sábado, 4 de novembro de 2017

ALGUMAS RUAS >> Sergio Geia

 

Andava ontem, de noitinha, uma coisa boa me bateu. Nostalgia doce, logo pensei. Era a Professor Moreira; de novo. Vi o pensionato das freiras (hoje a fria Cúria Diocesana de Taubaté), a Doceria Nívea, a casa dos Castilhos. Vi a juventude (bons tempos), e me vi perambulando, sozinho, à cata de coisas que não tinha a menor ideia do que seriam, nem sabia definir, mas que empurravam a vida pra frente.
A Doceria Nívea (pra minha alegria) ainda está lá — desde 83, segundo o aviso na porta. Pois me vi entrando, escolhendo doces a fim de presentear a amada (Nívea foi participante ativa de minhas táticas de sedução, pra conquistar a mulher da minha vida. Ainda engatinhando um namoro, dei de presente uma cesta de doces — a boca ainda enche de água, o coração aperta). Vi-me entrando nos Castilhos para assistir Porky’s. Vi-me empunhando um violão, soltando a voz ainda fraca, na frente do pensionato. E vi a janela se abrindo, emoldurando os mais belos sorrisos das mais belas jovens que já vi.
Mas não era minha intenção falar do que vi, principalmente por ser a Professor Moreira. Já tenho uma crônica publicada exatamente com este título: “Na Professor Moreira”, em que falo dessas coisas, lembranças que tenho de lá, dos Castilhos, das serenatas que fazíamos para as jovens do pensionato, da tristeza que senti ao ver que hoje, tudo mudou, que a rua, assim como a Desembargador, a Barão, virara uma rua de comércio.
Vi-me na dona Sinfa — como me queria bem —, entrando em sua casa, sendo recebido com certa formalidade, um copo de água e todo o carinho do mundo (uma vez, venci a eleição para dirigir os jovens da paróquia. Ela, muito ativa na igreja, ministra de eucaristia, catequista, coordenadora de diversos cursos, me chamou para me cumprimentar pela eleição e para dizer que “agora, o grupo de jovens vai”, que somente eu teria pulso para dirigir o grupo.) Ah, dona Sinfa! Morreu cedo. De repente, chegou a notícia de sua morte. Eu muito senti.
Pois me vi ainda entrando na casa da Roseli, pra tomar banho de piscina. Abrindo o portão da Marli para um aniversário. Conversando com dona Eugênia. Jogando detetive numa varanda. Bebendo todas no Água na Boca. Sorrindo, beijando, amando, flutuando. Ah, Professor Moreira, o que fazes comigo?
Se eu tivesse que apontar as minhas ruas dessa Taubaté, eu não titubearia: primeiro, a Desembargador Paulo de Oliveira Costa; a Professor Moreira e, por fim, a Barão da Pedra Negra, e a Praça Santa Teresinha.
A Desembargador, porque lá morei por 25 anos. Porque lá tinha amigos, porque lá joguei bola, quando ela era uma avenida tranquila. Porque lá andei de bicicleta, empinei pipa, joguei botão, bolinha de gude, toquei violão. Porque lá, às vezes, eu ficava sentado vendo o tempo passar, olhando o céu, as mulheres bonitas.
A Professor Moreira eu já disse.
A Barão, porque lá construímos a caverna dos ratos (sim, João, eu lembro).
E a Santa Teresinha porque me acolheu criança, jovem, e me acolhe todos os dias, hoje, amanhã, sempre, até a luz se apagar.
 
Ilustração: Praça Santa Teresinha


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5 comentários:

Beatriz Cruz disse...

Bela e sensível sua crônica, cheia de boas lembranças. Quanto à avenida Desembargador Paulo de Oliveira Costa, que traz para você
boas recordações do local, para mim evoca doces lembranças do desembargador, meu saudoso vovô Paulo.

Beatriz Cruz disse...

Bela e sensível sua crônica, cheia de boas lembranças. Quanto à avenida Desembargador Paulo de Oliveira Costa, que traz para você
boas recordações do local, para mim evoca doces lembranças do desembargador, meu saudoso vovô Paulo.

sergio geia disse...

Boas lembranças, Bia. Todas as brincadeiras de criança eu brinquei na avenida do seu avô, a nossa avenida, que, naquele tempo, era tranquila, poucos carros, nós jogávamos bola em pleno canteiro central, as duas pistas eram as pontas do nosso campo. Obrigado pelo comentário, e, se a fiz recordar boas coisas do vovô Paulo, eu já estou satisfeito, pois, confesso, publiquei meio contrariado, não estava, digamos, muito satisfeito com o texto. Grande abraço!

paulo pereira disse...

Quero um pouco de"nostalgia doce"para passear um pouco por minhas ruas. Me sentirei feliz.

sergio geia disse...

O processo é natural, pode começar visitando-as, e terá a sua "nostalgia doce". Gde abraço!