sábado, 2 de fevereiro de 2008

NÃO ME LEVE A MAL, HOJE É CARNAVAL [Mariana Monici]

Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança foi lá que eu conheci
Maria Rosa meu primeiro amor

Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa
Primeira esperança
Primeiro carnaval
Primeiro amor criança


(Adoniran Barbosa)

Sempre gostei do Carnaval, apesar de várias questões que não me deixam nada confortável a respeito. Desde pequena, quando estudava em escola adventista e fazia catecismo na Igreja católica, ouvia nestes lugares um blá, blá, blá sobre o Carnaval ser pecado. Coisa da carne, festa da carne, e isso não era coisa que pessoas espiritualizadas pensassem e quisessem. Uma orgia. Mas confesso que demorei a entender o que queriam dizer com carne. Eu achava que era um feriado de fazer churrasco e os adventistas são vegetarianos, por isso era errado. Sei que adoro churrasco e também o Carnaval. Hoje isso mudou um pouco, pois me dei conta que o Carnaval no pais é a maior emissora de TV que temos, e se não fosse ela, acho que não seria assim. Já o churrasco permanece intacto ao seu controle.

Quando pequena achava um luxo as fantasias, os sorrisos daquelas mulheres desfilando e não parava de pensar quem tinha inventado o desenho que cobria a Globeleza todinha. Mas foi aos 14 anos o meu primeiro Carnaval.

Eu e mais três amigas inseparáveis que moravam numa cidade do interior de São Paulo, esperávamos o ano todo pelo Carnaval nos anos que seguiram. Íamos juntas ao salão social do clube da cidade; no primeiro ano, os pais se revezavam para nos levar, depois confiaram que podiam nos deixar sozinhas na tal festa da carne.

Naquele primeiro Carnaval aprendemos marchinhas, aprendemos alguns passos, e aprendemos o quanto eram mágicos aqueles quatro dias, onde tudo podia acontecer. Os garotos iam de São Paulo pra lá e faziam sucesso. Eu ia de São Paulo também, mas só me importava fazer sucesso para um garoto. Foram nestes primeiros quatro dias de Carnaval que conheci meu primeiro amor.

Já estávamos paquerando nas férias de Janeiro e passei o mês todo esperando o Carnaval para revê-lo. Para estes dias, ganhei também minhas primeiras lentes de contato. Quando me arrumava para o baile da primeira noite, lá se foi uma lente pelo ralo. O pai da amiga até desmontou o encanamento do banheiro para achar e nada: lá fui eu pro Carnaval com uns óculos de armação preta de acrílico... Só faltava chorar de desgosto. Aliás, até chorei neste dia pelas lentes. Mas isso não foi empecilho: nós nos apaixonamos.

Era engraçado, pois todo mundo acha divertido paquerar várias pessoas no Carnaval. Ainda não ficávamos com ninguém, nem beijado na boca tínhamos, e para nós dois a diversão era não desgrudar as mãos para pular o Carnaval. De óculos e tudo.

Foram quatro dias encantados. Nós, as quatro amigas - com uma teoria estranha que cada dia era feliz ou mais feliz para uma de nós, e que a segunda e a última noite eram sempre as mais fantásticas - dormíamos todas na sala da casa de uma delas, e acordávamos às três da tarde suspirando de amor pela noite anterior e comendo rabanadas preparadas pela mãe da amiga. Separávamos a melhor roupa e logo estávamos prontas para outra noite.

Havia uma tradição na cidade de os meninos jogarem na casa das meninas rosas roubadas com um bilhete. Na última manhã de Carnaval ouvimos um barulho no portão e corremos para ver quem tinha ganhado a rosa e não era rosa coisa nenhuma mas, nesta noite, o meu amor me levou uma rosa do jardim que ficou a noite toda pulando com a gente no bolso da bermuda. Fiquei com o que sobrou dela, e a tenho até hoje, exatos quinze anos depois. Chorei pela segunda vez. De emoção.

Bom, os anos foram passando e começamos a elaborar fantasias e tudo mais para nosso Carnaval. Ficamos uns cinco anos juntas e confesso que sinto muita saudade, muita mesmo, e agora escrevendo, fico me lembrando das marchinhas que nos dedicávamos.

Aquele amor durou a quaresma, os 40 dias entre Carnaval e Páscoa. De quatro a quarenta dias encantados, trocando cartas e juras de amor (hoje aposto que ninguém tem a delicadeza de pedir o email ou o nome do amor de Carnaval!). E foi a seguir um perrengue só por anos. Nem me atrevo a dizer que acabou, pois as marcas estão aqui pra sempre. Chorei de novo. De decepção.

E depois tem o dia trágico para adolescentes apaixonadas que perdem quatro quilos no Carnaval: a quarta-feira de cinzas. Só podia ser de cinzas, restos mortais e a prova de que se desfez o encanto, Puf! Cinzas... Que juntávamos pra tentar guardar bem guardado no coração até o ano seguinte.

Três de nós pulamos um Carnaval em Olinda e Recife. Outra mágica! Festa à fantasia, bonecos gigantes nas ruas, praias e muitas risadas cúmplices. Ótimo. Acho que o Carnaval está sempre relacionado com uma alegria, uma possibilidade de respirar aliviada e ser por uns dias um personagem que você admira. Se soltar! Também em um outro Carnaval, duas de nós tentamos fazer a filhinha gostar da matinê do salão que tanto nos emocionou. Decepção. Desta vez, foi a menininha que chorou.

Enfim... Passei um Carnaval com meus pais no Rio. O Rio de Janeiro nestes dias continua lindo, mas nem pensar em amor nenhum! Vimos o desfile e descobri que queria desfilar. Quando a bateria passa por você na arquibancada, cada pêlo de seu corpo se arrepia, e eu ficava imaginando que aquele sorriso tão bem definido em cada rosto lá embaixo na avenida só podia vir junto com a fantasia. Outra vez, fui ao desfile em São Paulo e a emoção foi quase a mesma. Na TV nunca gostei de ver, mas minha irmã dizia que gostava das purpurinas e ficava pregada na televisão assistindo as escolas preferidas.

Este ano, surgiu a oportunidade que sempre quis depois que não me encaixei mais nos bailes de Carnaval em cidades do interior: o de desfilar na avenida, no Carnaval de São Paulo, na sexta-feira... Portanto, quem estiver lendo esta crônica pode apostar que estou cansada, cheia de purpurina colada no canto dos olhos apesar do banho insistente, e muito feliz! Já que vou fazer trinta anos loguinho e tenho algumas coisas a realizar até lá, melhor começar.

Sobre a sensação do desfile e se o sorriso vem junto com a roupa, conto outro dia ou suspiro outras cenas por aí. Quem sabe agora, mais madura, não seja um Carnaval sem choro e com vela...

O sábado deve estar sendo como a quarta de cinzas e não faço a menor idéia do que será dos dias seguintes a esta sexta. Um grande amor, quem sabe?! Que não vire cinzas... Pelo menos até a Páscoa!


Foi bom te ver outra vez, está fazendo um ano,
foi no carnaval que passou...
Eu sou aquele pierrot,
que te abraçou, que te beijou, meu amor...
A mesma máscara negra que esconde seu rosto,
Eu quero matar a saudade...
Vou beijar-te agora, não me leve a mal,
hoje é Carnaval!
(Zé Keti)

Imagens: Bob Sacha; Chris Helgren; Philip Gold


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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Ai, que saudades dos meus Carnavais da infância e da adolescência...
Que saudades do meu pai, que entrava comigo de mãos dadas nos salões - ele, sempre radiante com seu sorriso iluminado, era o próprio Carnaval trajado de humano... :)
Beijo, bonita.
Adorei esse texto!

Heloisa disse...

Oi Mari,
Apesar de nunca ter gostado muito de Carnaval senti a vibração que ele pode provocar principalmente na pele de quem acredita na fantasia e nas possibilidades que ela aponta!
Parabéns pela autenticidade que se sente em seu texto!

Anônimo disse...

Sou uma das 4 amigas... e apesar da memórica fraca, tirando as rabanadas... lembro de tudo, cada detalhe...

escrevi a pouco um texto longo... contando as minhas experiencias, mas deu erro no upload... uma pena... registro entao, apenas um:

Ma, parabens pelo texto!!! e ainda acredito q DOMINGO e TERCA sao as melhores noite!!!