quarta-feira, 22 de novembro de 2017

AOS MÚSICOS E AOS OUVINTES >> Carla Dias >>


Vivo evitando calendário e suas celebrações. É coisa minha, de quem adora dar presentes em dias ímpares, e fica feliz que só quando o dia ímpar cai em quarta-feira. É coisa que me aconteceu, na verdade. Já me basta o calendário dos compromissos da rotina. Os outros, aqueles que frequentam o ambiente dos meus afetos, a eles eu dedico certa elasticidade nesse tempo de calendário. Porém, costumo ser bem inspirada nas celebrações.

Ontem, conversando com um amigo sobre música, ele muito agoniado sobre uma geração que não conhece o que de bom as anteriores fizeram, percebi que, apesar de compreender e compartilhar de tal desalento, tenho a sorte de conhecer músicos que não me permitem apegar àquela frase abismal: não tem mais jeito.

Não há como deixar de ter jeito. Haverá sempre aqueles que farão música de forma tão bonita, seja compondo ou interpretando. Lembro-me de quando assisti a uma apresentação de orquestra pela primeira vez. Eu não conhecia aquela música, e graças às pessoas que a interpretaram naquele dia, eu aprendi um pouco mais sobre a beleza de se escutar e de se tocar um instrumento; de se permitir conduzir pela música. Aprendi, também, por meio da música, que nem tudo o que você aprecia está nas manchetes dos telejornais, nos programas de televisão. Não está no que uns e outros decidem ser bom.

Olhe para o lado. Escute outros sons.

Eu tive a sorte de bons músicos cruzarem o meu caminho. Esses bons músicos me apresentaram a música de outros bons músicos. A partir daí a história da música se misturou à história dos músicos, e eu me peguei curiosa. Talvez, o que falte mesmo seja curiosidade. Sei que é bem complicado dar atenção a ela, em tempos em que informações explodem na nossa cara, sem pausa. Mas a curiosidade é essencial.

Foi pela curiosidade, por exemplo, que me apaixonei pela música de alguns. Nem todos são famosos, mas todos são talentosos. Você pode até não ser fisgado pela música deles, mas certamente veria o talento ali. Sabe como? A música não é apenas entretenimento. Encará-la somente como diversão é aprisioná-la à função de trilha sonora para dancinhas questionáveis. Música provoca as pessoas. Já se sabe que é de grande valia ao nosso querido cérebro. Música pontua nossa vida ao se relacionar com nossas memórias e nos ajuda a socializar. E para termos essa intimidade com ela, de nos permitir emocionar, é preciso compreendermos que a música não acontece porque sim. Os músicos a trazem à vida.

Nesses anos todos lidando com música, já tive a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas, inclusive muitos dos meus ídolos. A música vem com a história dessas pessoas. Obras têm histórias, porque essas pessoas viveram essas histórias ou as imaginaram.

Hoje se celebra o Dia do Músico. Para mim, e para muitos, não é preciso lembrar da importância desses profissionais, mas muitos se esquecem disso. Porque, sim, eles vivem do que você aprecia, do que embala seus encontros com os amigos, sua festa de casamento, sua lembrança sobre quando seu primeiro filho nasceu. Muitas das conexões emocionais que você estabelece com as experiências que vive contam com trilha sonora. Quando a tristeza impera, a música ampara. A música que é trazida ao mundo pelo músico.

Pensando na minha conversa de ontem, na minha tentativa de explicar ao meu amigo que, apesar de parecer que não, há muita gente bacana fazendo música tão bacana quanto, posso concluir que se faz necessário compartilhar a música dessas pessoas. Que esses músicos merecem ser reconhecidos e não há forma mais adequada de fazê-lo do que dando a nós mesmos a chance de escutar algo novo, diferente, valoroso, ainda que não faça parte da trilha sonora da novela. Na verdade, é dar-se uma chance de conhecer alguém que seja capaz, por meio da música, de nos deslumbrar; de enriquecer nosso espírito, nosso vocabulário emocional.

Nesse dia do músico, desejo a você, ouvinte, que se desapegue da ideia de que o que é bom sempre chegará a você, e de que ele tem uma cara só; apenas um estilo. É que, quase sempre, o melhor está em outro lugar. Aos músicos, eu agradeço. Obrigada por abraçarem minha vida com seus sons.

O vídeo abaixo é na conta de um dos shows mais bonitos que já assisti. Naquele dia, Renato Borghetti me deixou muito feliz. Continuo feliz ao escutar a música dele.




PS.: Não vou listar nome dos amigos aos quais desejo um dia, uns dias, uns meses, uns anos, uma vida de músico justa e digna de reconhecimento. Até porque, desejo isso a todos que se dedicam ao ofício com apreço e cuidado. Que entregam ao mundo algo bom. Música boa.

Imagem: A melody © Beatrice Offor

carladias.com


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