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ESPIANDO 2 >> Sergio Geia



Nota do autor: crônica escrita antes do início do isolamento social 

Desta vez não tenho um livro do Braga em mãos; tenho uma xícara de café. Não é domingo, mas terça-feira. Não ouço a música que vem da igreja, mas Beatles. E a música que toca no meu aparelho agora é Penny Lane. 

Penny Lane, a rua de Liverpool (mas falo da música), traz coisas, pessoas e lugares que marcaram a vida, especialmente de Paul e John. De imediato, me vem à cabeça a cena de John caminhando por Penny Lane, os ônibus verdes, as lojinhas, o policial em seu cavalo branco. 

Bebericando o café ao som de Penny Lane, eu espio, outra vez. (Dúvidas? Veja o folha vadia, tem lá uma crônica chamada Espiando). Detalhe: estou de férias. Como não viajei, suporto esse calor de 40 graus aqui mesmo no meu apê. 

Comecinho de uma manhã de sol. Um idoso usando calça bege, camisa de manga curta listrada, na cabeça um belo panamá, anda pela calçada. Anda e para, anda e para. E a cada parada um instante de atenção, o olhar atento nas fachadas. Talvez tente decifrar as mudanças embaladas por lembranças de um passado distante que já não existe mais. E não existe mesmo. Vejam o Colégio Anchieta na Pedro Costa, por exemplo? Cadê? E o Municipal? Ai, que saudades daquele campo de futebol que tinha lá, a pequena arquibancada ao lado das salas de aula. E a Lagoa? Jogava tanto futebol na Lagoa; eu, o Gustavo, o Bola, o Carlão, o Helinho, o Odevanir, o Dito, o Zico, o Maurício, o João Alberto, o Guidão (a Professor Moreira inteira), o Pazeca, e tantos outros. 

Mas não sou eu quem decifra mudanças embaladas por lembranças de um passado distante; é o homem de chapéu panamá. Ele para e examina a obra da Clínica Menezes. Dizem que ali vai ser um hospital. Observa atento a engenharia sendo aplicada, os trabalhadores pegando no pesado, o concreto se erguendo como um monstro gigante na pequena Marechal. 

Dia de semana as pessoas andam apressadas. É um ir e vir constante, correria bruta. Pode ser de carro, de moto, de bicicleta ou a pé. A pressa de Sampa nas pernas do povinho de Taubatexas. Mas no meio dessa pressa tão mundana e triste, existe ele, com seu panamá para proteger a cabeça, que revive o passado examinando o presente, com certa tristeza vaga. 

Dois homens conversam na esquina da Professor Moreira. Parecem amigos de longa data, se esbarraram na rua e tentam colocar os assuntos em dia. Um deles está de bicicleta. O outro carrega uma pasta preta, parece um fiscal. Talvez seja mesmo. 

Ah, que delícia: são namoradas. Jovens, jovenzinhas. Caminham de mãos dadas, as duas com mochila nas costas, desafiando o provincianismo local. De repente, na frente do Pops (que está fechado), elas param, olham ao redor, acauteladas. A moça loira avança sobre a morena e lhe dá aquele amasso. Salve, salve, o amor está no ar! 

Na Getúlio Vargas, quase na Marechal, há um escritório de contabilidade. Ao lado, um prédio verde, com uma placa escrita Odontologia; é o máximo que consigo ver. Na calçada, bem na frente, administrando a rua, um trabalhador dos tempos modernos: o flanelinha. O movimento é grande. A Prefeitura espalhou a zona azul pela cidade inteira mas nesse trecho não tem. E há muita gente que vem conversar com o Leão — a Receita fica ali, a poucos metros, as pastinhas de documentos em mãos não me deixam mentir. 

Vejo uma porta aberta. De vez em quando, um monumento aparece. Sai, dá uma espiadinha, fuma um cigarro, depois entra. Não sei muito bem o que é ali. Talvez uma clínica médica. O monumento tem os cabelos escuros, bem chanel. Acho que já a vi caminhando na Santa Teresinha. Lembro-me que ao vê-la, disse bom-dia. 

Aliás, caminhantes de plantão: muitos bons-dias foram ofertados na Santa Teresinha sem qualquer retorno. Que gente mal-educada! Tem um grupo amigo que se vê sempre, a Marta, por exemplo, a Nice, o Joel, o Francisco, o Eliseu, a turminha do mesmo horário. O bom-dia nesse caso é certeiro. Agora, tem certos indivíduos que nem olham na sua cara e deixam o bom-dia sem resposta. 

Se o monumento respondeu? Aí vocês estão querendo saber demais, não? Bom dia, meus queridos, e até a próxima!


Ilustração: https://www.flickr.com/photos/adaly_pinheiro/28009328697

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Sergio, na falta de um livro de Rubem Braga nas mãos, o leitor ávido pelas minúcias do dia ficará por DEMAIS feliz com suas crônicas, essa em especial.
cronicadodia disse…

Querida Zoraya, grande contista de nosso Crônica, mais uma vez obrigadíssimo