quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ROMPANTES >> Carla Dias >>

Esse texto foi inspirado nesse desenho, nessa obra linda
da talentosa Carolina Bicudo. Agradecida pela inspiração.

Ela fosse, meu bem, ele seria. Seríamos todos, em comum acordo, extasiados pelo desacordo ter assumido sua rebeldia. Porque há dias em que acontece assim: ralentamos, mas não de jeito ruim. Ralentamos para encontrar o passo, para amparar sorriso lançado ao mundo, assim, sem destinatário. 

Quer coisa mais triste que sorriso desabrigado?

Quando ela for, meus caros, ele será. Seremos todos, sem que pese sobre nós a intolerância das nossas manias. Porque, às vezes, nossas amiúdes intolerâncias – nem por isso menos injustas e danosas – são péssimos hábitos que replicamos, apenas por não termos prestado atenção à prosa; quando ela rezava, na retumbância das suas erradas, a solidão parida pelas certezas que escolhemos assumir, ignorando diferenças que deveríamos procurar compreender.

Compreender nos leva a esse lugar onde encontramos a nós mesmos. Encontrar a si mesmo não é tarefa fácil, não à toa a evitamos a todo custo, preenchendo os corredores desse supermercado emocional que nos habita com pensamentos-clientes desinteressados em nos fazer bem.

Compreender é esse antídoto eficaz para tempo perdido com o que – ou quem – não vale a pena.

Ela fosse, ele se tornaria, não para agradá-la, para atender a um desejo. Todos nos tornaríamos, sem a necessidade de desqualificarmos nossos talentos secretos: observadores de tardes furtivas, silenciadores de mágoas, iluminadores de escuridão indesejada.

Na singeleza das suas ousadias, até mesmo na grandiosidade de suas revanches, quando ela é, não há como ele não corresponder sendo também. Não há como não sermos, em resposta. Porque, se a vida fosse unicamente simples e objetiva, meu bem, ele também o seria. Seríamos, então, uma história pautada por esperas pelo óbvio. Ele, o ser humano, amiudaria. Nós definharíamos.

Enquanto ela for dos rompantes, assim ele será. Seremos. Melhor dessa forma, que ninguém quer passar a vida como quem gasta o último centavo com desejo emprestado. Proprietários dos sentimentos que abrigamos, encaramos a vida, um rompante de cada vez. Mil apaixonamentos a cada tempo.

Imagem © Carolina Bicudo | Visite: Flogoníssima.

carladias.com



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3 comentários:

Camila Camargo disse...

Carla, que legal, acredita que fiquei um bom tempo sem ler suas crônicas... aff... rsrsr.. tipo.. tempo de dois anos...mas li uma vez ou outra desse tempo e acredite, sinto falta delas... parece que foram escritas pra mim e por mim... e por coincidência lembrei me delas hoje e logo me deparei com a crônica do dia por você!!! Hahaha.. perfeito... maravilhoso!! Esta de parabéns... cada vez que leio me faz lembrar de ser eu!

Lauana disse...

Que alento esse texto! Lindo e me fez um bem... valeu!

Carla Dias disse...

Camila, que bom que você voltou a nos visitar. Obrigada por ler minhas crônicas. que bom que a sincronicidade colaborou com a leitura de hoje. :)
Beijos!

Luana, me fez bem saber que meu texto lhe fez bem. Beijo.