sábado, 18 de novembro de 2017

NUA, BEIJANDO O SAGRADO >> Sergio Geia


 
Trespassa o janelão, e encontra o céu claro que emoldura o Bixiga, paisagem campestre, vazio coletivo, rico, transbordante, plural. De fora, a árvore da Lina, tão íntima, tão nua, beija o sagrado, um astro-rei, sol a iluminar São Paulo, que, cinquentenário, sabe provocar, instigar, demolir, sacodir entranhas — facadas na alma. Alguém disse que o janelão é ilegal, que contraria o Código Civil? Isso é sério, gente?
A onda do mar se arma, se agiganta, vai subindo, crescendo de tesão, sobe, sobe, ereta ela sobe ainda mais, um paredão verde pronto a se desmanchar, rasgando em mil pedacinhos de inconsciências, quebrando cremosamente até tudo levar, os pensamentos mais vis. Limpa, oxigena, zera.
A primavera, as noites primaveris (“A primavera é quando ninguém mais espera, a primavera é quando ninguém não, a primavera é quando do escuro da terra, acende a música da paixão; a primavera é quando ninguém mais espera, e desespera tudo em flor, a primavera é quando ninguém acredita e ressuscita por amor” — ouço sua voz guerreira cantando), mas não a noite, primeiro a tarde; sim, a tarde alva, água que vai virando vinho, nuvem negra que vira chuva, chuva que encharca, gelo que quebranta, então a noite, gloriosa, pacífica, desliza suave pós-caos.
O caos, sim, o caos — como eu poderia me esquecer? —, tão necessário, tão importante para tudo; para agrupar, para organizar, para não morrer. Mas não há caos sem onda, sem chuva, sem terra rasgando em fendas, sem Oficina.
Me paraliso no caos, me perpetuo no caos, me entrego no caos, clamo por ele. Caos, você agora é o meu tudo! Stelarc, Orlan, Lady Jaye e Genesis, Aimee. Gregório, Villa-Lobos, Oswald, Nelson, Glauber, Fernanda, Chico, Caio, Ney, Zé. “Um clamor, um convocar, um convulsionar, um amar”, que desorganiza uzyna uzona e gera vida.
Que faz andar, rodar (Roda Viva!), que ayuasca, peyote, donpedrito, vinhos e ervas embalam, ó doce Xamã, salve a sacação! As suas! Sua resistência inspira, desorganiza, sacode, convoca, convulsiona, faz amar! À descolonização! À revolução! Ao descovardamento!
No parque — a imagem vem assim boba, do nada mesmo —, a toalha estendida, o chão-terra, o sagrado, harmonia doce, intimidade que acarinha o corpo nu  — “o poente na espinha de tuas montanhas, quase arromba a retina de quem vê” (Chico), ele no azul do céu, sol desbotando, ar fino, sacolejando por dentro.
Pois o sagrado é você, doce vítima. Desse humanoide capitalista que tudo destrói, especula, imobiliza, estupra. Sete Quedas, São Francisco. Augusta? Oficina? Quer tirar o ar, matar por asfixia, asfixia mecânica. Quer destruir, estuprar, estupro seguido de morte, roubar, matar, latrocínio cultural.
Não vai conseguir.
Você é pura energia.  
P.S.:
1. O Grupo Silvio Santos quer erguer duas torres no Bixiga, na frente do teatro Oficina, num terreno que lhe pertence; Zé Celso, que já está no local há quase 60 anos, quer a desapropriação da área, a criação de um espaço cultural ao ar livre. Numa reunião no Condephaat, o Zé falou: “Nós vamos morrer, Silvio, nós passamos, mas tudo aquilo vai ficar”. Pensei: consciência cidadã (lembrei: ele é chefe da minha prima – que orgulho de você, Brenda!), espinha enroscada na garganta de quem se nega a enxergar as coisas doces.  Pensei também: um monumento às artes ou mais espigões na selva paulistana? Difícil escolha, não?
2. No facebook, ou em qualquer outro lugar, defendo o projeto do Zé Celso. Essa causa não é só dele, do Oficina, do Bixiga, de São Paulo. É nossa!
#Fica Oficina!
#NÃO ÀS TORRES!
3. Primavera – Zé Miguel Wisnik
4. Ilustração – Facebook Teatro Oficina Uzyna Uzona
 


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2 comentários:

Zoraya Cesar disse...

Que bela defesa, Sergio! Não sei que praga é essa que temos de destruir o tradicional, o histórico, para construir algo 'novo'. Sou carioca, mas essa é uma causa de todos nós. Sem falar da beleza do texto, beleza de sempre.

sergio geia disse...

De todos nós, Zoraya, você disse tudo! Grato mais uma vez. Grande beijo!