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ENTREMEIO >> Carla Dias >>


Ao chegar ao fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas... Lá no fundo, no bojo dos destemperos, ao invés de cair no berreiro, até sorri para contrariar o que lhe desfere o destino. E não é sorriso de deboche, não é amarelo, desapegado da arquitetura do prazer que há em sorrir. Sorri a satisfação de ainda conseguir tocar fundo de poços, poças, canções de amor e de mágoas, e, embrenhada em destemperos, segundos antes de a alma abocanhar um belo berreiro, então...toca cada fundo como se fossem teclas de um piano mudo; pétalas de bem-me-quer-mal-me-quer, e impulsiona a volta ao fôlego. Respira a cordialidade das voltas para não relutar em tentar outra vez, ao comando de uma constância catártica.

Tem certo prazer em cultivar contrariedades: assiste a filmes tristes, a fim de compreender férteis alegrias; garimpa solidão, a fim de alcançar agradável companhia. Amarga os desapegos para banhar-se à beira das novas chegadas. Não deserda missões quase impossíveis, mas se dedica a descortinar suas nuances, que é para se aproveitar delas, mesmo que as mesmas lhes empurrem aos abismos, dos quais ela adora beijar os lábios, até que seja certeira a falta de ar, para então sacar do peito uma esperança-elástica que lhe devolva à vida, fazendo acrobacias sob medida para os destemidos, até para os mais medrosos deles, categoria na qual se encaixa, sem vergonha alguma.

Gosta de contar estrelas, mas prefere confidenciar a elas os seus pensamentos preguiçosos, pois sempre acabam sendo os mais sábios. Acredita na timidez dos desinibidos, mais do que na facilidade que eles têm de dizer sobre si e o mundo.

Já disseram que não era gente, mas sim bicho sob o domínio dos infindáveis medos. Que jamais reconheceria na vida a conquista do que fosse. Então, para não se perder em abobalhadas teorias, vem conquistando, lentamente, na prática, chegando mesmo a se apropriar do que não é seu, mas percebe abandonado pelo cansaço alheio, tamanho trabalho e paciência a conquista exige. Foi assim que conquistou pores do sol, amanheceres, olhares, alfinetes indesejados. E fotos desfocadas, palavras consumidas até o exaspero; um punhado de frivolidades que, colocadas com cuidado sobre a compreensão, formam uma poesia conhecedora das fraquezas humanas, que as versa com tamanha delicadeza, que fica impossível não sorvê-la, em encanto absoluto.

E vem conquistando tantas outras coisas nem tão coisas assim são.

Adota a autoria de pequenos crimes, sem pai nem mãe, como o de arrancar da rua paralelepípedos para plantar, neste vão de idéias mil, uma jabuticabeira. Assim, quando adulta, a árvore poderá cuspir fruta doce na boca dos motoristas que pensam que não podem mais ser felizes, porque o tempo esgotou. A vontade já era. Os sonhos estancaram. E para que possam fazer colares com os caroços, só para embelezar o colo do amor.

Redescobrirem-se tão capazes de.

Comemora uma década de ausência de abraço. Daquele abraço de pender a cabeça sobre o ombro do outro; de quando o tempo passa sem nos darmos conta. Para esta ausência, contrabandeou uma canção que morava antes no silêncio, mas que ao se apaixonar pela melodia dos faróis endoidecidos, nascidos em uma cidade ora hostil ora hospitaleira, piscando ao gosto de qualquer delirante espectador, deixou escapar um suspiro que deu ritmo às vontades por tempos trancafiadas no coração.

Colheu branduras para o jantar, e, ainda às portas do que será que será que há de ser e será, rabiscou um desenho na janela embaçada pela noite fria. Do outro lado, meninos e meninas ao sol da manhã de feriado; cabelos bagunçados pelo vento morno e pés ágeis para o pega-pega.

Assim, os contrários se encontravam sem pestanejar, e, deixando o destino de observá-los por um instante, enamoraram-se pelas frestas.

Imagem: Psyche Opening the Golden Box © John William Waterhouse

Este texto faz parte do projeto CRÔNICA DE UM ONTEM, tendo sido publicado, originalmente, em 19 de dezembro de 2007.

carladias.com

Baseado em palavras não ditas
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Livro impresso: Iluria

Comentários

branco disse…
gostaria de o poder de fazer os elogios que sua crônica merece. não sou capaz. vou me contentar em sentir o que sou incapaz de escrever.
Zoraya Cesar disse…
E eu, pobre de palavras, me aproveito, desavergonhada, mas sinceramente, do q disse lord white.
Albir disse…
Que maravilha, Carla! Eu não conhecia essa.
Carla Dias disse…
Branco, você disse a maior lindeza que eu poderia ler hoje. Obrigada!

Zoraya, riqueza isso que você me disse. Obrigada!

Obrigada Albir! Direto de 2007 para o que ainda percebo na vida.