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NO SOLO DO BRASIL >> Sandra Modesto



O povo sai. 

Sai correndo para receber um dinheiro de emergência. O povo se aglomera a espera. 

“Tem que rever isso aí" - diz Jair. 

Desemprego, filas. 

Espetáculo diário. 

 Um menino pede colo. 

Uma mulher respira pouco. 

O estudo é virtual. Não tem espaço na casa. 

Pequena, distante, uma menina não alcança o livro, não alcança Wi-Fi. 

Chora de fome. 

Preto pobre favelado no quarto apertado não há possibilidades de yoga. Muitas angústias. 

Meninas amontoadas sonham com chocolates. Sem chances. 

Alguém avisa que o resfriado é sério. 

De repente o número de casos aumenta. 

Cidades reabrem “serviços essenciais” 

"É. Mais vale uns bons CNPJ do que esses CPF" 

Enquanto isso... 

 “Tá lá um corpo estendido no chão!

Em vez de reza, uma praga de alguém 

E um silêncio servindo de amém" 

Eu observo a tragédia. Não é um pesadelo qualquer. Tá pesado. Tá puxado. 

No puxadinho das quebradas, viaduto, luto... 

O país anda triste todos os dias. 

E chora nossa pátria mãe gentil 

Choram Marias e Clarisses... No solo do Brasil. 

Mas o povo tem que continuar.

Não sei até quando. 


* Esta crônica foi uma releitura da obra de Aldir Blanc. Compositor e cronista brasileiro. Morreu dia 4 de maio. Vítima da Covid 19. 

*Imagem: Arquivo pessoal da coleção de vinil da autora. Em destaque: João Bosco e Aldir Blanc.

Comentários

Laércio disse…
Como sempre arrasando. Os dias tristes de hoje sintetizados em uma bela crônica. Tantos corpos que nem cabem numa fotografia. "E daí"?
Albir disse…
Bela homenagem ao Aldir Blanc. E o "show tem de continuar" mesmo num "rabo de foguete" que julgávamos ultrapassado. Linda crônica, Sandra.
Carla Dias disse…
Que homenagem, Sandra!