sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Cidade Nova >> Leonardo Marona

estou seco, amor, você me ouve?
estou triste, raso, dos pés calosos.
sei que não há tempo para perdão e flores,
mas um cacto, amor, não custa os olhos.

e haverá afinal algo que ainda pulse pálido
sem ar além do ar salino na terra frígida
abafada de vícios em retinas-cornucópias.
haverá sol no fundo de algo que ainda sinta
cotovelos secos que se esbarram em ruas novas,
onde há morte e fome, amor e mito, correria,
algo à procura da sombra de um coqueiro-memória,
existe sim qualquer coisa de gris por trás da esquina,
mais por dentro da pele, algo que talvez alcance,
se eu mergulhasse fundo e não sangrasse tanto
do sangue da vergonha do sangue ante-sofrido,
talvez do mergulho desavisado viesse o ovo
primordial de que tanto falam nossos queridos
caios carlos clarices césares concretos corvos
que por ti por nós o alimento escasso digerido
nas bocas cortadas de preâmbulos e escorbuto,
além de tudo o que das mãos me escorre frágil
e de mim não se fez, mas me segue pelas ruas
em passadas largas de “prestes ao interrogatório”.

se fundo eu apenas mergulhasse – como descendo
pela espessa avenida e cruzando entroncamentos,
ultrapassando dunas que tanto mais eu subo descem
– nas feridas abertas como em córregos coléricos,
tracejando crises brandas em copos mal-lavados,
surpreso passo a passo, e a cada segundo,
pelo segundo surpreso de cada passo eu cavo
incríveis e silenciosas atrocidades do coração.

e que ainda há flores no deserto, eu lhe direi.
e colheremos nem que seja a terra íntima das unhas,
e carregaremos nossos corpos quem sabe até o mar,
onde as ondas não vacilam e a solidão abandona o corpo
comido da bicheira, talvez nesses momentos, talvez agora,
poderíamos dar-nos todos as mãos, enfim silenciosos,
e abandonar de vez os poemas que são pingos ralos
de nós quando já tarda o senso e se atrasam os sinos
- quando não há mais diferença entre o corpo e o chão.

Fortaleza, agosto de 2007.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É tão bom ver nossa cidade como espaço inspirador! :)

criscalina disse...

Cidade nova é como eu chamo a minha cidade, que não é mais Fortaleza. Que é Salvador. :)

Um beijo,