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Mostrando postagens de Setembro, 2017

DEU CERTO? >> Paulo Meireles Barguil

— Deu certo?

Afinal, o que é dar certo?
Um fracasso pode ser a semente de um grande sucesso. Uma conquista pode ser o bilhete para uma tragédia. Temos tanto o que aprender... Na dúvida entre o que escolher? Não se preocupe: pouco importa o que você seleciona. Antes que me apedrejem em virtude dessa pretensa blasfêmia, esclareço que não estou propondo a falta de análise diante de uma situação, mas estou lhe disponibilizando um salvo-conduto, sem validade e reutilizável, para embarcar ou saltar quando assim avaliar que as opções, por motivos diversos, são praticamente similares. É claro que eu não estou defendendo a preferência por algo que você já sabe que não lhe será agradável, mas que você, ainda assim, insiste em marcar. Indispensável, sempre, preservar o cuidado pessoal em todas as dimensões, não permitindo que suas conquistas sejam surrupiadas por larápios errantes. Eu não sei se "No final, vai dar certo!", pois desconfio que o final não existe...

DEPOIS DE LÁ >> Carla Dias >>

Houve quando desejou saber onde ficava o fim do mundo. Haveria lá algum lugar onde se sentar e observar o começo dele? O pai lhe disse que isso era coisa de astronauta. Melhor crescer, estudar, fazer o possível para lidar com a realidade.

A realidade dele tinha nada a ver com o espaço. Já o olhar, esse se perdia pelo céu, caçava o infinito, apesar de teme-lo, profundamente.

Realidade sempre foi valorizada em sua casa, feito doutrina adquira em prol da sobrevivência. Eram realistas fervorosos. Contabilizavam dinheiros e se dedicavam a ter sempre o suficiente. Observavam a tudo de forma direta, a fim de resolver problemas, acertar arestas, organizar estratégias.

Sim, eram pessoas amáveis. Ele frequentemente se pegava a observá-los, pais e irmãos, a se tratarem com o amor em dia. Havia uma tranquilidade de sobreviventes que os servia bem. O problema era ele, que vivia com uma inquietude a lhe desaprumar, desarranjar o definido, desestabilizar realidade.

Tornar-se um realista praticante …

O QUE VOCÊ DIRIA? >> Clara Braga

A princípio a tarefa parecia fácil, diga para essa pessoinha que cresce dentro de você tudo que você quer dizer agora que falta pouco pra ele chegar!
Não podia ser difícil falar com ele depois de meses treinando, mas a parte do "falta pouco pra ele chegar" dificultou um pouco o processo.
A verdade é que você vai chegar em um mundo muito louco. As coisas por aqui estão tão complicadas que só seres lindos e inocentes como você tem coragem de pedir pro cara lá de cima para voltar para a loucura. Eu, aos olhos de alguns, sou quase uma irresponsável por fazer parte desse plano. Para outros sou abençoada por trazer ao mundo uma pessoa com uma missão tão linda: arrumar esse planeta! Nossa meu filho, nem sinta o peso dessa responsabilidade, por favor! Não é assim que funciona!
Agora é hora de se preocupar em nascer, parece que as pessoas esquecem o trabalho que dá! Imagina só, você tendo que sair de um lugar quentinho, tranquilo e se adaptar a todo esse ar e o povo já querendo que …

LEMBRANÇAS DE SALVADOR >> Sergio Geia

Estava hospedado no Malibu Hotel, em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Mel, guia, passou o roteiro: Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Memorial Irmã Dulce, Mercado Modelo, Elevador Lacerda, Pelourinho, Igreja e Convento de São Francisco, Farol da Barra, Praia do Forte, Praia de Itapuã. Itapuã, uma exigência minha. Os demais passeios eram tipicamente passeios de turista de primeira viagem. Pois digamos que assim eu era: nunca havia estado em Salvador, e, como todo bom turista que aterrissa em terras soteropolitanas, queria conhecer tudo. No domingo, estive no Rio Vermelho. A região passara por obras, e estava pronta para a festa de Iemanjá, que aconteceria dali a dois dias. No entanto, o meu destino não era a região da festa, onde os barcos atracam, avolumam-se oferendas, onde há música e fé, mas o número 33, da rua Alagoinhas. E num domingo — não haveria dia melhor para aquela visita que um domingo, dia preguiçoso, de silêncio, oração, vida devagar, ruas vazias, sons …

NOTÍVAGOS >> Zoraya Cesar

Ele caminhava pelas ruas mal iluminadas, desertas, de uma vizinhança afamada como perigosa e sinistra. Havia poucas lâmpadas acesas -  a maioria, quebrada - fazendo com que a noite de inverno ficasse ainda mais tenebrosa. Somente os corajosos, os desavisados, ou os que não tinham alternativa estariam por ali àquela hora. 
Devia ser o quê? Talvez três da madrugada, um pouco mais, um pouco menos. Ele não saberia dizer ao certo – seu relógio quebrado durante uma refrega e ainda no relojoeiro. Mas era tarde, seu cansaço e a fome não lhe deixando dúvidas quanto a isso. 
Finalmente, encontrou o lugar que procurava. A luz amarelada e forte da lanchonete clareava parcamente a semi-escuridão, e ele se dirigiu para lá, cauteloso, lento, como o beduíno que busca o oásis no deserto: sedento e trôpego de exaustão, mas atento aos predadores noturnos.
Entrou e, imediatamente, como sempre acontecia quando ali estava, sentiu-se em casa. O Phillies era um refúgio aos notívagos, um lugar para descansar o c…

HOMENS OPACOS>> Analu Faria

Homens que não falam, aparentemente não sentem, homens que não discutem, homens de salão. Homens cordiais demais (cercados de mulheres assustadas demais ou acomodadas demais) para afrontar as atrocidades de outros homens que, nesses mesmos salões, dizem violências em tom de piada, com naturalidade. Homens que se dessensibilizam em dinheiro, status, álcool, religião. Homens que, em meninos, fecharam-se e jogaram as chaves de si mesmos fora.
Fantasmas. Vagando pelo limbo casa-trabalho-happy-hour-fim-de-semana, em busca de uma masculinidade perdida, isenta de memória, isenta de criatividade, isenta de qualquer traço florido. Bolsonaros-wanna-be e suas versões mais light, deixando-se levar apenas pela sensibilidade das crianças. Só delas.
Crianças crescidas. Com grossas capas amarelas que os protegem contra uma chuva que não vem. A vontade de gritar quando criança, a diferença enxergada desde cedo – repelida - , a violência que não se desvê e outros porcos selvagens grunhindo no porão e…

QUEM É? >> Carla Dias >>

Mantém tudo em ordem, que não vai deixar problema a ser herdado. Tem horror à ideia de entregar seus fantasmas aos que esperam recebê-los, apenas para se dizerem gentis ao acudirem ser tão complexo. Não se importa se herdarão seu dinheiro, seus imóveis, sua coleção de quadros, seus discos do Frank Sinatra. O que não deixa de herança é a sua história.

Os mais próximos, como gostam de se colocar, são apenas transeuntes na estrada da história dele. Sim, por mais respeitoso que ele seja com seu semelhante, generoso, até, há esse limite estabelecido em nome da intimidade consigo mesmo. Ninguém ultrapassa a linha que o defende da intimidade com o outro. Tem uma preguiça... sim, meus caros, é preguiça mesmo. Tem uma preguiça imensa de se mostrar ao outro. Imaginem o tempo gasto a contar lorotas, antes de entregar verdades? Não tem paciência para isso, nunca desejou conquistá-la. É absolutamente contra qualquer redenção que exija prefácio.

A casa grande, de cômodos a ecoarem o silêncio. Ali …

JÁ? >> Paulo Meireles Barguil

— Já?  Esse vocábulo é utilizado para expressar alívio ou tristeza em relação a algum acontecimento, seja em virtude do seu término ou do seu início. Cada pessoa e seus padrões: ora segue o relógio externo — regulado por dispositivos mecânicos, elétricos... — ora pactua com o marcador interno — guiado por sentimentos e imagens, cujas conexões escapam do seu desejo de compreendê-las na totalidade. Um beijo, uma refeição, um filme, uma viagem, um curso, uma vida, um aconchego, uma crônica...

DANOU-SE >> Carla Dias >>

Danou-se, meu caro.

Eu pensei que, finalmente, a liberdade de ser estivesse ali, na esquina das nossas buscas. Não se tratava mais de uma estrada a ser percorrida, mas de destino acenando, nos dando boas-vindas.

Estradas a serem percorridas perderam até o quê poético para mim. Veja, percorremos estradas bem longas, até aqui. Ser tem sido o desafio mais complexo que já encaramos. Ser sem medo de sê-lo. Ser com direito a sê-lo.

Talvez, tenhamos nos deslumbrado com perspectivas e perdemos a noção da força daquele que prefere ecoar um outro alguém. Um alguém oco, destinado a sobreviver feito reservatório de percepções obsoletas. Porque, se o ser humano tende a evoluir, nada mais natural do que seu olhar se apurar, certo? Suas percepções se aprumarem.

Na minha cabeça – e no meu coração, na minha alma, ou sabe-se lá em que lugar do dentro você entende como sensível ao mundo -, o futuro seria o tempo no qual compreenderíamos que somos seres humanos; que nos trataríamos, primeiramente, como …

ORGANICAMENTE GRATA >> Clara Braga

Há alguns anos abandonei o curso de letras faltando apenas um ano para me formar. Muitos acharam que fiz uma loucura e confesso até que cheguei a ir a uma dessas mulheres que fazem leitura de borra de café e perguntei o que ela achava da minha decisão, ela me orientou a voltar atrás da minha decisão ou eu iria me arrepender. 
Resultado: não voltei atrás e não me arrependi. E continuo achando que não preciso ser formada em letras para gostar de ler, não preciso ser formada em letras para gostar de escrever e não preciso ser formada em letras para ser uma curiosa da língua, ou seja, estava no curso pelos motivos errados. Acabei me arrependendo de gastar uma grana tomando um café ruim e ouvir a mulher falar um monte de coisas que nunca aconteceram, mas de largar o curso não.
Enfim, mas foi exatamente o fato de continuar sendo muito curiosa que digo que venho percebendo uma mudança na nossa escolha de palavras, uma mudança na nossa forma de falar. Agora você deve estar pensando que eu nã…

BANALIDADES >> Sergio Geia

Deitado, meio dormindo, me lembro da afta debaixo da língua. Achei que ela não iria pra frente; foi. Levanto. Vou ao banheiro e pego um cotonete. Olho no espelho, ergo a língua, começo a cutucar. Cutuco, cutuco, cutuco. Levo o cotonete mais a fundo. Cutuco, cutuco, cutuco e encontro a danada. Viro o cotonete e, a ponta ainda seca, encharco com Omcilon. Vou deitar com a boca cheia de pomada, o estômago esquisito, um gosto de tempero pronto na boca. Na tevê, passa um documentário legal sobre o Jards Macalé. Uma vez ouvi alguém dizer que homem não consegue organizar nem o bolso da calça. Na frente da minha porta, vasculhando o meu bolso, a sacolinha do supermercado pesando nas mãos, tento encontrar a chave. São várias chaves no bolso, uns papeizinhos, um pen drive, um halls preto, um clipe de papel. Me irrito profundamente. Acho que pouca coisa me irrita mais que isso. Tiro um molho de chaves, cai um comprovante de débito no chão, o halls também cai, pego outro molho de chaves, mudo ele d…

A TEIA DE IRENE >> Zoraya Cesar

Vivíamos isolados, numa chácara modesta, nem três alqueires. Nossos únicos parentes eram dois primos de caráter duvidoso.
Durante o dia, eu cuidava da terra, ou ia à cidade tratar dos negócios e comprar novelos de lã; durante a tarde lia os clássicos – sempre no original, claro. Minha irmã Irene cuidava dos afazeres domésticos pelas manhãs e, após o almoço, tricotava. Só nos encontrávamos à noite, para jantar e contar como fora nosso dia. Nossos dias eram sempre iguais, mas contávamos assim mesmo. Antes de nos recolhermos, eu ficava a bebericar meu xerez preferido, o Tio Pepe, e a fumar meu cachimbo, absorto em ver Irene tricotar. As mãos de Irene tricotando eram pura arte em movimento.
Era um ás das agulhas. Podia fazer qualquer coisa com linhas e lãs e creio que nem mesmo Aracne, em sua melhor performance, seria páreo para ela. Doce e meiga Irene.Pequena, magra, pálida. Seus grandes e espantados olhos azuis faziam-na parecer uma frágil boneca de louça. Mantinha cortados rentes os cabe…

OS REIS DO DRAMA>>Analu Faria

Olho pro garotinho com uma casca de ferida enorme no joelho e digo: ai, isso deve doer. "Dói nada, quer ver?" E arranca um pedacinho da casca, expõe uma pele quase em carne viva, a ferida sangra. A mãe do garoto me olha com cara de poucos amigos e dá bronca no filho. Maroto, o menino esconde da mãe um sorrisinho transgressor, que reserva para mim. Penso que o garoto pode ter tendências psicopatas, talvez fosse bom uma avaliação psiquiátrica, psicológica... melhor não ficar perto, vai que ele tem um canivete, um estilete ou algo assim escondido, meu Deus, eu posso ser morta por um menininho!
Minha mãe costumava dizer para os filhos: "Não corram na sala, que eu tô vendo a hora de vocês racharem a cabeça na quina da mesa", colocando uma ênfase especial em "racharem a cabeça". Talvez um "... que vocês vão se machucar." fosse suficiente. Lembro-me de que, já mais velhos, a frase virou motivo de piada para mim e meu irmão: "Cuidado que você vai …

O ANDAMENTO DO TEMPO >> Carla Dias >>

Há o que já não fazemos, porque esgotamos a capacidade de nos dedicar ao feito. Há também o que abandonamos, nem sempre por vontade própria, quase sempre por conta dos acontecimentos que não temos como comandar.

Olhamos para a juventude com certa distância. Ainda a achamos atraente, a desejamos – metafisicamente – com certa elegância. Porém, concordamos que seria um fardo viver a eternidade, não é mesmo? As urgências, aquelas urgências que perdem o valor com o tempo. Tivemos de vivê-las para reconhecermos que a utilidade delas não é nos levar às conclusões, mas ao questionamento.

Levamos uma vida para entendermos que as perguntas, ainda que desprovidas de respostas, contam histórias. Mais do que isso, acontece de elas mudarem essas histórias.

Olhamos para a juventude com certa intimidade, quando se trata dos nossos afetos. Chegamos mesmo a nos emocionar com a forma como eles descobrem a vida. Como não observar o tempo acontecendo a eles e torcer para que o processo seja menos complex…

ANJOS E PARAÍSOS >> Albir José Inácio da Silva

Toda vez que Stepan Nercessian aparece na televisão, acabo transportado ao personagem  Marcelo Zona Sul naquele cinzento ano de 1970.
Um tempo em que não cabiam aquelas suaves transgressões adolescentes, mas, como meu coração ainda não enxergava as cinzas, eu só via o paraíso em que se espalhavam e, às vezes, se entediavam aqueles jovens.
Enquanto diplomatas estrangeiros eram sequestrados, o Brasil virava tricampeão e eu sonhava com o mundo de Marcelo. Não era apenas inveja que eu sentia, era uma espécie de reverência.
Copacabana, Lagoa e Alto da Boa Vista eram muito mais do que minha imaginação dizia sobre o pobre Éden com suas árvores, cobras e maçãs. Era lá, na zona sul, que a vida devia acontecer de fato para os que merecessem.
Eu achava que não merecia porque fazia coisas abomináveis, até que vi, ou imaginei, que Marcelo fazia tudo aquilo com a naturalidade de um anjo. Isso servia como anistia geral, mas não se aplicava a tudo. Algumas transgressões só podiam ser cometidas por e…

HOMO SAPIENS IGNORANS >> Paulo Meireles Barguil

 Sem os sentidos, como sentimos?

Sem sentirmos, como vivemos?

Sem vivermos, o que somos?

Dentro de diferentes caixas – de osso, madeira, papelão, cimento, plástico, ferro, verdade, metal, transistor... – estamos.

Fora dessas caixas, somos.

Ignorar os limites implica sermos deles reféns.

Identificá-los nos enseja tatear grades invisíveis e, assim, atravessar incontáveis portais.

Sapiens é quem se reconhece ignorans.

Ignorans é quem se crê sapiens.

Palavras e silêncios são matérias-primas que modelam fortalezas e pontes.

Usá-las é uma arte, cujo aprendizado está relacionado à qualidade da nossa vida.


[A Cabeça Quadrada, Nice – França]

[Foto de minha autoria. 02 de março de 2013]