução! Ao descovardamento!
No parque — a imagem vem assim boba, do nada mesmo —, a toalha estendida, o chão-terra, o sagrado, harmonia doce, intimidade que acarinha o corpo nu  — “o poente na espinha de tuas montanhas, quase arromba a retina de quem vê” (Chico), ele no azul do céu, sol desbotando, ar fino, sacolejando por dentro.
Pois o sagrado é você, doce vítima. Desse humanoide capitalista que tudo destrói, especula, imobiliza, estupra. Sete Quedas, São Francisco. Augusta? Oficina? Quer tirar o ar, matar por asfixia, asfixia mecânica. Quer destruir, estuprar, estupro seguido de morte, roubar, matar, latrocínio cultural.
Não vai conseguir.
Você é pura energia.  
P.S.:
1. O Grupo Silvio Santos quer erguer duas torres no Bixiga, na frente do teatro Oficina, num terreno que lhe pertence; Zé Celso, que já está no local há quase 60 anos, quer a desapropriação da área, a criação de um espaço cultural ao ar livre. Numa reunião no Condephaat, o Zé falou: “Nós vamos morrer, Silvio, nós passamos, mas tudo aquilo vai ficar”. Pensei: consciência cidadã (lembrei: ele é chefe da minha prima – que orgulho de você, Brenda!), espinha enroscada na garganta de quem se nega a enxergar as coisas doces.  Pensei também: um monumento às artes ou mais espigões na selva paulistana? Difícil escolha, não?
2. No facebook, ou em qualquer outro lugar, defendo o projeto do Zé Celso. Essa causa não é só dele, do Oficina, do Bixiga, de São Paulo. É nossa!
#Fica Oficina!
#NÃO ÀS TORRES!
3. Primavera – Zé Miguel Wisnik
4. Ilustração – Facebook Teatro Oficina Uzyna Uzona
 


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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CHARLIE, O 'SOLITARIOFÓBICO' >> Zoraya Cesar

Era um desinfeliz, o velho Charlie. Seu epitáfio poderia ser: “nunca teve uma mulher que prestasse e todas o abandonaram”. No entanto, acreditem, ele se esforçava arduamente para manter seus relacionamentos. 

Charlie, o metamorfo – mudava de atitude, aparência, personalidade para se adequar aos gostos e preferências das amantes, namoradas, esposas (sim, casara quatro vezes). Fazia de tudo para agradar, mimar, fidelizar suas mulheres. Nada adiantava. Depois de algum tempo elas o abandonavam, deixando-o desesperado, à beira da insanidade.

Charlie ficava assim, desestruturado, por amor? Coração partido, dor de cotovelo, orgulho ferido? Não exatamente.

Charlie, o gerascomonofóbico – nosso amigo não aguentava a solidão e tinha medo de envelhecer sem a companhia de uma esposa para dividir a vida. Estar descasado ou sem namorada o deixava doente.

Doente, talvez não fosse, mas, desequilibrado, definitivamente. Vejamos. Se passasse mais de um mês sem namorada, flerte, pretendente, surtava. Deprimia-se, tornava-se insone e inapetente. O que Charlie queria, precisava, ansiava, era casar, morar junto, amigar.

Consciente de sua predisposição, digamos, peculiar, juntara duas fobias – a de envelhecer e a de ficar sozinho – e criara um novo termo, para se autodenominar. Sou um gerascomonofóbico, dizia, orgulhoso.

Terapia? Jamais. Dizia que era um sujeito normal. Afirmava não temer a velhice – recusava-se a fazer implantes para cobrir a vasta careca pontilhada de marcas da idade ou a recorrer a truques estéticos para eliminar as rugas; nada fazia para disfarçar a decadência que pouco a pouco invade nosso corpo à medida em que passam os anos.

Apenas não queria passar por esse processo sem alguém ao seu lado. Se, durante a juventude, já sofria com a solteirice, agora, que a velhice esmurrava sua porta, a situação tornara-se mais crítica. Dizia que não era doente, era sensato. Quem quer envelhecer sozinho? 

Ah, diriam vocês, mas isso é fácil de resolver. E eu rebato: não. Nada na vida de Charlie era fácil de resolver. 

Charlie e seu carma - frequentava bares, aceitava encontros às escuras, entrava em sites de relacionamentos. Tudo para ter uma mulher para chamar de sua, Deus de bondade, para se sentir casado, amigado, juntado de cama e mesa e banho, de mala e cuia, ser a corda de alguma caçamba. E, ainda assim, nada dava certo, não por muito tempo.

Era má pessoa, teria hábitos execráveis, vícios insanáveis, algo que realmente o desabonasse? Roncava, fedia, deixava de tomar banho? Não! Então, por que era sempre abandonado?

Ninguém sabia. Talvez fosse um pouco chato, grudento, carente, o nosso amigo - mas isso não é explicação, é constatação. Talvez fosse algo cármico, pois estava pra nascer alguém com o dedo mais podre para escolher parceiras do que Charlie. 

Como escolhia mal! Na ânsia por não ficar sozinho, aceitava o que viesse. Perdulárias, trambiqueiras, pistoleiras, vadias, vulgares... não importa; entregava-se por inteiro – corpo, alma e o que mais tivesse para entregar, até a dignidade. 

E, mesmo passando por cima de algumas desvirtudes de suas amadas, ainda assim, elas o abandonavam sem dó nem piedade. Às vezes sem otras cositas más, como dinheiro, jóias de família, celulares... A última esposa, pela qual Charlie ainda chorava, partira fazendo uma limpa na casa; só não levara o que não pudera ou quisera. Como o fogão. E uma panela velha.

Charlie, o desesperado – fazia quase um mês que Charlie não encontrava uma companhia que pudesse vir a ser uma parceira, esposa, ficante, amante, 'esposamante'.

Sentia-se cansado e perplexo. As mulheres não querem compromisso sério, contorcia-se, em amargor e pânico. Estava ficando velho, não tinha mais tempo para longos e rebuscados namoros. E se não arranjasse mais ninguém? Estaria condenado a ver a vida a se arrastar, sozinho?

Ajoelhou e pediu a Deus uma companheira para passar os dias de seus últimos anos. Uma que não lhe roubasse ou batesse; que não desgrudasse dele. Bastava isso. Além de não ser jovem, também não era rico ou bonito, nem primava pela cultura ou inteligência. Não podia, a seu entender, ser muito exigente (aliás, nunca fora, como vimos).
Charlie se desesperava, achando que não teria tempo de encontrar
com quem passar o resto de sua vida.
Não dava para ser exigente. 

Àquela hora imprópria, em que ele, ajoelhado, sofria tão sofrentemente, a campanhia tocou.

Sobressaltou-se. Como pudera esquecer? Era dia de faxina!

Charlie, o esperançoso - Cruzdeusa, a faxineira, só não era mais feia por impossível.

Era apelidada, em surdina, de “gêmea de Belzebu”. Tinha os dentes amarelados pela nicotina e era mais vesga que o Christopher Lambert. Gostava de perfumes fortes, bijuterias extravagantes e era chegada a uma carraspana de cerveja. Casara quando bem nova, e, dizem as más, péssimas, línguas que o marido morreu de susto ao acordar e se deparar com o rosto da mulher muito próximo ao dele.

Nunca mais casara, D. Cruzdeusa, desde então, e vivia se queixando que, aos 64 anos, ainda era moça pra ficar sozinha, queria um homem pra chamar de seu, pra mostrar às amigas...

Charlie sorriu. Minha prece, pensou, foi atendida. 

Foto: Myriams Fotos in Pixabay


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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ANTI-PAPAI NOEL>>Analu Faria

Adoro esta época do ano: é quando eu mais tenho trabalho. Eu não tenho nome, mas a partir do momento em que as luzes de Natal começam a tomar conta das ruas eles me chamam de Anti-Papai Noel. Eu também não tenho gênero, poderiam me chamar de Anti-Mamãe Noel, mas já que a  civilização judaico-cristã ocidental não dá muita bola para a Mamãe Noel, faz mais sentido eu ser a antítese do personagem principal, dada a minha importância.

Sou eu quem cutuca as entranhas até dos familiares mais despolitizados e faz com que eles se ponham a brigar, na ceia de Natal, com a tia, o avô, o primo, a neta sobre as próximas eleições. E sobre as eleições passadas também. E sobre o fato de ninguém-se-lembrar-em-quem-votou-para-vereador. (Note: o tal parente cutucado também não se lembra). Sou eu quem faz os pais se esquecerem das crianças se estapeando na cozinha, sou eu também quem enfeitiça os que estão na festa para que não percebam a avó ali no cantinho da sala, triste e sozinha. Sou eu quem cochicha no ouvido do tio que aquele sobrinho ali  "é gay que eu sei". Aliás, sou eu quem inventou o "é pavê ou pacumê" e as uvas-passas no arroz (sim, eu sou um gênio!). 

Não, eu não sou Aquele responsável pela guerra na Síria, nem pelo fato de o cerrado ter encolhido mais que a Amazônia este ano. Isso é coisa lá da Diretoria. Ou de vocês mesmos. Eu sou mais um fanfarrão. Aposto que até você ri do que eu faço com os finais de ano. Em outras épocas, eu só aumento a taxa de obesidade (fui eu quem criou o cronut, o bolo de churros e batata frita coberta com queijo cheddar), incentivo a fofoca entre vizinhos, escondo aquele relatório que você nunca achou, aumento o preço da cesta básica. 

Este ano, porém, embora eu já esteja todo serelepe, um filhote de cachorro me deixou encafifado. Tremia debaixo de uma marquise, com um medo danado da chuva. Eu, que em outros tempos tomaria isso como inspiração, fiquei condoído e dei abrigo ao bicho. Devo estar convivendo demais com os humanos: prometi que ia só dar água e comida e que voltaria mais tarde para ver como estava, mas não, resolvi brincar, dar carinho, abraçar, levei para casa. Lá se foi o dia. Deixei de fazer uma velhinha tropeçar na rua, de atiçar um moleque para plagiar o trabalho de um colega, de incentivar a pedreirada a passar a famosa "ôôôô lá em casa" para as 32 mulheres que passariam pela construção hoje. Preciso fazer um pedido à Diretoria, para que tire do caminho da gente essas coisas que minam a força de vocês, humanos. Um cachorro, um abraço, uma obra de arte, uma amoreira... isso tudo atrapalha muito.


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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

CANTANDO NA CHUVA | DA SALA DE CASA AO PALCO DO TEATRO >> Carla Dias >>


Lembro-me, vagamente, porque minha memória adora reinvenções, de quando ficava em frente à tevê, esperando a hora. Então, a hora chegava, e enquanto as primeiras cenas aconteciam, eu arrastava os móveis, de jeito a ter o espaço necessário para meu faz de conta.

Não era a história que me fisgava, porque era menina de tudo, tinha entendimento zero sobre o que falavam. Minha diversão era acreditar que, lá na sala de casa, aconteceria igual ao que acontecia no filme, se eu me esmerasse em repetir tudo, direitinho. Por isso, se eu colasse no personagem, dançaria e cantaria bonito feito ele.

Essa é uma das coisas interessantes sobre a arte. Ela é muito da liberdade, e ousa nos permitir nos sentirmos personagens principais em histórias que não nos pertencem. Propicia devaneios sobre como seria se fizéssemos aquilo que, ao observarmos o outro executar, nos enche de prazer. A arte que nos inspira sondar nossa própria capacidade de ir além.

Cantando na Chuva é um filme americano estrelado por Gene Kelly, Donald O’Connor, Debbie Reynolds e Jean Hagen. Foi lançado em 1952, e apesar de seu sucesso contido na época, tornou-se referência para o cinema musical. Ambientado nos anos 20, a trama mostra, de forma bem-humorada, como a chegada do cinema falado afetou o universo dos empresários da indústria cinematográfica e suas estrelas.

Neste ano, Cantando na Chuva ganhou uma adaptação brasileira, com Jarbas Homem de Mello e Claudia Raia. Em cartaz até 17 de dezembro no Teatro Santander, a casa sempre lotada prova que a história de Dom Lockwood, Kathy Selden, Cosmo Brown e Lina Lamont se mostra atemporal, até mesmo com as significativas mudanças tecnológicas. Afinal, desde o cinema falado, foram muitas as mudanças. Talvez não tão significativas, mas definitivamente marcantes.

Foto © Divulgação

Domingo passado, eu e Lucy, minha companheira de musicais, fomos assistir ao espetáculo. Assim como muitos dos presentes, eu estava ansiosa por aquela cena, que só de saber que ela aconteceria ali, naquele palco, fez com que a música ficasse tocando na minha cabeça. Apreciadora que sou do filme, esperava algo agradável. Fã que sou do Jarbas, sabia que haveria muito o que apreciar, principalmente o sapateado. Ainda assim, fui surpreendida, e várias vezes, com a fluidez dos diálogos, o humor bem pontuado, as interpretações e a música bem executada, tanto pelos músicos da banda, quanto pelos atores.

E a dança, claro.

Dom Lockwood (Jarbas Homem de Mello) e Lina Lamont (Claudia Raia) são o casal sensação das telas de cinema e das revistas sobre celebridades. Apesar de o estúdio vender a ideia de que eles são um casal, Lockwood não suporta Lamont. Com o projeto do primeiro filme falado da dupla, surge um grande problema: a voz de Lina Lamont. Lockwood conheceu a atriz Kathy Selden (Bruna Guerin) e se apaixonou de imediato por ela. É Selden quem atende à ideia de Cosmo Brown (Reiner Tenente) e se torna a voz de Lamont.

Foto © Divulgação

Fascinou-me assim, com toda grandiosidade do feito, as trocas de cenário, assim como a iluminação. A sutileza da interferência das mudanças de cenário e de iluminação são tão bem coreografadas, com sutileza, apesar das mudanças grandiosas. Viajávamos das ruas para o estúdio, para a sala de cinema, para o camarim em uma transição natural, o que só colaborava com a continuidade das cenas e não distraia nossa atenção do todo.

O cenário é apenas uma das belezas de Cantando na Chuva. O elenco entrega a história com fluidez. Há belíssimos números de dança. Os diálogos contam com um humor refinado, quase sempre conduzido por Brown, por um Tenente muito divertido. Aliás, o humor descamba para o surreal – com todo requinte, devo dizer – por meio da personagem de Lamont. Claudia Raia deu ao personagem o tom certo, divertindo o público com a transição de bela atriz do cinema mudo para uma pessoa nada agradável, com uma voz irritante. Guerin... Que lindeza de voz.

Os números de sapateado me deixaram muito feliz. Claro que o ritmo me pega de jeito, que ele ocupa um espaço importante na minha apreciação e na minha vida. Jarbas me encantou com os números que protagonizou. A cada espetáculo, eu o admiro ainda mais, pelo talento dele ao dançar, atuar e cantar. Porém, a cena da chuva, aquela que Gene Kelly eternizou, que me fez subir no sofá da sala da minha infância, como se me enroscasse naquele poste, com meu guarda-chuva, bom, a versão que assisti naquele palco, domingo passado, é a que vou carregar comigo sempre que tiver de explicar o que é deslumbramento. O aspecto técnico é impressionante. Chove no palco... Chove. Mas a forma como Jarbas entrega aquela cena, foi ela que me encheu o espírito de contentamento.

Foto © Divulgação

Claro que a nostalgia me pegou de jeito. De certa forma, a menina da sala, que fazia de conta que era parte do que acontecia na tela de tevê, assistiu ao espetáculo de maneira diferente. No final das contas, personagens se tornaram importantes para mim. Não sou dançarina, não sou atriz, não sou cantora, mas aprendi a apreciar quem o é. Aprendi apreciar a construção daqueles que dançam, atuam e cantam, a motivação deles. Aprendi a criar personagens, e eles sabem fazer muitas coisas que nunca farei, mas que vão sempre desafiar meus sentidos. Aquela imaginação de criança, aquela inspiração na infância das minhas percepções, ajudaram para que eu me encontrasse nessa terra de desafios, espantos e deslumbramentos que é a arte. E daqui em diante, toda vez que alguém questionar de que nos serve a arte, eu me lembrarei daquela cena de Jarbas interpretando Dom, debaixo de chuva, em um palco de teatro de São Paulo.

CANTANDO NA CHUVA
Em cartaz até 17 de dezembro.

Teatro Santander
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
Itaim Bibi, São Paulo - SP

Clique AQUI para comprar o ingresso.

carladias.com



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terça-feira, 14 de novembro de 2017

TODO DIA É DIA >> Clara Braga

Dia de natal todos ficam mais fraternos, mais amigáveis, e sempre passamos pelo natal pensando: as pessoas podiam passar o ano inteiro sendo tão agradáveis quanto no natal, essa atmosfera natalina é tão boa!

Dia da consciência negra as escolas fazem o dia letivo diferenciado, várias programações são voltadas para a luta contra o racismo, e então pensamos: as pessoas podiam se unir para lutar contra o racismo o ano inteiro e não só em novembro.

Dia das mulheres é lindo de ver! Parece até que todo mundo entende de fato a importância desse dia. Mas se todo mundo entende, porque ainda é tão necessário que ele exista? Acho que as pessoas não entendem tanto assim.

Dia da pessoa com deficiência todo mundo entende as limitações do outro e está pronto para ajudar, nos outros dias nem lembram que existem no mundo pessoas com deficiência, afinal, não esbarram frequentemente com elas nas ruas. Engraçado, nunca pensam que se elas não estão na rua é porque a rua não é lá muito acessível. Bom, mas não vamos reclamar, melhor ter um dia do que não ter nenhum!

Dia do amigo aqueles amigos que passam o ano inteiro sem se ver lembram de mandar uma mensagem no facebook do outro dizendo o quanto se gostam! Santo facebook que além de lembrar dos aniversários lembra que é dia do amigo! Vamos determinar um dia para celebrar a criação do facebook, e que seja feriado internacional e nunca caia no final de semana. Já existe data de tudo mesmo, mais uma não seria problema.

Várias datas são comemoradas uma vez ao ano e esquecidas no resto dele. Achamos ruim, reclamamos, nos questionamos porque não conseguimos ter compaixão o ano todo. Agora, se ser amigo e consciente só em datas específicas já é ruim, coitada da gentileza, seu dia passou e nem nele as pessoas lembraram de comemorar!


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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O QUE VOCÊ ESCOLHE? >> Paulo Meireles Barguil


Fincar-se na Terra ou verter-se na Água?

Brincar com o Fogo ou fugir do Ar?

Purificar-se na Água ou queimar-se no Fogo?

Entregar-se ao Ar ou esconder-se na Terra?

Expandir-se na Água ou dissipar-se no Ar?

Transmutar-se com o Fogo ou sujar-se na Terra?


[Aquiraz – Ceará]

[Foto de minha autoria. 14 de setembro de 2017]

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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

LUCINA E A BELEZA DE SEU CANTO DE ÁRVORE >> Carla Dias >>


Música é algo surpreendente. Para mim, ela tem servido de fio condutor para muitos relacionamentos profissionais, mas principalmente aos pessoais. No amparo da música, tenho construído a minha percepção sobre a vida. Ela é mutante, não por ser frágil, a ponto de se adequar à percepção do outro, por puro comodismo. Ao contrário, minha percepção é rebelde por natureza. Vive das inquietações e, assim, é mutante porque se mistura ao aprendizado diário, adquirido com a experiência do experimentar a música.

Nessa importância que a música tem na construção da pessoa que me torno a cada dia – construção ininterrupta e que acabará somente quando eu deixar de existir –, mora a disponibilidade de me permitir surpreender pelo o que se destaca com exuberância. Na verdade, mora a expectativa, a espera pelo o que trará essa exuberância ao conhecimento da minha percepção.

Uma dessas surpresas é o novo disco de Lucina, Canto de Árvore. Compositora que admiro muito, ela traz para esse feito uma coleção de canções belíssimas, compostas em parceria com músicos e poetas e pessoas interessadas em mergulhar na vida, não apenas observá-la; esperar que ela aconteça.

Aprecio a identidade musical de Lucina, a forma como ela fala por meio de seu violão, como ela entoa a poesia das letras das canções. A conexão que mantemos com a música que nos entregam é alimentada pelas sutilezas. Em Canto de Árvore, Lucina se vale delas para tocar a música que encanta e cantar as palavras que evocam cenários e explicitam catarses, como na belíssima Rio de Chão, parceria com Inês Blanchart:

Já sei andar sozinha comigo,
Como se fosse rio sem chão.
O vento arruma meus desalinhos,
O fogo acalma minhas paixões.

Antes de conhecer, de saber do que tratava a poesia, eu escrevia poemas, mas por conta das letras das músicas que eu escutava no rádio da minha avó. Canções despertaram a poesia em mim, talvez por isso a música tenha se tornado personagem recorrente nos meus escritos. Certamente, por conta disso os compositores me são tão caros.

Canto de Árvore é daqueles discos que nos lembram de como pode ser fantástica a viagem de escutar canções. Os sons e as palavras se casam bonito nesse trabalho, enquanto Lucina tece esse caminho, provocando, sutil, porém efetivamente, uma revolução na perspectiva do ouvinte.

Ainda estou descobrindo as nuances de Canto de Árvore. Neste momento, O Espectador, parceria com o poeta Joãozinho Gomes, elucida:

E Deus assiste de óculo do alto de um obelisco
àquele  imenso obstáculo: reter os passos
que buscam salvar os que correm risco
na beira desse penhasco,
o mais sombrio precipício, sem fundo e sem riacho.

Zé Renato Fressato, arrudA, Luhli, Aloísio Brandão, AlziraE, Paulinho Mendonça, Iso Fischer e Paulo Bastos também contracenam com Lucina na criação das canções de Canto de Árvore. Décio Gioielli, Marcelo Dworecki, Peri Pane, Otávio Ortega e Ney Marques compartilham os sons do feito. Lucina conseguiu reunir neste disco pessoas capazes de dar destaque aos matizes do belo.

É preciso trazer ao mundo discos como este, que celebrem a música na qualidade de sua criação e na beleza de sua execução.



Lucina apresenta seu novo álbum, Canto de Árvore, no Estúdio Showlivre.







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terça-feira, 7 de novembro de 2017

APRENDENDO A VIVER EM UM MUNDO COM BEBÊ >> Clara Braga

Tornar-se mãe é só saber falar sobre maternidade. Tá aí uma afirmação que eu sempre questionei, sempre achei que mesmo sendo mãe você não pode deixar sua vida de lado. Mordi minha língua e entendi que só se fala sobre maternidade pois só se vive a maternidade.

Mas engana-se quem acha que só viver a maternidade é algo tedioso, nunca em um único mês eu aprendi e vivi tantas coisas.

Para começar pelo mais simples, descobri que pelos próximos anos não vou pegar uma blusa na gaveta que não tenha uma marca da última golfada que ele deu.

Entendi que o famoso conselho "quando ele dormir, durma também" é lindo na teoria, mas quase impossível de ser colocado em prática. Quando ele dorme você escolhe entre dormir também, comer, tomar banho ou viver um pouco. Isso quando você não está dando atenção para alguma visita. Mas é sempre bom lembrar que cochilos de 15 minutos são essenciais para sua sanidade mental.

Lavar o cabelo todo dia é luxo. Aliás, descobri que minha mãe não era louca quando dizia que 10 minutos são mais do que suficientes para tomar banho.

Falando em mãe, entenda de uma vez por todas: a culpa é sempre da mãe. Você vai se sentir culpada por tudo, e os raros momentos que você não estiver se sentindo culpada alguém vai fazer com que você se sinta.

Você não acredita em mandingas, mas depois de dez minutos de um bebê irritado por causa de soluço você dá um jeito de arrumar uma lã vermelha e colocar na testa dele com cuspe.

Não existe ideologia que se sustente depois de uma semana sem dormir. Acordar de hora em hora não é mole, rapidinho você esquece todo seu discurso sobre chupeta ser ruim e coloca uma na boca do seu filho para ele dormir um pouquinho mais.

Você jura que sabe várias músicas infantis até ter que cantar.

Você vai se perceber mais nostálgica do que nunca e, de repente, viver em um mundo sem Sandy e Junior torna-se algo muito ruim. Sorte que a Xuxa voltou a fazer shows.

Ir ao pediatra é um baita evento, afinal, as vezes você passa tanto tempo em casa que esquece como é a rua.

Amamentar pode não ser tão mágico quanto dizem que é.

E, para terminar por enquanto, afinal, preciso de material para as próximas crônicas, descobri que a expressão "dormir que nem um bebê" sempre foi usada de forma errada, na verdade ela significa que você acorda, no mínimo, de três em três horas, ou seja, é quase sinônimo de insônia.


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sábado, 4 de novembro de 2017

ALGUMAS RUAS >> Sergio Geia

 

Andava ontem, de noitinha, uma coisa boa me bateu. Nostalgia doce, logo pensei. Era a Professor Moreira; de novo. Vi o pensionato das freiras (hoje a fria Cúria Diocesana de Taubaté), a Doceria Nívea, a casa dos Castilhos. Vi a juventude (bons tempos), e me vi perambulando, sozinho, à cata de coisas que não tinha a menor ideia do que seriam, nem sabia definir, mas que empurravam a vida pra frente.
A Doceria Nívea (pra minha alegria) ainda está lá — desde 83, segundo o aviso na porta. Pois me vi entrando, escolhendo doces a fim de presentear a amada (Nívea foi participante ativa de minhas táticas de sedução, pra conquistar a mulher da minha vida. Ainda engatinhando um namoro, dei de presente uma cesta de doces — a boca ainda enche de água, o coração aperta). Vi-me entrando nos Castilhos para assistir Porky’s. Vi-me empunhando um violão, soltando a voz ainda fraca, na frente do pensionato. E vi a janela se abrindo, emoldurando os mais belos sorrisos das mais belas jovens que já vi.
Mas não era minha intenção falar do que vi, principalmente por ser a Professor Moreira. Já tenho uma crônica publicada exatamente com este título: “Na Professor Moreira”, em que falo dessas coisas, lembranças que tenho de lá, dos Castilhos, das serenatas que fazíamos para as jovens do pensionato, da tristeza que senti ao ver que hoje, tudo mudou, que a rua, assim como a Desembargador, a Barão, virara uma rua de comércio.
Vi-me na dona Sinfa — como me queria bem —, entrando em sua casa, sendo recebido com certa formalidade, um copo de água e todo o carinho do mundo (uma vez, venci a eleição para dirigir os jovens da paróquia. Ela, muito ativa na igreja, ministra de eucaristia, catequista, coordenadora de diversos cursos, me chamou para me cumprimentar pela eleição e para dizer que “agora, o grupo de jovens vai”, que somente eu teria pulso para dirigir o grupo.) Ah, dona Sinfa! Morreu cedo. De repente, chegou a notícia de sua morte. Eu muito senti.
Pois me vi ainda entrando na casa da Roseli, pra tomar banho de piscina. Abrindo o portão da Marli para um aniversário. Conversando com dona Eugênia. Jogando detetive numa varanda. Bebendo todas no Água na Boca. Sorrindo, beijando, amando, flutuando. Ah, Professor Moreira, o que fazes comigo?
Se eu tivesse que apontar as minhas ruas dessa Taubaté, eu não titubearia: primeiro, a Desembargador Paulo de Oliveira Costa; a Professor Moreira e, por fim, a Barão da Pedra Negra, e a Praça Santa Teresinha.
A Desembargador, porque lá morei por 25 anos. Porque lá tinha amigos, porque lá joguei bola, quando ela era uma avenida tranquila. Porque lá andei de bicicleta, empinei pipa, joguei botão, bolinha de gude, toquei violão. Porque lá, às vezes, eu ficava sentado vendo o tempo passar, olhando o céu, as mulheres bonitas.
A Professor Moreira eu já disse.
A Barão, porque lá construímos a caverna dos ratos (sim, João, eu lembro).
E a Santa Teresinha porque me acolheu criança, jovem, e me acolhe todos os dias, hoje, amanhã, sempre, até a luz se apagar.
 
Ilustração: Praça Santa Teresinha


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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

ESVAZIADO >> Carla Dias >>


Há um descaramento no olhar dela que desperta nele um alvoroço interno. Descamba em um estremecimento. Tem nada a ver com devassidão, ao que ele está disponível.

Vem com esse olhar a ideia de que nunca fora observado dessa forma. Nunca um olhar o desafiara com tamanha espetaculosidade. Há algo oculto nele. Não camuflado. Sobrenatural. Há algo nesse olhar que lhe arrepia os pelos e confrange seu espírito.

Por que não se apegar ao óbvio?

Tem para si que seria muito mais benéfico para ambos se ela caminhasse em sua direção e se acomodasse em seu corpo. Experimentassem um da saliva do outro. Jura que provaria dela com desfastio, livre dúvidas ou pudores. Contudo, ela continua a oferecer o tal olhar, que muda a cadência da respiração dele.

Diz que o que ele quer é perigoso. Ele quer saber o que a leva a pensar assim. Diz que não seria problema ir até ele e estancar-lhe os desejos, mas teme o que mora nele.

“O que mora em mim? ”, ele pergunta.

Ela sorri, luxuriosa.

“O vazio”.


Imagem: Seated Couple © Egon Schiele

carladias.com



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