terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sem Controle >> Claudia Letti

"A vida se transforma rapidamente.
A vida muda num instante.
Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente.
"
["O Ano do Pensamento Mágico" - Joan Didion, ed. Nova Fronteira, 224 págs.]

Há meses eu estou ensaiando pra comprar esse livro que, desde que bati o olho, tem chamado minha atenção. Não sei se são questionamentos da idade, e me perdoe o clichê -- que, aliás, me irritava profundamente quando eu era (mais) jovem --, mas a maturidade tem um poder desconcertante de dissipar fantasias. Isso tudo também me faz lembrar daquela frase famosa de um Beatle: "A vida é o que acontece enquanto você está fazendo planos". E sabe lá que planos fazia John Lennon enquanto caminhava para o Dakota sem saber da missa a metade. Seja como for, com o passar dos anos fui percebendo que a vida pode e muda num piscar de olhos e nem precisa de acontecimentos trágicos ou drásticos para tal. Um contratempo na sua chatice de rotina, que seja, e você se transforma num malabarista sem ensaio prévio. Ou isso ou a entrega dos pontos que, antes dos 90 anos, no mínimo, é melhor não alentar.

Queremos o controle, é fato. Queremos controlar nossos horários, a alimentação, o parceiro, os filhos, o trabalho, o saldo bancário e tudo que mais vier, com nosso apetite pela ordem estabelecida, mesmo que ela seja anárquica. Mas, não temos o controle de nada. Muito menos sobre a vida, essa incontrolável.

Você pensa que tem o controle da sua rotina até que estoura um cano qualquer e seu cotidiano é literalmente inundado por obras e transtornos levando, na enxurrada, o azul da sua conta bancária. Você não quer mais amar até que na virada da esquina, logo ali, você encontra alguém que o faz desejar amar de novo e o que é incontrolável: o faz desejar a entrega total. Daí acredita que seu amor é incondicional, e na virada da mesma esquina ou de uma outra, quem sabe, condiciona o seu amor à adrenalina de um olhar mais sedutor. Você faz um bolo delicioso para receber a família e um acidente doméstico transforma sua receita de felicidade num pesadelo. Você poupa o doce pra comer depois, saboreando a expectativa da primeira colherada e o telefone toca, anunciando qualquer coisa capaz de lhe de tirar o apetite. Lá se foi o doce, lá se foi o depois. Lá se foi sua receita de manter a vida em curtas rédeas.

Mas, longe de mim vestir indumentária de pessimista. É preciso falar dos descontroles felizes que nos atropelam. Desses atropelamentos ninguém quer escapar e ainda bem que também não temos o menor controle. Igualmente aqui, vale a regra de que não é preciso que seja "O" acontecimento. Não é preciso ganhar na loteria ou ser sorteado para um Cruzeiro pelas Ilhas Gregas. Pequenas coisas boas têm um poder maravilhoso de bagunçar nossa rotina. Carinhos, flores, uma comida gostosa, uma promoção, aumento de salário, uma paixão de tirar o fôlego, um amor maduro sendo renovado, o sorriso de um filho, uma manhã de praia e até, a gente bem sabe, o alívio de quitar uma dívida.

As coisas chatas e até alarmantes que o avançar da (minha) idade tem me feito reconhecer também servem, aleluia e amém, pra prestar atenção em outros clichês: a vida é agora, a felicidade é hoje e, muitas vezes, é inquilina de pequenos momentos.

Ninguém sabe o que você vai fazer ou o que acontecerá amanhã. E o que é mais desanimador e terrivelmente encantador é que você, provavelmente, será o maior interessado e o último a saber.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, minha amiga, como sou grato ao Tempo! Não bastasse lhe fazer mais bonita como mulher, Ele lhe faz mais elegante como escritora. E ainda permite a sincronia de que estejamos refletindo sobre cobranças e controles.

cacau disse...

Adoreiiiiiii seu texto!!! Muito bom,PARABÉNS!

Bjos ;-)

albir disse...

Às vezes a gente quer controle,às vezes descontrole. Mas quando você escreve a gente quer controle, descontrole e o que mais você propuser. Beijos

Marisa Nascimento disse...

Claudia:
Isso faz a gente pensar que poderia economizar muitas rugas e cabelos brancos, resultado das preocupações com o que a gente não pode mudar/controlar.

joao grando disse...

Fizeste eu relembrar um clichê que é clichê, de fato, mas importantíssimo.
Adorável olhar sobre o clichê.
Adorável crônica.
Adorável clichê.