quarta-feira, 8 de novembro de 2017

LUCINA E A BELEZA DE SEU CANTO DE ÁRVORE >> Carla Dias >>


Música é algo surpreendente. Para mim, ela tem servido de fio condutor para muitos relacionamentos profissionais, mas principalmente aos pessoais. No amparo da música, tenho construído a minha percepção sobre a vida. Ela é mutante, não por ser frágil, a ponto de se adequar à percepção do outro, por puro comodismo. Ao contrário, minha percepção é rebelde por natureza. Vive das inquietações e, assim, é mutante porque se mistura ao aprendizado diário, adquirido com a experiência do experimentar a música.

Nessa importância que a música tem na construção da pessoa que me torno a cada dia – construção ininterrupta e que acabará somente quando eu deixar de existir –, mora a disponibilidade de me permitir surpreender pelo o que se destaca com exuberância. Na verdade, mora a expectativa, a espera pelo o que trará essa exuberância ao conhecimento da minha percepção.

Uma dessas surpresas é o novo disco de Lucina, Canto de Árvore. Compositora que admiro muito, ela traz para esse feito uma coleção de canções belíssimas, compostas em parceria com músicos e poetas e pessoas interessadas em mergulhar na vida, não apenas observá-la; esperar que ela aconteça.

Aprecio a identidade musical de Lucina, a forma como ela fala por meio de seu violão, como ela entoa a poesia das letras das canções. A conexão que mantemos com a música que nos entregam é alimentada pelas sutilezas. Em Canto de Árvore, Lucina se vale delas para tocar a música que encanta e cantar as palavras que evocam cenários e explicitam catarses, como na belíssima Rio de Chão, parceria com Inês Blanchart:

Já sei andar sozinha comigo,
Como se fosse rio sem chão.
O vento arruma meus desalinhos,
O fogo acalma minhas paixões.

Antes de conhecer, de saber do que tratava a poesia, eu escrevia poemas, mas por conta das letras das músicas que eu escutava no rádio da minha avó. Canções despertaram a poesia em mim, talvez por isso a música tenha se tornado personagem recorrente nos meus escritos. Certamente, por conta disso os compositores me são tão caros.

Canto de Árvore é daqueles discos que nos lembram de como pode ser fantástica a viagem de escutar canções. Os sons e as palavras se casam bonito nesse trabalho, enquanto Lucina tece esse caminho, provocando, sutil, porém efetivamente, uma revolução na perspectiva do ouvinte.

Ainda estou descobrindo as nuances de Canto de Árvore. Neste momento, O Espectador, parceria com o poeta Joãozinho Gomes, elucida:

E Deus assiste de óculo do alto de um obelisco
àquele  imenso obstáculo: reter os passos
que buscam salvar os que correm risco
na beira desse penhasco,
o mais sombrio precipício, sem fundo e sem riacho.

Zé Renato Fressato, arrudA, Luhli, Aloísio Brandão, AlziraE, Paulinho Mendonça, Iso Fischer e Paulo Bastos também contracenam com Lucina na criação das canções de Canto de Árvore. Décio Gioielli, Marcelo Dworecki, Peri Pane, Otávio Ortega e Ney Marques compartilham os sons do feito. Lucina conseguiu reunir neste disco pessoas capazes de dar destaque aos matizes do belo.

É preciso trazer ao mundo discos como este, que celebrem a música na qualidade de sua criação e na beleza de sua execução.



Lucina apresenta seu novo álbum, Canto de Árvore, no Estúdio Showlivre.







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Um comentário:

Zoraya Cesar disse...

Luli (agora Luhli?) e Lucina são mesmo especiais. Na época em que ninguém falava de 'resgate da cultura índígena', elas e Marluí Miranda já cantavam e divulgavam a causa.
"Fala" (eu nao sei falar nada por falar entao eu escuto...), com elas, é a mais bela gravaçao dessa música, superando até o quase insuperável Ney Perfeito Matogroos.
Obrigada pela dica maravilhosa de sempre!