sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CHARLIE, O 'SOLITARIOFÓBICO' >> Zoraya Cesar

Era um desinfeliz, o velho Charlie. Seu epitáfio poderia ser: “nunca teve uma mulher que prestasse e todas o abandonaram”. No entanto, acreditem, ele se esforçava arduamente para manter seus relacionamentos. 

Charlie, o metamorfo – mudava de atitude, aparência, personalidade para se adequar aos gostos e preferências das amantes, namoradas, esposas (sim, casara quatro vezes). Fazia de tudo para agradar, mimar, fidelizar suas mulheres. Nada adiantava. Depois de algum tempo elas o abandonavam, deixando-o desesperado, à beira da insanidade.

Charlie ficava assim, desestruturado, por amor? Coração partido, dor de cotovelo, orgulho ferido? Não exatamente.

Charlie, o gerascomonofóbico – nosso amigo não aguentava a solidão e tinha medo de envelhecer sem a companhia de uma esposa para dividir a vida. Estar descasado ou sem namorada o deixava doente.

Doente, talvez não fosse, mas, desequilibrado, definitivamente. Vejamos. Se passasse mais de um mês sem namorada, flerte, pretendente, surtava. Deprimia-se, tornava-se insone e inapetente. O que Charlie queria, precisava, ansiava, era casar, morar junto, amigar.

Consciente de sua predisposição, digamos, peculiar, juntara duas fobias – a de envelhecer e a de ficar sozinho – e criara um novo termo, para se autodenominar. Sou um gerascomonofóbico, dizia, orgulhoso.

Terapia? Jamais. Dizia que era um sujeito normal. Afirmava não temer a velhice – recusava-se a fazer implantes para cobrir a vasta careca pontilhada de marcas da idade ou a recorrer a truques estéticos para eliminar as rugas; nada fazia para disfarçar a decadência que pouco a pouco invade nosso corpo à medida em que passam os anos.

Apenas não queria passar por esse processo sem alguém ao seu lado. Se, durante a juventude, já sofria com a solteirice, agora, que a velhice esmurrava sua porta, a situação tornara-se mais crítica. Dizia que não era doente, era sensato. Quem quer envelhecer sozinho? 

Ah, diriam vocês, mas isso é fácil de resolver. E eu rebato: não. Nada na vida de Charlie era fácil de resolver. 

Charlie e seu carma - frequentava bares, aceitava encontros às escuras, entrava em sites de relacionamentos. Tudo para ter uma mulher para chamar de sua, Deus de bondade, para se sentir casado, amigado, juntado de cama e mesa e banho, de mala e cuia, ser a corda de alguma caçamba. E, ainda assim, nada dava certo, não por muito tempo.

Era má pessoa, teria hábitos execráveis, vícios insanáveis, algo que realmente o desabonasse? Roncava, fedia, deixava de tomar banho? Não! Então, por que era sempre abandonado?

Ninguém sabia. Talvez fosse um pouco chato, grudento, carente, o nosso amigo - mas isso não é explicação, é constatação. Talvez fosse algo cármico, pois estava pra nascer alguém com o dedo mais podre para escolher parceiras do que Charlie. 

Como escolhia mal! Na ânsia por não ficar sozinho, aceitava o que viesse. Perdulárias, trambiqueiras, pistoleiras, vadias, vulgares... não importa; entregava-se por inteiro – corpo, alma e o que mais tivesse para entregar, até a dignidade. 

E, mesmo passando por cima de algumas desvirtudes de suas amadas, ainda assim, elas o abandonavam sem dó nem piedade. Às vezes sem otras cositas más, como dinheiro, jóias de família, celulares... A última esposa, pela qual Charlie ainda chorava, partira fazendo uma limpa na casa; só não levara o que não pudera ou quisera. Como o fogão. E uma panela velha.

Charlie, o desesperado – fazia quase um mês que Charlie não encontrava uma companhia que pudesse vir a ser uma parceira, esposa, ficante, amante, 'esposamante'.

Sentia-se cansado e perplexo. As mulheres não querem compromisso sério, contorcia-se, em amargor e pânico. Estava ficando velho, não tinha mais tempo para longos e rebuscados namoros. E se não arranjasse mais ninguém? Estaria condenado a ver a vida a se arrastar, sozinho?

Ajoelhou e pediu a Deus uma companheira para passar os dias de seus últimos anos. Uma que não lhe roubasse ou batesse; que não desgrudasse dele. Bastava isso. Além de não ser jovem, também não era rico ou bonito, nem primava pela cultura ou inteligência. Não podia, a seu entender, ser muito exigente (aliás, nunca fora, como vimos).
Charlie se desesperava, achando que não teria tempo de encontrar
com quem passar o resto de sua vida.
Não dava para ser exigente. 

Àquela hora imprópria, em que ele, ajoelhado, sofria tão sofrentemente, a campanhia tocou.

Sobressaltou-se. Como pudera esquecer? Era dia de faxina!

Charlie, o esperançoso - Cruzdeusa, a faxineira, só não era mais feia por impossível.

Era apelidada, em surdina, de “gêmea de Belzebu”. Tinha os dentes amarelados pela nicotina e era mais vesga que o Christopher Lambert. Gostava de perfumes fortes, bijuterias extravagantes e era chegada a uma carraspana de cerveja. Casara quando bem nova, e, dizem as más, péssimas, línguas que o marido morreu de susto ao acordar e se deparar com o rosto da mulher muito próximo ao dele.

Nunca mais casara, D. Cruzdeusa, desde então, e vivia se queixando que, aos 64 anos, ainda era moça pra ficar sozinha, queria um homem pra chamar de seu, pra mostrar às amigas...

Charlie sorriu. Minha prece, pensou, foi atendida. 

Foto: Myriams Fotos in Pixabay


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6 comentários:

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Esse cara é tudo que as mulheres não querem!
Mulher quer homem com atitude!
Mulher sempre vai ficar com o melhor homem (cada uma tem suas preferências, dinheiro, sexo, companheirismo, viagens, etc...) que ela conseguir (inclusive muitas traem por isso, acham que o atual não está uma "brastemp" e começam a procurar algo melhor, na maioria se ferram e arrumam 171, etc...
Esse mané carente, só poderia arrumar uma mulher sem nenhuma perspectiva para encontrar coisa melhor! Vai acabar morrendo de susto também, hahaha...

Ana Luzia disse...

Gente, pobre coitado do Charlie... pobres coitados de todos os Charlies e de todas as Cruzdeusas... mas, afinal de contas, dizem que há sempre um chinelo velho para um pé doente, uma metade de laranja em algum lugar... não concordo muito com isso, mas quem sou eu pra questionar aqueles que acreditam e que acabam encontrando o que desejam... ou algo semelhante...

Marcio disse...

Sei lá, mas eu achei que o personagem se adequaria a um arquétipo mais frequentemente encontrado em mulheres.
Houve até uma peça de teatro chamada "Não sou feliz mas sou casada", ou algo próximo.
De qualquer forma, a autocomiseração é item fartamente distribuído entre os espécimes humanos.

Clarisse Amador disse...

Adorei o "fidelizar suas mulheres" kkk. Mas homem assim, Zô, só mesmo nos seus contos, pois hoje em dia homem só fica sozinho se quiser, aliás, nesse item (e em quase todos os outros...) as mulheres estão em desvantagem...

Unknown disse...

Cruzdeusa? Credimcruz! é muito desespero desse homem.... Mas, quem sabe, ela não era só feia de cara, mas boa em outros quesitos? Sorte a dele rs