segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

COISAS DE MÃO-MOLENGA >> Maurício Cintrão


As questões de trabalho me fizeram cruzar caminhos com os artistas do Instituto Mamulengo Social, aqui de São José dos Campos (SP). Originário da Companhia de Teatro Estranhos Mamulengos, dos anos 1990, ligada à Igreja Católica, o Instituto é uma ONG de sucesso no atendimento a crianças e adolescentes em situação social de risco.

Não sei se vocês sabem, mas o mamulengo é um boneco identificado com a cultura popular, usado há séculos no teatro de animação de bonecos, a partir de Pernambuco, mais especificamente de Olinda. Reza que chegou ao Brasil pelas mãos dos holandeses e ganhou esse nome porque é animado com mão-mole, mão-molenga, mão-molengo.

Pois foi conversando com o pessoal do Mamulengo Social que descobri: o mamulengo é um fenômeno cultural que se recria há séculos em vários pontos do país e não só no Nordeste. Aqui mesmo, no Cone Leste paulista, teria existido como manifestação cultural regional até bem pouco tempo atrás. Os cabeções de carnaval seriam prova disso.

Ainda vou pesquisar mais a respeito. O fato é que o teatro de bonecos no Sudeste exerceu forte influência em alguns segmentos de produtores da cultura popular. Foi animado por personagens que se notabilizaram com nomes próprios, como Briguelas, Casimiros-Cocos e Joões-Minhocas.

Bem, mas o motivo deste texto não é tanto a pesquisa histórica, e sim o meu espanto com o teatro de bonecos. Pode parecer estranho, mas esse universo se descortina para mim somente agora, depois de velho. Não que eu desconhecesse a arte da animação de bonecos. Os fantoches também me fascinaram quando era menino. Na adolescência, também fui encantado pelo Muppet Show.

A diferença é que nunca enxerguei a animação de bonecos assim. E o que é o “assim”? É uma maneira de entender a arte como instrumento transformador em sua essência. Não se trata de fazer bonequinhos bonitinhos que promovem gracinhas para as crianças.

O teatro de animação de bonecos é uma atividade complexa, com história, tradição e fundamento. Envolve não só texto, interpretação, cenografia e figurino, mas também a produção artesanal dos bonecos. Mais ainda, envolve a arte de dar vida a esses bonecos.

É fascinante descobrir que existe uma grande variedade de companhias dedicadas a essa arte aqui no Brasil, em vários pontos do país. O teatro de animação de bonecos mobiliza uma legião de criadores, produtores e técnicos. E apesar da TV, ainda é capaz de encantar milhares de espectadores (de todas as idades) em teatros, escolas e praças públicas.

Peço que dêem um desconto nessa empolgação toda. Por conta do meu filho Pedro, que completou seis meses na semana passada, ando meio obcecado com a releitura das coisas de criança. Afinal, estou revivendo muitos dos sonhos da minha infância, vários dos quais foram revisitados com os outros quatro filhos.

Enfim, meus amigos, acho que descobri uma nova e explosiva paixão. Coisa de mão-molenga.


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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Mauricio, que espetáculo você lembrar do teatro de bonecos no seu texto. Tenho vários conhecidos bonequeiros que vão ficar maravilhados com a lembrança dessa arte tão pouco divulgada.
Parabéns e meu agradecimento em nome de todos os bonequeiros.

estrela disse...

Primo Mauricio, mais uma vez achei muito interessante esta crónica. Quando era pequena tinha uma adoração pelos 'fantoches', que apareciam ao domingo. Em Portugal existem ainda, vão aparecendo nas festas de aniversário das crianças. Favor ver este link http://www.santoaleixo.com/bonecos_de_santo_aleixo.htm
Um abraço,