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Mostrando postagens de Maio, 2020

Confissões de quarentena - Pijama, louças e omelete

Tínhamos pequenas brigas, como todo casal, mas a quarentena cavou um fosso entre a gente.

Logo no começo, pedi para ela que comprasse outro pijama. Não suportava vê-la com aquela roupa. Ela achou que eu estava brincando. Fui ficando diariamente mais sarcástico e um dia explodi:
- Joga  essa roupa odiosa no lixo!
Vi quão profundamente a tinha atingido quando ela, com voz esganiçada, quase chorando, disse:
- Mas minha irmã trouxe para mim de Paris!
- Foda-se! - Eu disse, insanamente.
Ela ficou muito brava, nunca a vi daquela maneira:
- Foda-se você, imbecil. Eu pelo menos tiro meu pijama durante o dia.
Certo. Eu ficava o dia inteiro de pijama. Resolvi ser arrogante.
- E daí?
Ela enlouqueceu. Acho que a gritaria chamou a atenção do prédio todo.
- Você acha que que meu pijama é odioso? Porque não olha pra a sua cara?
E ela olhou para a minha cara, eu fiquei meio sem jeito.
Dei uma olhada furtiva no espelho e pude ver um rosto todo amassado. Fiquei com vergonha e voltei a encará-la. Aí fi…

ENTREMEIO >> Carla Dias >>

Ao chegar ao fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas... Lá no fundo, no bojo dos destemperos, ao invés de cair no berreiro, até sorri para contrariar o que lhe desfere o destino. E não é sorriso de deboche, não é amarelo, desapegado da arquitetura do prazer que há em sorrir. Sorri a satisfação de ainda conseguir tocar fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas, e, embrenhada em destemperos, segundos antes de a alma abocanhar um belo berreiro, então...toca cada fundo como se fossem teclas de um piano mudo; pétalas de bem-me-quer-mal-me-quer, e impulsiona a volta ao fôlego. Respira a cordialidade das voltas para não relutar em tentar outra vez, ao comando de uma constância catártica.
Tem certo prazer em cultivar contrariedades: assiste a filmes tristes, a fim de compreender férteis alegrias; garimpa solidão, a fim de alcançar agradável companhia. Amarga os desapegos para banhar-se à beira das novas chegadas. Não deserda missões quase impossíveis, mas se dedica a desc…

PENSANDO SOBRE O TEMPO >> Clara Braga

Tenho pensado muito sobre o tempo! Também, pudera! Só ele parece poder ajudar a gente a sair dessa situação!

Eu diria que de certa forma ele foi até generoso, passou de tal forma que muitos parecem já melhor adaptados à nova rotina. Já entenderam que o normal não vai voltar e que quarentena não é férias. Infelizmente muitos também se adaptaram às más notícias e não se abalam mais com a quantidade de mortes diárias, mas é assim mesmo, quando dizem que o ser humano é adaptável, é para o bem e para o mal.

Agora seria bom o tempo ajudar a gente a lidar com o turbilhão de sentimentos diários que temos! Em um dia consigo me sentir culpada, triste, feliz e vários outros sentimentos que às vezes nem sei nomear!

Sinto-me culpada por não saber de que forma posso ajudar mais aquelas pessoas que estão realmente precisando, mas ajudar confinada com mil atividades para dar conta, às vezes fica complicado e eu acabo sentindo que talvez também precise de ajuda em alguns momentos!

Quando a culpa pass…

lembrança enlatada >>> branco

manhã
na estação vazia
paguei meu bilhete
e subi no vagão

olhando pela janela
vejo as árvores vejo as montanhas
de vez em quando
uma cidadezinha
no vidro
o reflexo de uma criança despenteada e feliz
árvores montanhas e cidadezinhas
misturam-se a silhueta sorridente
ergo os olhos e uma nesga do azul cintilante
que cega e aquece
e me joga perdido no tempo/espaço
quantas eras terá esta viagem?

a paisagem muda
chão plano e cimento
shopping prédios
e toda a arquitetura
surgem agora na janela
no vidro
existe um velho refletido
seu rosto é cansado e cheio de rugas
meu olhar não desvia enquanto pergunto para ele
se os meninos da rua de terra batida
estarão neste momento falando em seus celulares
enternados e apressados
e a menina de camiseta hang ten
estará vestida formalmente dentro de um elevador

a estação de destino se aproxima
abro a minha mochila
e procuro pelo que falta
mas ela está completa
- cada coisa no seu devido lugar -
a criança e o velho
as arvores e o cimento
e dentro de uma latin…

A QUARENTENA >> Fred Fogaça

Faz frio, é tarde, eu não tenho nada a dizer.
Os afazeres online são frenéticos e eu que nem me alarmo, me esgoto. Cozinhei umas idéias por dias mas não fiz delas nenhum prato. Outro dia eu sonhei que a vida não fazia sentido; eu chorava e sofria porque não tinha um motivo - pensei sobre isso a semana toda, mas é só isso.
Existem muitas coisas que eu queria fazer e eu estava até disposto a assumir o risco brando de sair pra rua, mas não há um cúmplice sequer. Minha não saída é compulsória por mais que, como dizem: se correr o bicho come.
Chega meu domingo e não tenho absolutamente nada a dizer e ainda por cima tenho frio - toda essa loucura ainda vai acabar com a gente.

OVOS MEXIDOS >> Sergio Geia

O aroma de uma frigideira estalando logo pela manhã, não me faz muito bem. Se você leu Vizinhos (crônica escrita há algum tempo e que está no folha vadia) deve saber. 
Eu dizia que saía cedo para buscar o pão, e era comum sentir o perfume de um ovo, ou de diversos ovos sendo fritados em alguma cozinha. Vez em quando até esquadrinhava com meu nariz a casa de um ou outro vizinho, na tentativa vã de descobrir quem ousava perturbar o bom aroma matinal. 
A crônica de hoje é um pedido de desculpas. 
Seguindo orientações de especialistas, Lucas, Helania, Edna, e mais um seleto grupo de amigos, troquei meu pão de cada dia, por um ovo mexido, e uma xícara de café. 
Quando você atinge certa idade, as adiposidades — expressão alcunhada pelo amigo Serrate (garanto) — teimam em não abandonar o seu corpo, por mais que faça exercícios e tenha boa alimentação. Pois vislumbrei no ovo uma boa possibilidade de reduzi-las. Aproveitei também para tirar o leite, e substituí-lo por café. 
Deu certo. E com …

TERRA >> Whisner Fraga

a menina planta as mãos na terra,

os dedos nadam naqueles flocos marrons,
até à agitação,
um apelo viaja aos lábios e ela sorri,
ela tem um um frenesi
na palma:
uma minhoca,
a menina resgata o bicho 
e o traz ao ar:
engasga um temor,
ela pode morrer?,
e já, sem que eu responda, 
devolve tudo ao vaso:
há tantos mistérios em tão pouco mundo.

IMPORTE-SE COMIGO >> Carla Dias >>

Sou ninguém, não frequento a sua lista de afetos ou os seus abraços, de quando abraços eram distribuídos ao toque da extravagância do desejo de oferecê-los e recebê-los, e era ridículo pensar em tal insana proibição.
Está proibido abraçar.
Não irei mudar a sua vida, ainda que você possa mudar a minha. Não se preocupe com isso, a escolha é minha. Não irei mudar a sua vida para pior.
Sou o seu ninguém.   
Olhe para mim, pode me observar da fresta das suas convicções e sonhos. Consegue enxergar as minhas tantas imperfeições? Conheço e reconheço cada uma delas. Somos íntimas, não as evito. As ocultas, eu eventualmente as desvendarei. Não as temo, simplesmente porque escolhi defender o outro dos seus rompantes. Elas são minhas, cabem nas minhas escolhas e tudo o mais que a vida me levou a experimentar, durante o meu caminho. Há algumas que são de beleza contundente.
Às vezes, há quem não compreenda que imperfeição é apenas percepção reservada sobre o diferente.
Até aqui, sendo o seu ningu…

CONTANDO COM A SORTE >> Clara Braga

Outro dia, em uma roda de conversa, ouvia alguns colegas contarem sobre suas experiências em sorteios. Achei curioso, pois pela primeira vez parecia que eu estava conversando com a pequena parcela de pessoas que adoram um sorteio pois sempre acabam ganhando alguma coisa. Um deles, inclusive, havia sido premiado com uma viagem nacional no dia anterior durante um curso que fazia.
As vezes é bom conhecer essas pessoas para acabar com aquela constante impressão de que todo sorteio é uma marmelada. Mas, quando me perguntaram sobre minha experiência acabei sendo obrigada a cair no clichê: de graça não ganho nem injeção na testa! Até naqueles sorteios bem bobinhos que servem só para ver quem vai ganhar o que, pois tem presente para todo mundo, eu fico sem nada pois esquecem de colocar meu nome.
Mas logo depois de compartilhar minha falta de sorte lembrei que eu estava sendo injusta. Houve uma vez na qual eu estava fazendo um curso de fotografia com um fotógrafo que eu admiro muito e, como p…

SÓ ISSO, DOUTOR? >> Albir José Inácio da Silva

Estou feliz de estar vivo, mas não sei por quanto tempo. Posso sentir através das pálpebras a luz do teto, mas continuo de olhos fechados. Desta vez não vou fazer escândalo para não me injetarem um sossega-leão como ontem.
Mas aquilo não foi culpa minha. Quando acordei no hospital, minha mãe falava com o médico:
- Mas Doutor, o que ele tem?
O médico respondeu uma doença esquisita e grave. Soube que era grave pelo nome. Embora eu não conheça, deu pra notar que é coisa séria. Ao ouvir aquilo meu corpo não me obedeceu mais, as pernas batiam na cama e o braço jogou o suporte do soro no chão. O médico gritou e a enfermeira veio com a seringa. Acordei agora, mas vou deixar que pensem que ainda estou dormindo.
A minha via crucis começou no final de semana quando a família resolveu visitar de carro uns parentes no sul da Bahia. Eu não queria ir porque não estava bem. Mas, como sempre, “vamos, não é nada de mais, vai passar, você precisa espairecer”, repetiam.
A verdade é que nestes vinte e s…

NO SOLO DO BRASIL >> Sandra Modesto

O povo sai. 
Sai correndo para receber um dinheiro de emergência. O povo se aglomera a espera. 
“Tem que rever isso aí" - diz Jair. 
Desemprego, filas. 
Espetáculo diário. 
 Um menino pede colo. 
Uma mulher respira pouco. 
O estudo é virtual. Não tem espaço na casa. 
Pequena, distante, uma menina não alcança o livro, não alcança Wi-Fi. 
Chora de fome. 
Preto pobre favelado no quarto apertado não há possibilidades de yoga. Muitas angústias. 
Meninas amontoadas sonham com chocolates. Sem chances. 
Alguém avisa que o resfriado é sério. 
De repente o número de casos aumenta. 
Cidades reabrem “serviços essenciais” 
"É. Mais vale uns bons CNPJ do que esses CPF" 
Enquanto isso... 
 “Tá lá um corpo estendido no chão!
Em vez de reza, uma praga de alguém 
E um silêncio servindo de amém" 
Eu observo a tragédia. Não é um pesadelo qualquer. Tá pesado. Tá puxado. 
No puxadinho das quebradas, viaduto, luto... 
O país anda triste todos os dias. 
E chora nossa pátria mãe gentil 

TUDO PARA EVITAR O FIM >> Cristiana Moura

Não faz muito, conheci Madalena — atriz de teatro, arrojada, dessas pessoas que acreditam no inesperado e que amam a vida quase todos os dias. 
Semana passada sentamos em um café e conheci a história mais intrigante de um fim de namoro que eu já havia ouvido. Arlindo e Madalena se conheciam há anos, mas não eram próximos. Reencontraram-se na Lapa, em meio a um evento político e muitos amigos. Em poucos dias já estavam namorando. 
Apaixonados, seus olhos brilhavam, imaginavam-se envelhecendo juntos, faziam muitos planos para os futuros possíveis. Passavam o máximo de tempo possível juntos, dormiam de conchinha e orgasmos temperavam a vida quase todos os dias. 
Por aproximadamente dois meses, os dias se seguiram assim. No terceiro e último mês desta relação tudo havia mudado: brigavam à toa, discutiam por banalidades, pareciam não falar a mesma língua. Ela contou-me que Arlindo lhe parecia paranóico, via coisas onde não existiam, sentia-se explorado só Deus sabe porque e como, queria c…

NÃO PECHINCHARÁS... 3a PARTE >> Zoraya Cesar

Blue Anne aceitou o serviço para matar Muvi Bekke. Assassínio era sua profissão, afinal.  Só não aceitava que negociassem seu preço.
A 2a parte da história terminou com a entrega do veneno que encomendara. Abriu o pacote.
Uma flask bottle de bolso. No metal frio como a morte que trazia,  fora incrustada uma frase:
Madame, all stories, if continued far enough,  end in death
Blue Anne sorriu. Doutor titular em química, André era, também, admirador de Ernest Hemingway. E jamais entregava um trabalho mal feito. O frasco era uma obra de arte, do início ao fim. E que fim! Abrupto, indetectável, infalível fim. 
Sentou-se para meditar e controlar a tensão que antecede a execução de um serviço. 
Pois não é fácil matar. Tinha seus escrúpulos. Não matava crianças ou com crueldade, por exemplo. Matar exige autocontrole, firmeza de propósito, paciência. Só desleixados ou psicopatas matavam qualquer um ou de qualquer jeito. Não ela. 
Uma peruca loura de cabelos lisos, uma prótese que levantava as maçãs…

Razões para não desistir quando a vida parece sem sentido >>> Nádia Coldebella

Você precisa fazer isso. Isso está dando muito trabalho hoje. Você perdeu a conta de quantas vezes iniciou e reiniciou e recomeçou o que havia feito. E iniciou de novo. Nada parece bom.

Você percebeu? Ao seu redor, todo mundo está iniciando, reiniciando, iniciando de novo, o tempo todo, nos últimos tempos. Cada começo não parece muito certo, pois você não sabe onde tudo isso vai dar. Ninguém tem certeza do que o futuro reserva. O que o futuro nos reserva?

Quem sabe, você deva aprender alguma coisa? Uma habilidade, uma língua nova, algo para incrementar seu portfólio pessoal e depois ensinar para os outros... Peraí, não. Na verdade, não! Balela, conversa fiada. Você não quer gastar horas e horas com nada disso. De verdade, você não quer aprender nada novo.

Resista. Fique aí, sentadinho, esperando tudo voltar ao normal. Cuide das notícias das redes sociais. Informe-se a cada cinco minutos. De repente, dê uma saidinha, faço um passeio para ver o movimento. É isso então.

E isso não tem o…

DAS PESSOAS QUE FOI BOM PARA O MUNDO CONHECER >> Carla Dias >>

Santana estava animado com a publicação de um livro de poemas. Pediu que eu escrevesse o texto de orelha e eu o fiz. Isso foi em 2012. Desde lá, depois de a primeira tentativa de publicação não dar certo, sempre que nos falávamos eu insistia para que ele continuasse a tentar. Era algo que ele queria muito, e sempre que uma pessoa deseja tanto algo que pode ser bom para ela, às vezes, até para os outros, acho que vale a pena lembrar essa pessoa de que o desejo dela é importante.
Ele foi aos lançamentos de alguns dos meus livros, junto com Raquel, quem gostei muito de conhecer. Ano passado, durante o lançamento do meu último livro, presenteou-me com sua presença e uma aquarela que fez a partir de uma foto minha. Achei aquilo tão bonito. Toda vez que escrevo algo para alguém, é porque esse alguém me faz bem. Fiquei feliz em saber que eu fazia bem a ele. Conversamos novamente sobre a publicação do livro dele. Santana me disse que se sentia pronto para retomar o projeto. 

Sabe aquele tipo…

VERSÃO SOLO >> Clara Braga

"Descanso" era uma palavra solitária e, também por isso, muito admirada e desejada. Então, um belo dia, vieram pessoas que o descanso não conhecia bem e decidiram que ele não andaria mais só, de agora em diante descanso ficaria conhecido como: descanso ativo.
Foi nesse dia que uma parte significativa das pessoas passou a acreditar que o legal é ser produtivo até quando se está descansando. Por exemplo, para que tirar férias para descansar e relaxar se você pode viajar para aquele lugar que nunca foi, conhecer toda a cidade a pé e ainda aproveitar para fazer aquele curso de final de semana que eles oferecem naquela universidade super recomendada? É verdade que você pode acabar voltando mais cansado do que saiu, mas pelo menos vai ter dado um upgrade no currículo!
Foi então que as mesmas pessoas que decidiram que o descanso agora andaria acompanhado, perceberam que uma outra parte significativa das pessoas continuava não sendo extremamente produtiva durante seu descanso, pois…

caminhar >>> branco

estou andando por ruas escuras minha cidade – tão estranha  – espero que este meu caminhar me leve para longe deste não sei o quê que me persegue
a solidão também caminha deixando mudos os que se revoltaram enquanto os guardiões do tempo observam a areia caindo lá fora através da janela ao lado do retrato amarelado
então a solidão e eu nos encontraremos um dia quando todos os sóis estiverem alinhados ouvirei o canto do meu passado e a convidarei para passear por entre as lápides dos desconhecidos e ela dirá que não devo temer a escuridão
estou caminhando para luas distantes pisando nas estrelas opacas e úmidas caídas na calçada a solidão caminha atrás de mim seu vazio ecoa em minha mente eu pernas curtas ela  passos largos

ESPIANDO 2 >> Sergio Geia