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Cinco minutos de sonho e uma noite fria >> Leonardo Marona


A imagem mais cara de todas as noites que tive foi quando descobri que era um galo na China e na minha frente um rádio cuspia All of me assim como se fosse a Billie subindo feito vapor pela mesa de vidro polido, uma quina mal-entendida refletia uma luz amarelada coberta de celofane, uma garrafa de um Concha y Toro pela metade, duas vazias, na minha frente, uma noite muito fria e eu estava tão quente quando descobri que meu ascendente é um boi ruminante e fiel, mas o que olhei mesmo foi a rolha do Concha y Toro dentro da garrafa boiando, inchando, e o reflexo da luz amarela sobre a mesa de vidro, duas taças ao contrário refletidas, trêmulas, meus olhos já arenosos, a cabeça dando seus últimos sinais de funcionamento, das duas taças uma tem essa marca de batom imaginária e a outra é uma taça imaginária: solidão moderna ou ultra-percepção amorosa. E fora os vinhos e a Billie Holiday, que agora cantava um maxixe, minto, era uma mazurca de Chopin e eu já estava sonhando, não importa se são miragens as noites mágicas, mas sentia cílios úmidos espanando as memórias da minha boca, e a frase mais bonita do dia havia sido: “A disciplina é um poema ao sentimento da honra”. E depois já tocava uma melodia azul, que minha amiga Puentes me ensinou a ouvir nos dias mais frios e um dia ainda aprendo a tocar. E ela me disse que um homem parecido comigo, “só que mais bonito e mais triste”, cantava, ou melhor, umedecia os ouvidos alheios com aquela música. E ele se matou com muita droga, muito novo, uma pena que o que viva muito esteja sempre tão perto da morte. Mas depois descubro que deveria ter uma vida de riquezas e satisfação sexual com uma cachorra, segundo o manual prático do horóscopo chinês, e vi que Ingrid Bergman também era uma cachorra, o que me deixou feliz, porém espirrei vinho e manchei as páginas do livro quando soube que meu lado ruim, meu yin, consistia basicamente de “acessos de pessimismo e crises de melancolia”, o que era uma verdade bem pouco excitante, apesar de muito prática e mais próxima da realidade das coisas. Mas pouco me importava a realidade das coisas quando os olhos feitos de soul do negro soprou seu cisne de prata na vitrola dos tempos e me alçou para fora das expectativas mais remotas de purificação e, sendo assim, apesar da predisposição mórbida para reumatismo, deformidade nas articulações e especialmente nos joelhos e nos pés, das afecções na pele, da queda dos cabelos, passando pela tuberculose óssea e chegando finalmente a um estágio de pequenas paralisias e alguns espasmos glandulares, novamente era Billie Holiday me lembrando que viver poderia ter sido mais fácil. E eu provavelmente teria perdido mais uma garota no dia seguinte. Mas não havia mais dia seguinte quando todos os dias estavam voltados para o mesmo instante. Aquelas imagens fugidias que procuramos a vida toda iguais a zumbis. Usando coisas sem importância como trabalho, compromisso com deus à noite e com o diabo pela manhã e à tarde como desculpa pela busca desenfreada sem resultados. Mas eu tinha ali um resultado. Não era o sentido da vida em jogo, pela primeira vez, mas o sentido da busca pela vida, do mais retumbante estado de maravilhamento e apavoramento por tudo que tem ofendido nossa raça e o vento leva e traz, sem você conseguir segurar, como o segundo em que o vinho sujou as páginas do livro e espirrou na parede e eu não sabia ganhar, era verdade, porque afinal ela era de ascendência inglesa. Mil feridos nos seus trajes de lã e sangue com ratos cegos se dando cabeçadas nos trilhos do trem. Um céu aberto visto de dentro do ônibus de dois andares, e ela tinha, pelo outro lado da família, uma raiz cigana húngara, e um dia Orson Welles me ensinou que não se deve confiar nos húngaros, e ele parecia estar falando sério – sendo que sobre os ciganos bolei minha própria teoria no dia em que uma cigana velha me pediu o relógio em troca de sorte na vida na esquina da Rua Nelson Mandela – mas era uma noite linda de meia lua e uma vela, a vela dizia que seria minha, que me esperaria até amanhecer, que cuidaria dos meus anseios, parecia tão sincera, a vela, que inspirava qualquer coragem. Lá fora chovia torrencialmente e as coisas nunca fizeram sentido, a sociedade é movida por culpa e segredos divididos em migalhas, mas por um segundo aquela luz amarela de celofane se espatifou como um espreguiçamento sobre o travesseiro da poça de vinho que desenhou uma Eurásia sem morte nem diamantes na mesa de vidro polido e, tudo bem, foram só cinco ou seis minutos – mas quem sabe quanto tempo dura um sonho? – e, tudo bem, eu acredito em Orson Welles porque ele mente muito bem e provou isso, mas eu gosto da húngara também, ela fica bonita nos dias mais frios. Gosto tanto do jeito que o cabelo cai na sua cara, do jeito que perco o jogo e nem ligo, da ossada mongol e da boca miúda, da maneira como tenta me amedrontar com verdades simples demais para não escolhermos as mentiras. Mas também constato que fazemos parte da decadência completa das instituições e, enfim, sou um pessimista de cinco pés e nove polegadas, 524 libras e, segundo o relógio da morte, tenho ainda mais 33 anos de vida, mais um Cristo sem saída, sorte a do primeiro, que fez carreira. E pelo menos já sei chorar antes de dormir. Quando Charlie me sinto meio Dizzy. E adoro mostrar o meu Hancock quando sinto ser uma hora oportuna. Uma pena que ele não Coltrane muita virtude. Mas se a vida é Espinosa e se William Carlos Williams, então tudo deve se multiplicar em mil faróis de Melville nessa noite única – peço um segundo a sós com a toalha rasgada de tricô, com a lembrança da segunda bailarina, Norma Pina, no seu primeiro dia no Teatro Municipal. Um vaso com pequenas margaridas murchas me diz que é tarde demais para se desistir do final, a segunda de Sibelius na vitrola pede que eu não acredite em mais nada até o fim do allegretto, mesmo que poco allegro, ao menos tranquillo, não sei, mas obedeço, desconfio da minha Fante de sabedoria, minha Camila, pena que seja do México e não da Hungria, e pena que Bird assobie Just Friends nos meus ouvidos, o que nunca serei capaz de entender, mas a noite fria pede pousada e eu faço as honrarias da casa, olhando a parede da sala respingada de sonhos, notas e vinho barato.

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