sábado, 9 de fevereiro de 2008

LUGAR DE PAZ [Ana Coutinho]


Todo mundo tem um lugar de conforto. Eu só não chamo de zona de conforto para não dar a impressão errônea de algo pejorativo, de um comodismo fracassado como um sofá fundo e confortável de onde ninguém consegue mais se levantar e permanece numa vida parada e covarde, a espera de qualquer milagre do mundo para que se saia dela.

Não. O lugar ao qual me refiro já é o milagre. O lugar que quero dizer, é esse instante de paz que nada espera, que nada precisa, que só deseja se perpeturar ali, naquela mesma casa antiga, naquele chão frio, naquela piscina gelada...

O lugar de conforto que todos temos é um espaço físico, num tempo determinado e, principalmente, com pessoas a quem amamos tanto que lá, apenas lá, podemos ser quem somos e nem uma grama a mais ou a menos.

Não se trata de uma onda de alegria, de uma empolgação súbita, mas sim de uma serenidade, daquela sensão única de tranquilidade e paz que só conseguimos ter algumas poucas vezes, quando podemos parar por segundos, porque não há outro lugar para alcançar, não há outra linha de chegada e nem há mais caminho que valha ser percorrido; o que se busca está ali, enfim, diante de você, e te causa um preenchimento tão completo e único, que tudo o que se pode desejar é que o tempo seja interrompido ali, naquele pequeno instante de paz.

Pode ser com os seus pais na mesa pequena da cozinha, comendo aquela velha macarronada cheia de molho de tomate. Pode ser entre seu marido e seu bebê na cama grande de casal que, ao invés de enorme templo da perdição, tornou-se um pedaço sagrado dos seus melhores finais de semana entre todos.

O seu lugar de paz pode ser num colchão velho, ou deitada num beliche, apertada ao seu marido enquanto sabe que do outro lado da parede estão seus pais, talvez seus irmãos, sobrinhos ou filhos... Um lugar onde tudo o que importa no mundo está reunido sob o mesmo teto e, por isso, se dá o milagre de ter o peito tão cheio de amor, que é como se transbordasse dentro de você um enxurrada de conforto e serenidade, que chega a doer os espaços - antes vazios - que você guarda por dentro...

O lugar de conforto é precioso por ser nosso lugar de paz, por permitir que nos despojemos das máscaras e então, lá, não é preciso murchar a barriga e seus ombros não estão contraídos, o riso é solto ao invés da sua habitual tensão, e você sabe que, se precisar de um socorro, de uma palavra, de um olhar qualquer de ternura, ele estará ali, a um esticar das mãos, a um passo de nossos pobres pés, normalmente calejados de andar sobre as pedras duras de um mundo pouquíssimo confortável.

O lugar de conforto é aconchegante, morno e calmo, e ali, naquele espaço seguro que pode estar sujo e ter a geladeira vazia, é que você sente que pode dançar, talvez cantar em voz alta, ou simplesmente ficar o dia todo calada, observando a fartura de um tempo sem lacunas.

O lugar de conforto é onde todos são iguais; os que estão ali, embaixo do teto firme da casa antiga são os seus, conhecem até os seus dedos dos pés, sabem-se cheios de amor e dividem o seu amor com os outros. Amam-te apesar de seus fracassos, amam-te apesar de suas covardias, amam-te apesar da sua timidez, dos seus quilos a mais, das espinhas que nascem na sua testa, das suas vergonhas, das suas mais pobres humilhações e das suas mais nobres virtudes...

Amam-te ainda que você não fale inglês, não saiba as principais capitais do mundo ou ainda que você fuja diante de um grito forte que o mundo, longe desse lugar de conforto, tenha ecoado em seus ouvidos. Amam-te não só apesar de tudo isso, mas por tudo isso também. Porque sua fraquezas mais dolorosas não os afastam, mas os aproximam. E suas virtudes mais nobres não os repelem, mas os orgulha.

Amam-te porque propiciam a você calor e segurança, e sentem-se assim ao seu lado, acalentados e protegidos como se você, que não é capaz de cuidar de uma só planta, fosse capaz de garantir ao outro fartura de paz e saciedade de alegria, sem mover sequer um dedo. Amam-te porque se sentem amados, e a vida, simples assim, sem nenhum luxo e nehuma riqueza, torna-se a maior dádiva e o presente mais precioso entre todos, quando você encontra, numa noite qualquer, entre confetes e serpentinas, o seu lugar de paz.

Doce Rotina
Imagens: Laureen March; Michael Dunne, Edward Bock

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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Tudo de bom esse texto! Que bom ter um lugar de paz, não? Eu tenho vários... :)
Beijo, bonita.

Mariana disse...

Ai que lindo este texto..que paz e fiquei percorrendo a mente para escolher o meu lugar de paz neste sabado lindo...:)
Um beijo querida

claudia disse...

Parabéns Ana, adoreiii seu texto... Vou ir sempre aqui!!!

Bjão ;-)