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NÃO PECHINCHARÁS. NÃO DESPREZARÁS MULHERES DE APARÊNCIA FRÁGIL 2ª parte >> Zoraya Cesar


- Quanto ao preço... – hesitou. Como a mulher nada falou, sentiu-se mais confiante. “Esse negócio de não poder pechinchar é balela. Sou raposa velha. Vou dobrar essa idiota. Assassina, mas idiota”. 

- Entenda, a economia está em crise. Só bem depois de morto é que Muvi Bekke vai me dar algum lucro. A agência não poderia aceitar um desconto?

O Sr. Lauro cometera o terceiro erro do dia - pechinchar. E o quarto: pensar que ela trabalhava para a Agência; na verdade, a Agência trabalhava para ela – e para outros profissionais heterodoxos. 

- Tenho certeza de que podemos entrar num acordo. 

Ele riu por dentro. Bando de otários. Podem fazer o serviço sujo, mas  o negociante aqui sou eu. 

- Outra coisa. Quero assistir. Quero ver aquele parasita morrer. Se não for assim, nada feito. 

- Perfeitamente. O senhor será avisado. Isso constará no contrato, claro. – (E isso aumenta o preço. E você, Sr. Lauro, vai pagar por isso) – Quando receber uma mensagem de uma Srta. Lanmó, atenda imediatamente.  

Blue Anne chegou em casa, trocou de roupa e foi correr na praia. Meditação dinâmica era  o que precisava para acalmar a raiva e deixar espaço para a mente construir a estratégia. Fora contratada para matar. Blue Anne sempre cumpria seus contratos. 

Quando voltou já sabia o que fazer. Ligou para a Agência, explicou a situação. A atendente, do outro lado da linha, soltou um ah! de susto quando ouviu que o cliente havia pedido um desconto. Recompôs-se e anotou tudo o que Blue Anne pedia. A Agência dispunha de um banco de dados dos mais completos do mundo, e acesso a outros que nem um nerd sob efeito de LSD poderia imaginar

O cliente queria que parecesse um acidente, dramático, de preferência, para que os jornais fizessem a balbúrdia de sempre. Armas, portanto, estavam fora de questão. Atropelamento e fuga? Overdose de drogas? 

Aprontou-se e saiu. Estava na hora de conhecer o habitat do alvo, o cenário onde a tragédia se passaria.
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Muvi Bekke, o cantor, tinha um bar, mal e a duras penas mantido com o dinheiro que recebia do Sr. Lauro. Muquifo. Sujismundo. Ponto de encontro para prostitutas do médio clero, proxenetas disfarçados de agenciadores de talento, travestis empobrecidos em busca de uma réstia de fama, jogadores, alguns trabalhadores das redondezas. E, também, universitários modernosos, hipsters, que achavam aquela atmosfera do bas fond um exemplo da contracultura. 

A diversão do ex-astro era cantar suas próprias músicas no karaokê e servir bebidas às mulheres. O barboy que o ajudava – um rapazola magricelo de cabelo descolorido e piercing na sobrancelha, que parecia ter quinze anos de idade - atendia ao resto da clientela. 

A espelunca era decorada com fotos da época em que era jovem, rico, famoso. E charmoso. E sexy. Porque o dinheiro e a fama têm esse condão, que as dificuldades da vida, as drogas e o olvido decepam sem dó. Muvi Bekke agora era um espectro decadente que vivia das glórias do passado, naquele santuário às memórias mortas. 

Mortas? Para alguns, talvez. Pois, para Blue Anne, ver Muvi Bekke de perto, seus pôsteres de juventude, ouvir suas músicas despertaram-lhe, repentina e avassaladoramente, memórias afetivas. 

Lembrou-se vividamente da mãe, que tinha um poster igual ao da parede do bar; de sua voz desafinada e divertida, tão cheia de alegria. Blue Anne guardava essas lembranças como quem guarda a própria vida. No fundo do copo de uísque barato viu seu pai brincando de sentir ciúmes. Era um lar feliz. E Muvi Bekke fizera parte desse lar.  

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Ler Jane Austen
sempre a acalmava.
Especialmente antes
de um serviço. 
A madrugada ia plena quando voltou para casa. Tomou banho, preparou um chá e não dormiu. Estava agitada. Ligou para a Agência – que, assim como hospitais e cemitérios, trabalhava 24 horas  -, verificou que seus pedidos haviam sido atendidos e pegou um romance de Jane Austen para ler. Isso sempre acalmava sua mente e a fazia passar em paz a noite insone. 


Ao amanhecer, estava alerta e disposta, como se tivesse dormido o sono dos justos. Tomou uma vitamina de abacate com linhaça e, assim que a cor alaranjada da manhã foi substituída pelo azul de um novo dia, ela telefonou. Uma voz anasalada de bebida e sono atendeu, mal-humorada. 

- O que você quer a essa hora, p***? – Blue Anne riu. Seu químico preferido e amigo do peito, irmão, camarada, André. Sempre rabugento. 

- Preciso pra hoje. Não tiro férias sem terminar meus contratos e quero muito esse dinheiro. Faz pra mim um daqueles venenos lindos que não deixam traços e simulam um ataque cardíaco. – Ela passou a dar as características do alvo: peso aproximado, altura, hábitos etílicos, preferência alcoólica, idade... André ouvia atentamente, guardando os dados em sua cabeça, mais aguçada que a do próprio Tinhoso. 

- E você quer isso pra hoje? Tá pensando que sou o mágico de Oz? Além disso passei a noite com duas mulheres e essas vampiras querem mais sexo. Não posso ser egoísta, tenho que dar. 

- André, preciso pra hoje à noite. Com sua percentagem dá pra comprar aquela Duke KTM 1290
A KTM 1290 Super Duke era o
mais recente sonho de
consumo do químico
preferido de Blue Anne.
horrorosa que você tanto quer. À vista. E ainda sobra.

- A encomenda estará em suas mãos às 21 horas. Chantagista. – Os dois riram. Sim, respondeu ela, está perfeito

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Às 10 horas mandou mensagem para o Sr. Lauro de um número privado e irrastreável, apresentando-se como Srta. Lanmó. E ligou na sequência. Ele atendeu imediatamente, como combinado. 

- Vai ser hoje à noite. Esteja no (ela deu o endereço do bar) às 23 horas. Vá com sua roupa de  pegar prostituta na rua, pra não chamar atenção. Fique tranquilo, não vou começar nada antes de o senhor chegar e a agência fará com que não seja associado ao crime. 

Ele ainda tentou protestar – como essa vadia sabia que ele gostava de prostitutas? E como a agência teve a ousadia de fazê-lo assinar um contrato no qual o preço inicial tinha sido mantido e ainda recebera uma multa por ter pechinchado com a contratada? – mas a ‘Srta Lanmó” desligara na sua cara. Filha da mãe. Não vou pagar p*** nenhuma e ainda contrato outro profissional pra matar essa égua. Por fim, acalmou-se. Um passo de cada vez. Primeiro, ver morrer Muvi Bekke, aquele inútil, e receber o dinheiro do seguro – e das vendas, que, certamente aumentariam. Depois o resto. 

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Em casa, Blue Anne seguiu sua rotina. Ao final da tarde, foi para a aula de yoga. Precisava estar com o corpo preparado e a mente em ordem. As pessoas pensam que é fácil matar, mas não é. Não para pessoas normais, como ela. Só os psicopatas matam por prazer, pelo requinte da dor alheia. Não ela. Em toda sua história só houve dois casos em que... mas isso fica para outra vez. 

Agora, o importante é que às 21 horas em ponto, o porteiro avisou que havia uma encomenda para ela na portaria. 

A 3ª e última parte continua dia 15 de maio. 

Link da primeira parte

Outra aventura de Blue Anne

Significado de lanmó: morte, em haitiano


Capa de Pride and Prejudice
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:PrideAndPrejudiceTitlePage.jpg
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/17/PrideAndPrejudiceTitlePage.jpg
Jane Austen (1775-1817) / Public domain

Foto da Duke




Comentários

Érica disse…
Caraca, Zoraya, três partes?! Você está se superando... Só não vou reclamar porque a assassina é natureba e gosta de vitamina de abacate com linhaça rsrs
Albir disse…
Ainda acabo no inferno de tanto torcer pelos seus assassinos!
branco disse…
vou de carona com o Albir......aguardemos!
Carla Dias disse…
Isso de você dividir em partes a história acaba comigo! rsrsrsrs
Só me resta esperar.