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Mostrando postagens de Fevereiro, 2008

Minutos antes do primeiro passo >> Leonardo Marona

Sento-me de mãos vazias. Passo uma na outra. Continuam vazias. Olho para elas. Pasmo, passo uma na outra. Nada acontece. Aparentemente nada. Mas o que ainda podemos ver nas aparências? Levanto, sento, vou até a janela em passo acelerado, esperando ser de algum modo surpreendido. Faz um barulho surdo lá fora, constante, por dentro da terra. Sobre a terra nenhum carro, dilúvio, onça pintada. Volto a sentar-me. Essa frase ficaria bem melhor em Tchekhov. De qualquer maneira, ali estou, um rapazinho de estrutura média para baixa, ascendência talvez siciliana, na língua das ruas conhecido como atarracado, muitas idéias sobre questão nenhuma, mas existe ternura, existe o apoio na terceira haste, existe a pérola submersa revestida em lodo. Há que se perder a respiração em apnéia. A que se nadar bem ao fundo até perder a consciência. Até afundar placidamente, deslizar como deus na superfície intacta, deslizar como Carlos. Formigas voadoras de repente invadem o quarto. Existe harmonia e destrui…

ESPIRAL >> Carla Dias >>

Vivo nessa espiral a qual dedico um quê decifração. Nela aposento os medos, os diálogos engolidos no afã do desespero e as ilusões corriqueiras, pois elas o são de vez em quando. Sou uma pessoa de humanidade mancomunada com os arrabaldes do imaginário. Às vezes acredito que não existo em carne e osso e desconserto a realidade; dou até de ficar à espreita dos sonhos alheios, como se pudesse pegar carona nesses deslumbramentos tão avessos aos meus.

Eu viajo – como quem embarca em trem, navio, avião; pega asas emprestadas – através das páginas de um livro. Já me aborreci de jogar exemplar contra a parede, como se esbofeteasse o salafrário da história. E também já apaixonei pelas crianças, homens e mulheres que definiram suas biografias naquelas páginas; fascinei pelas tramas. Embarquei de mala e cuia. Acenei aos presentes: laços, pessoas e fantasmas.

Adoro as noites e descambo a observá-las sem medo. Permito-me orientar pelas estrelas, enquanto caminho rumo a sei lá onde. Já bebi de muitas…

Sem Controle >> Claudia Letti

"A vida se transforma rapidamente.
A vida muda num instante.
Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente."
["O Ano do Pensamento Mágico" - Joan Didion, ed. Nova Fronteira, 224 págs.]

Há meses eu estou ensaiando pra comprar esse livro que, desde que bati o olho, tem chamado minha atenção. Não sei se são questionamentos da idade, e me perdoe o clichê -- que, aliás, me irritava profundamente quando eu era (mais) jovem --, mas a maturidade tem um poder desconcertante de dissipar fantasias. Isso tudo também me faz lembrar daquela frase famosa de um Beatle: "A vida é o que acontece enquanto você está fazendo planos". E sabe lá que planos fazia John Lennon enquanto caminhava para o Dakota sem saber da missa a metade. Seja como for, com o passar dos anos fui percebendo que a vida pode e muda num piscar de olhos e nem precisa de acontecimentos trágicos ou drásticos para tal. Um contratempo na sua chatice de rotina, que seja, e você se t…

COISAS DE MÃO-MOLENGA >> Maurício Cintrão

As questões de trabalho me fizeram cruzar caminhos com os artistas do Instituto Mamulengo Social, aqui de São José dos Campos (SP). Originário da Companhia de Teatro Estranhos Mamulengos, dos anos 1990, ligada à Igreja Católica, o Instituto é uma ONG de sucesso no atendimento a crianças e adolescentes em situação social de risco.

Não sei se vocês sabem, mas o mamulengo é um boneco identificado com a cultura popular, usado há séculos no teatro de animação de bonecos, a partir de Pernambuco, mais especificamente de Olinda. Reza que chegou ao Brasil pelas mãos dos holandeses e ganhou esse nome porque é animado com mão-mole, mão-molenga, mão-molengo.

Pois foi conversando com o pessoal do Mamulengo Social que descobri: o mamulengo é um fenômeno cultural que se recria há séculos em vários pontos do país e não só no Nordeste. Aqui mesmo, no Cone Leste paulista, teria existido como manifestação cultural regional até bem pouco tempo atrás. Os cabeções de carnaval seriam prova disso.

Ainda vou pes…

SEM COBRANÇAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Faça uma lista das coisas que as outras pessoas deveriam ter feito e não fizeram. Para começar, basta lembrar do dia de ontem: o que foi que seu marido, esposa, filhos, pai, mãe, amigos, empregados... deixaram de fazer, tornando sua vida mais desconfortável do que você desejaria. Anote num pedaço de papel ou apenas liste mentalmente.



Pronto?

Se você conseguiu listar pelo menos uma coisa que alguém deveria ter feito, você está cobrando. Não importa se você não falou nada para a pessoa, você está cobrando. Não importa se você jamais daria conta de pensar nisso caso um cronista não lhe houvesse provocado; você está cobrando. A cobrança verbal é apenas uma exteriorização de uma cobrança que já existia internamente.

Talvez você pense que tem que cobrar mesmo, afinal o outro prometeu, ou se comprometeu, ou falou que ia fazer, ou, dada a função que está desempenhando (pai, mãe, filho, amigo, atendente de loja...), é responsabilidade dele fazê-lo. Sim, você pensa que as pessoas têm que fazer coi…

SENTIR FALTA [Ana Coutinho]

Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente, muitíssmo diferente, de sentir saudades. Ah, sentir saudades... Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.

Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de anestesia de dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar, se balançando todo. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, dos discos dele, do chinelo dele, sempre ali, jogado displicentemente na beira da cama. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar... Ai, que falta faz essa camiseta... Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.

Ou não dói uma unha encravada? Ou não dói um bife que a manicure tira? Ah, dói... e como. Talvez até mais que a dor da saudade.

MARTA >> Leonardo Marona

Seu nome era Marta, escritora de longos romances e ensaios filosóficos acerca da existência humana, Marta, que certamente lia livros policiais de capa cor de rosa, Marta-Dorothy Parker-Clarice Lispector, Marta quase Ana C., dava para se perceber, ninguém chamado Marta pode ser outra coisa se não escritora ou atleta. Ela poderia ser os dois, estava na pista onde alguns dançavam em ritmo blow-up, se agarrando lascivamente com um camarada um tanto duvidoso. Era óbvio que para ela não passava de um consolo, algo a que se apegar por uns minutos. Marta dos cabelos curtos, franja seca, Marta despercebida de todo o seu próprio mistério, Marta, o mistério despercebido e fulminante da pronuncia de “Marta”, escritora certamente de contos e poesias e ainda por cima uma entusiasta, de certo, da grande literatura, autora de livros infantis sobre a morbidez, Marta dos pés grandes, pés de Marta sobre o chão, cuidado, Marta, com o samba, com o chão nas tuas costas, escorregando... Apenas um deslize e …

AH, OS AFETOS, SÃO OS AFETOS >>> Cristina Carneiro

Às vezes eu assisto televisão. De vez em quando, eu faço questão de assistir a um determinado programa, apesar de, volta e meia, esbravejar contra a TV. De verdade, eu tento assistir, diariamente, ao Recorte Cultural*. Até porque, a partir de que eu passei a morar sozinha, me senti obrigada a me apegar a muitas coisas, já que tem dias que o computador está chato, a concentração não está para leitura, não é sexta-feira, não tem ninguém esperando pro jantar, nem ninguém pra ligar, nem ligação pra receber. Eu careço reprimir minhas necessidades de conversar demais, conversar inclusive sobre meus novos métodos de lavar a roupa, de maneira que elas fiquem realmente limpas, cheirosas, não precisem de muito molho e não me matem de hérnia de disco.

Eis que decidi assistir aos “Queridos Amigos”. Nos últimos anos, desde “Um Só Coração”, nenhuma minissérie da Globo (é preciso admitir que, quando eles querem, fazem o que preste) me mantinha acordada, nem me despertava vontade de assistir de forma …

PRESENTES >> Carla Dias >>

Desde que me conheço e desconheço por gente que presentear é quase um ritual. Não falo dos presentes sociais, às pessoas com as quais não tenho tanta intimidade. Falo sobre o presentear aquele que se ama e, por isso mesmo, a quem prestamos ainda mais atenção.

Já presenteei lua cheia num dia em que o outro estava precisando sumir do planeta terra. Às vezes, também é possível presentear com aquilo que ninguém possui, mas que pode alcançar com o olhar, com a alma, o significado da oferenda. Acontece até de estes serem os presentes mais significativos.

Certa vez, não era tão jovem, mas me deixei levar pela inocência da infância das amizades, e mandei a uma amiga um bombom todo enfeitado pelo correio. Claro que o pobrezinho chegou ao seu destino derretido que só e impossibilitado de ser devorado. Ainda hoje, quase duas décadas depois, eu e minha amiga ainda relembramos essa passagem com muito carinho e, claro, às gargalhadas! Portanto, posso dizer que esse presente-bombom ganhou a eternidade…

MARGARINA EM EXTINÇÃO -- Paula Pimenta

Todos os dias, recebo em meu e-mail dezenas de textos encaminhados, todos manjados, antigos, mas que continuam circulando pela internet. Poucos me interessam, mas hoje recebi um que sempre que aparece no meu Outlook, eu não resisto a fazer uma nova leitura. Ele, juntamente com outros dois que eu também não deleto sem reler, trata de uma 'doença' da atualidade: a revolta feminina frente aos novos papéis que a mulher acumulou de umas décadas pra cá.

O primeiro desses e-mails (e o que eu mais gosto) se chama "Desabafo de uma mulher moderna". Nele, uma executiva se mostra insatisfeita com as feministas do passado por terem nos privado do direito de ser a "rainha do lar" e nos colocado na guerra que é a vida da mulher moderna.

O segundo se chama "Bunda Mole". Este é bem engraçado e fala da revanche de uma mulher que foi chamada de 'preguiçosa' pelo marido.

O terceiro deles - "Eu me rendo" - é sobre o dever que as mulheres atualmente têm…

VENCEDORES EMOCIONADOS >> Maurício Cintrão

Neto é o nome conhecido do João, garção profissional, brincalhão por natureza, guerreiro por força dos acontecimentos. Enquanto eu reclamava da vida e da falta de tempo nos últimos anos, esse piauiense que adotou as terras paulistas como suas estudava sobre o pequeno balcão da copa da empresa.

Eu aqui, meio calado a meu canto, um pouco por desengano, outro tanto por perplexidade. Patinava a embreagem em busca de um fio de meada que permitisse voltar a tecer textos com a mesma sem cerimônia de antes. Perda de tempo a que o Neto não se deu ao luxo. Venceu a falta de tempo, o cansaço e o dinheiro curto superando textos e mais textos de seus cursos.

E nem posso creditar a terceiros a façanha de conhecer a evolução desse rapaz. Entre um café e outro, pude acompanhar de perto a sucessão de vitórias do garção, que superou o supletivo, passou com destaque na prova do Enen e entrou na Faculdade de Letras. Eu deveria ter aprendido a lição mais cedo. Mas nunca é tarde para recomeçar. E eu recomeço…

LIÇÕES DE SHOPPING, Albir José Inácio da Silva

Shopping não é para mim o melhor dos programas. Principalmente em certas datas. Mas o shopping acabou substituindo a praça e, quando não está lotado, é um lugar onde se pode ficar sentado, observando as pessoas que passam apressadas, tranqüilas, sorridentes, aborrecidas, ou seja, vivendo entre seus pares. Nestes tempos de praças sujas e perigosas, acaba sendo o lugar dos passeios, se não o melhor, por sua artificialidade, o lugar possível.
Fico ranzinza quando me obrigam a ficar horas em lojas lotadas e a dar opiniões que não tenho sobre sapatos e roupas. Pois eram dez horas da noite de um shopping lotado e lojas entupidas quando escutei ao meu lado:
— Elas não se cansam nunca, né? – Meu vizinho de banco tinha um rosto cansado e uma respiração difícil. Olhava para a mulher e a filha que, ao lado das minhas mulher e filha, seguravam quatro ou cinco pares de sapatos.
A minha impaciência ganhara um aliado. Falei torrencialmente sobre compras demoradas e desnecessárias, sobre voltar à mesma …

NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM >> Eduardo Loureiro Jr.

...

Imagine um homem que espanca outra ser humano até a morte. Um homem que dá um pontapé após o outro, sem se cansar, e só pára quando o corpo inerte não lhe responde mais em gemidos ou espasmos.

Imagine um homem que assiste calado ao seu próprio julgamento. Um homem que não abre a boca para se defender, e que recebe impassível a sentença de muitas e muitas décadas de prisão.

Imagine um homem que é agredido continuamente por seus colegas de cela e não apresenta qualquer reação. Um homem a quem não é dado o direito de morrer, e que é conservado vivo para apanhar um pouco mais no dia seguinte.

Imagine um homem que sobrevive em silêncio a todos os seus companheiros originais de cela. Um homem que seus companheiros atuais reconhecem apenas como alguém retraído, calado e de rosto desfigurado.

Imagine um homem atônito ao ser liberado por bom comportamento durante uma reestruturação do sistema penal. Um homem que recebe como prêmio a reconstituição de seu rosto por um cirurgião plástico filantró…

EU ASSISTO A NOVELAS... [Maria Rita Lemos]

... sempre que posso, e finjo que acredito quando alguém comenta alguma coisa da novela da moda e as pessoas saem-se com o mesmo lugar comum: “eu não assisto a esse lixo, mas vi esse pedaço porque estava passando na frente da TV” ou “casualmente a TV estava ligada e eu vi esse pedacinho”... ou ainda, pior: “minha filha estava vendo, chamou minha atenção e larguei o livro para ver esse capítulo, mas odeio novela!”...

Ora bolas – tenho vontade de dizer – semana passada também comentamos um diálogo da novela e você estava passando pela sala... ou “casualmente a tv estava ligada”... você fica passando sem parar na frente da tv, na hora da novela? E por que sua tv fica casualmente ligada, se ninguém está vendo?

Talvez seja hora de assumir as coisas, afinal ver novela não é pecado nenhum. Principalmente ver e comentar, criticar, ajudar a compor personagens e tramas... afinal, qual é a diferença entre assistir a uma novela ou a um seriado americano? Claro que “Lost” é muito bem feito, temos …

A Cidade Nova >> Leonardo Marona

estou seco, amor, você me ouve?
estou triste, raso, dos pés calosos.
sei que não há tempo para perdão e flores,
mas um cacto, amor, não custa os olhos.

e haverá afinal algo que ainda pulse pálido
sem ar além do ar salino na terra frígida
abafada de vícios em retinas-cornucópias.
haverá sol no fundo de algo que ainda sinta
cotovelos secos que se esbarram em ruas novas,
onde há morte e fome, amor e mito, correria,
algo à procura da sombra de um coqueiro-memória,
existe sim qualquer coisa de gris por trás da esquina,
mais por dentro da pele, algo que talvez alcance,
se eu mergulhasse fundo e não sangrasse tanto
do sangue da vergonha do sangue ante-sofrido,
talvez do mergulho desavisado viesse o ovo
primordial de que tanto falam nossos queridos
caios carlos clarices césares concretos corvos
que por ti por nós o alimento escasso digerido
nas bocas cortadas de preâmbulos e escorbuto,
além de tudo o que das mãos me escorre frágil
e de mim não se fez, mas me segue pelas ruas
em passadas largas de “prestes ao inter…

COISAS DE SEMPRE >> Carla Dias >>

Não sei ao certo o momento em que o cenário se torna outro. As coisas de sempre - daquele sempre extasiante, esplendoroso até - descolorem conforme o dia acaba. Assim como as maravilhas fugazes da paixão, as coisas de sempre também têm um quê de efemeridade. Sublocam destinos: os nossos. Depois partem sem avisar. Silenciam. Deixam aspas a ampararem nossos desejos.

Houve momento em que era coisa de sempre me apaixonar pelo impossível. Se parecia completamente funcional, prático, eu corria léguas. Queria me aventurar, mais do que isso, eu queria a liberdade na sua essência. Mas não tinha agilidade para tanto, porque a essência da liberdade cabe no entendimento de alguns, tem versões diversas, mas todas elas se enamoram de primeiros passos... E eu teorizava os meus. Eles não saiam do sonho, do daqui a pouco, do talvez. Ainda assim, na excentricidade da minha coragem que teimava em ser útil somente na fluência da escrita, coisas de sempre foram estocadas e outras ainda ganharam vida.

Como a…

CARTA-POEMA PARA UMA AEROMOÇA >> Eduardo Loureiro Jr.

Moça bonita que gosta do ar,
Talvez dês a todos o mesmo sorriso que desperta a vontade de te beijar. Teus braços, saídas de emergência, são asas, e o teu abraço deve ser tão bom quanto voar. Teus olhos de sombra nuvens parecem: prontas para chorar. E o choro, moça bonita que gosta do ar, é feito chuva para quem sabe banhar.

Eu sou passageiro, estou: passagem na mão e no peito. Mas levo teu cheiro e teu jeito do Rio de Janeiro ao mar de dezembro. Minha Fortaleza não tem serventia contra as meninas: Teresa Cristina, ..., Teresina. Teu nome em tua boca, moça bonita que gosta do ar, deve ter mais encantos que o nome do teu crachá.

Meu nome é Ulisses, Ninguém, sou do ar. Basta beleza para os meus olhos cegar. As minhas palavras têm ranços de um tempo em que eu vivia a guerrear. Prefiro ficar de boca fechada a lançar novos medos em teu olhar. Eu que sou leve, moça bonita que gosta do ar, peso-me com pesar.

Para quem é o contínuo aviso de não fumar? É para ti, moça bonita que gosta do ar? Qual é…

LUGAR DE PAZ [Ana Coutinho]

Todo mundo tem um lugar de conforto. Eu só não chamo de zona de conforto para não dar a impressão errônea de algo pejorativo, de um comodismo fracassado como um sofá fundo e confortável de onde ninguém consegue mais se levantar e permanece numa vida parada e covarde, a espera de qualquer milagre do mundo para que se saia dela.

Não. O lugar ao qual me refiro já é o milagre. O lugar que quero dizer, é esse instante de paz que nada espera, que nada precisa, que só deseja se perpeturar ali, naquela mesma casa antiga, naquele chão frio, naquela piscina gelada...

O lugar de conforto que todos temos é um espaço físico, num tempo determinado e, principalmente, com pessoas a quem amamos tanto que lá, apenas lá, podemos ser quem somos e nem uma grama a mais ou a menos.

Não se trata de uma onda de alegria, de uma empolgação súbita, mas sim de uma serenidade, daquela sensão única de tranquilidade e paz que só conseguimos ter algumas poucas vezes, quando podemos parar por segundos, porque não há o…

Cinco minutos de sonho e uma noite fria >> Leonardo Marona

A imagem mais cara de todas as noites que tive foi quando descobri que era um galo na China e na minha frente um rádio cuspia All of me assim como se fosse a Billie subindo feito vapor pela mesa de vidro polido, uma quina mal-entendida refletia uma luz amarelada coberta de celofane, uma garrafa de um Concha y Toro pela metade, duas vazias, na minha frente, uma noite muito fria e eu estava tão quente quando descobri que meu ascendente é um boi ruminante e fiel, mas o que olhei mesmo foi a rolha do Concha y Toro dentro da garrafa boiando, inchando, e o reflexo da luz amarela sobre a mesa de vidro, duas taças ao contrário refletidas, trêmulas, meus olhos já arenosos, a cabeça dando seus últimos sinais de funcionamento, das duas taças uma tem essa marca de batom imaginária e a outra é uma taça imaginária: solidão moderna ou ultra-percepção amorosa. E fora os vinhos e a Billie Holiday, que agora cantava um maxixe, minto, era uma mazurca de Chopin e eu já estava sonhando, não importa se são…

O MEU CARNAVAL >> Carla Dias >>

Estive fora do ar neste carnaval. Tranquei-me em casa, despachei fantasia, descartei pierrôs. Não sintonizei desfiles, sequer ousei cantarolar o som dos tamborins. Protegi-me dos dias de sol e dos dias de chuva; o teto cobrindo, as paredes abraçando. Vez ou outra, aquecida pelo café fresco.

Cavouquei fantasias neste carnaval, mas foi longe dos salões. As marchas estavam mudas que só! Ninguém cantou em uníssono, e dei replay naquela canção do Led Zeppelin, até a exaustão. Um misto de satisfação e falta.

Não sambei neste carnaval. Sentei-me em frente ao computador, comprometida que só com a minha tarefa, e reli as aventuras e desventuras dos personagens que criei e que, assim como eu, jamais saem para a farra do carnaval ou catam cacos na quarta-feira de cinzas. Os tambores, para eles, são os dos rituais de passagem. E exorcizam a si mesmos a cada segundo, determinados a não caberem nos confetes e dispostos a defenderem suas máscaras.

Cada qual com o seu deslumbramento.

Sumi do mapa, neste …

QUEM GUARDA COM FOME... >> Eduardo Loureiro Jr.

Há algumas décadas, quando minha tia médica foi fazer residência em São Paulo capital, minha avó, nascida e crescida no interior do Ceará, deu-lhe um único conselho: "Em terra de sapos, de cócoras com eles." O conselho foi seguido e há cinco anos, quando comemorávamos o aniversário de 80 anos de minha avó, minha tia escolheu a lembrança desse conselho para falar de sua mãe.
Os ditados, ou provérbios, constituem uma sabedoria simples que nós, em nossos delírios de complexidade urbana, já quase não conseguimos entender: para nós, soam simplistas ou moralistas, e quando os repetimos é mais por um hábito de linguagem do que por acreditar em suas palavras.
Entretanto, brinco de imaginar que minha avó poderia ter aconselhado minha tia com um ditado diferente: "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei". O provérbio, de sentido praticamente oposto ao anterior, incentivaria não a adaptação mas a auto-expressão diferenciada. Está aí a riqueza dos provérbios: para cada um dele…

NÃO ME LEVE A MAL, HOJE É CARNAVAL [Mariana Monici]

Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança foi lá que eu conheci
Maria Rosa meu primeiro amor

Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa
Primeira esperança
Primeiro carnaval
Primeiro amor criança


(Adoniran Barbosa)

Sempre gostei do Carnaval, apesar de várias questões que não me deixam nada confortável a respeito. Desde pequena, quando estudava em escola adventista e fazia catecismo na Igreja católica, ouvia nestes lugares um blá, blá, blá sobre o Carnaval ser pecado. Coisa da carne, festa da carne, e isso não era coisa que pessoas espiritualizadas pensassem e quisessem. Uma orgia. Mas confesso que demorei a entender o que queriam dizer com carne. Eu achava que era um feriado de fazer churrasco e os adventistas são vegetarianos, por isso era errado. Sei que adoro churrasco e também o Carnaval. Hoje isso mudou um pouco, pois me dei conta que o Carnaval no pais é a maior emissora de TV que temos, e se não fosse ela, acho que não …

Morte e vida quarta-feira cinzas >> Leonardo Marona

O amor havia se fantasiado de cigana. Nos encontramos em Santa Teresa, em meio a pensamentos de confete, e terminamos numa cama desfeita, arrepiados de saliva. Depois que o amor tirou a fantasia, ou melhor, depois que a fantasia foi arrancada com os dentes deste que vos confessa, não houve sono nem sexo, mas houve tudo, sem nexo, pois era o amor outra vez e o amor, quando é outra vez, não admite sono nem sexo, de modo que dormimos de olhos abertos para dentro, abraçados enquanto os ponteiros do relógio derretiam sobre as notas soltas de uma orquestra dissonante no fundo do corredor já sem prédio, dentro do bairro já sem cidade. Não podia amá-la, mesmo fantasiada, afinal não se ama o meio, o amor, mas o fim, aquilo que ele não diz. E no vazio do embalo coxo de uma dança com poucos movimentos calamos juras de carnaval com beijinhos de esquimó e asas de borboleta foram encontradas dentro dos nossos bolsos, dos meus e do amor travestido de cigana inamável. No dia seguinte, como era de se …