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COISAS DE SEMPRE >> Carla Dias >>

Não sei ao certo o momento em que o cenário se torna outro. As coisas de sempre - daquele sempre extasiante, esplendoroso até - descolorem conforme o dia acaba. Assim como as maravilhas fugazes da paixão, as coisas de sempre também têm um quê de efemeridade. Sublocam destinos: os nossos. Depois partem sem avisar. Silenciam. Deixam aspas a ampararem nossos desejos.

Houve momento em que era coisa de sempre me apaixonar pelo impossível. Se parecia completamente funcional, prático, eu corria léguas. Queria me aventurar, mais do que isso, eu queria a liberdade na sua essência. Mas não tinha agilidade para tanto, porque a essência da liberdade cabe no entendimento de alguns, tem versões diversas, mas todas elas se enamoram de primeiros passos... E eu teorizava os meus. Eles não saiam do sonho, do daqui a pouco, do talvez. Ainda assim, na excentricidade da minha coragem que teimava em ser útil somente na fluência da escrita, coisas de sempre foram estocadas e outras ainda ganharam vida.

Como a coisa de sempre que era o gosto por colher girassóis com o olhar. Essa é uma coisa de sempre que ainda é. Há de ser até sabe lá.

Coisa de sempre atual é flertar com o possível. O impossível é desafiador, mas o possível requer sabedoria para ser bem utilizado, além de certa paciência. O que nos é permitido ou aquilo que com um pouco mais de trabalho e dedicação podemos trazer para as nossas vidas, é uma coisa de sempre abençoada. Como um banho, depois de um dia pesado de trabalho; uma oração silenciosa, a comida da mãe, a gargalhada dos sobrinhos. A fé e o ceticismo.

Tudo o que nos transforma é uma coisa de sempre. Algumas desbotam com o tempo, pois tiveram seu papel e ficam ali, lembranças. Outras se embrenham na gente e não saem mais.

Impossível ou possível, bom saber que há coisas de sempre capazes de nos impulsionar a reaprender a nós mesmos, diariamente.

Imagem: Sunflowers, Van Gogh

www.carladias.com

Comentários

Carla, entre as minhas "coisas de sempre" estão suas crônicas. E, assim como leite e chocolate, não as vejo desaparecendo no horizonte do meu futuro. Que suas crônicas continuem sendo "minhas" por muito tempo. :)
Claudia Letti disse…
Linda demais esta crônica, Carla. A felicidade mora nas pequenas coisas - possíveis, claro. :)
beijo grande

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