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SEXO NA QUARENTENA >> Cristiana Moura


Tudo começou quando nos encontramos, em carne e osso, em meados do ano passado. Momento no qual ainda não imaginávamos que viajar novamente seria planejamento para um tempo-sem-tempo-de-ser. Foi um encontro que dançou entre palavras, saliva e suor tantos a ponto de quase causar afogamentos, como se a vida fora emprestada. Pois vou lhes contar uma outra história , fragmento de história, talvez, que aconteceu há pouco tempo em noite de calor extremo, muito vinho tinto e as carícias de um companheiro que não estava lá. Sim, vivemos em terras distantes.

Dado ao conteúdo do que vou, aqui desvelar, a fim de preservar o anonimato de nossas personagens vou conferir-lhes pseudônimos. Ele, homem quieto, acredita que gosta de viver só, mas ela sabe que é mesmo um daqueles sujeitos que podem ser, grosseiramente, chamados de come-quieto. Adriano Patrício é este homem cujos desejos ela ou não compreende, ou nega, não aceita, nem sei. Eu, ou ela, viajou ingenuamente sem imaginar que sua vida jamais seria a mesma. Ana Angélica, apenas em repousar o pensamento na imagem viril de Adriano Patrício, já sente labaredas a queimando genitália adentro. Coisas de quem já não está longe nem do Equador, nem da menopausa.

No entanto, antes de dar continuidade à narrativa do que viveram, preciso registar, aqui, algumas advertências. Só em lembrar meu corpo já sente choques do ventre às nádegas e as pernas se estremecem. Vou lhes contar uma história um tanto picante, sem papas na língua, daquelas que fazem rubrar os mais tímidos, os sonsos e até mesmo algumas pessoas que se acham escrachadas. Desta forma, se você está acompanhado e sua face pode rubrar no mais leve constrangimento, não leia. Se você prefere desconhecer as experiências sexuais talvez sórdidas, talvez solitárias de outrem, não leia. Se você for Adriano Patrício, antes de continuar, sirva uma dose de uísque e duas pedras de gelo. Qual o problema se ainda é de manhã? A esta altura da vida a quem acredita precisar dar satisfações. Sente-se no sofá. Tome um primeiro gole deixando o líquido repousar na boca por cerca de quinze segundos e continue a leitura. E, por fim, se você for a minha mãe, não leia.

A convite de Ana Angelica, marcaram um encontro por chamada de video em um sábado à noite. Conversaram sobre o cotidiano em quarentena, trabalho, filhos. Também sobre filmes, leituras diversas e por aí vai. Riram. Falaram do reencontro impedido pela pandemia. O vinho foi esquentando os corpos e as palavras. Angélica, com o notebook em mãos foi para o quarto, entregou-se à cama vazia como quem entrega-se aos mais baixos instintos carnais. Com volúpia tal ela lhe suplicava que ele lhe empunhasse seu pau. Ele, ao mesmo tempo que se masturbava, usava e abusava de frases de duplo sentido capazes de ruborizar o mais cafajeste dos caminhoneiros que deixa uma amante apaixonada em cada pousada da estrada.

Angélica arreganhava as pernas como se Adriano pudesse adentra-la pela webcam. Ela se tocava, o corpo fervia, nenhum pudor habitava as palavras. Ela achou por bem pegar o vibrador guardado na gaveta ao lado da cama. Passou um lubrificante e meteu em si mesma como se pudesse reproduzir a força de Adriano Patrício ao comê-la. Era um tal ardor, desconhecido de outros já experimentados e regozijados. O lubrificante tinha poder de causar ardência de como se um fogo nascesse no centro da vagina e se espalhasse em forma radial pelo corpo todo — Ui! Não era o caso. O prazer continuava mas era junto com uma sensação de olho ardendo com  xampu dentro da vagina quase invadindo o útero. Seu olhar aprisionado pela imagem do pau de Adriano na tela do computador conseguir esguiar-se levemente para o lado. Leu o rótulo do lubrificante: Álcool em Gel.

Sim, era o novo habitante-invasor da mesa de cabeceira, que por descuido ou tesão, fora confundido. Respirou, permitiu o ardor invasor invadi-la como gosta de fazer na última cavalgada antes do gozo. Gozaram juntos e distantes um daqueles orgasmos de deixar a boca seca e escorrer uma pequena lágrima enquanto se retoma o ar.

—Foi bom?
—Foi, e pra você?
—Foi ótimo!
—Boa noite.
—Boa Noite.

E adormeceram, nus, sozinhos sobre as camas.




Comentários

Albir disse…
Cristiana, que maravilha! Ensolarou minha quarentena por hoje. De boca aberta ainda com a surpresa do gel.
Cristiana Moura disse…
Que permaneça ensolarada!
Sandra Modesto disse…
Nossa, assim minha quarentena fica quente. Um texto assim é afrodisíaco. Vou ler em voz alta pra o meu marido. Lindo, Cris.
Anônimo disse…
Kkkkkk
Alcool em gel? kkkkk
Muito bom, gosou, ardeu e depois ainda deu boas risadas.
Unknown disse…
Hahaha maravilhosa!!
Zoraya Cesar disse…
HAHAHAAH, 'se for minha mãe, não leia" ahahahah adorei. E o lance do álcool em gel foi demaaaaaaaissss! isso parece coisa do pessoal da terrinha de Adriano Patrício hahahaha sua Anadangélica!
whisner disse…
Bacana a abordagem de um assunto tão importante em temos de isolamento. Gostei muito da crônica. Parabéns.
Nádia disse…
Acabei de rir na parte do álcool em gel e daí povo aqui de casa me perguntou: tá rindo de que? Cris do céu, pensa numa pessoa branca que mudou de cor? Fiquei vermelha!
Cristiana Moura disse…
Obrigada queridos!
Carla Dias disse…
Hahahahahaha
Cris, Cris... Muito bacana a abordagem erótica que se acaba no álcool em gel sem abrir mão do prazer. Muito bacana o texto!