sábado, 23 de setembro de 2017

LEMBRANÇAS DE SALVADOR >> Sergio Geia




Estava hospedado no Malibu Hotel, em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador. Mel, guia, passou o roteiro: Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Memorial Irmã Dulce, Mercado Modelo, Elevador Lacerda, Pelourinho, Igreja e Convento de São Francisco, Farol da Barra, Praia do Forte, Praia de Itapuã.
Itapuã, uma exigência minha.
Os demais passeios eram tipicamente passeios de turista de primeira viagem. Pois digamos que assim eu era: nunca havia estado em Salvador, e, como todo bom turista que aterrissa em terras soteropolitanas, queria conhecer tudo.
No domingo, estive no Rio Vermelho. A região passara por obras, e estava pronta para a festa de Iemanjá, que aconteceria dali a dois dias. No entanto, o meu destino não era a região da festa, onde os barcos atracam, avolumam-se oferendas, onde há música e fé, mas o número 33, da rua Alagoinhas. E num domingo — não haveria dia melhor para aquela visita que um domingo, dia preguiçoso, de silêncio, oração, vida devagar, ruas vazias, sons de vira-latas e bem-te-vis. Eu parei na ladeira e respirei um ar fresco, defronte à casa que tão bem me receberia e onde passaria momentos de agradável distração. Admito que poucas, poucas vezes na vida me senti tão bem numa residência, como na casa de nº 33, da rua Alagoinhas.
 
                                             



Uma plaqueta no jardim dizia: “Cadê o seu Jorge? Está no seu jardim. Ao lado de Zélia. E de um pé de jasmim.”
Pois eu estava no jardim, ao lado de Jorge, de Zélia e de um pé de jasmim.

 

Uma máquina de escrever Royal, óculos, canetas, facas, algumas anotações do que seria um novo livro, uma carta escrita por Lobato, camisas estampadas e vestidos de gala, uma enorme biblioteca. A casa inspira e, num certo momento, ouvi Jorge falando atrás de mim. Ele se mostrava preocupado com o povo brasileiro que, segundo ele, vive às minguas, numa situação de penúria tão grande e tão terrível, que até dá a impressão de ser milagre viver no Brasil. Depois concluiu: “E o povo ainda faz festa. É um povo forte, poderoso”. Eu estava apalpando uma Telefunken, instalada na sala à frente de duas cadeiras e duas banquetas, lembrando-me da minha avó, que lá na Professor Moreira, também tinha uma.
 
 
 
 
Essas coisas todas ficaram na memória. Mas, como todo bom turista, tratei de tudo fotografar. E agora, noite, sábado chuvoso, tomando uma taça de vinho aqui em casa, revejo fotos.
Lembro que fui parar em Buraquinho, dica de um taxista. Lá, também os pescadores celebram Iemanjá. As fotos agora não me deixam mentir. São baianas com seus vestidos brancos, colares de contas e turbante na cabeça. O céu é carrancudo. Naquela manhã fez sol, depois caiu um toró; depois, com chuva ainda, fez sol; depois outro toró veio do mar. As pessoas chegaram aos poucos, com suas flores. O registro do pequeno barco, mais parecendo uma floresta, tem cheiro de alfazema. Me surpreendo agora (sim, como não notei no dia?) com a foto de um homem que é a cara do meu falecido pai. O mesmo cabelo pintado, os mesmos óculos, a mesma barriga. Se ele já não tivesse morrido, eu diria que esteve na Bahia, pra festa de Iemanjá.
Outro registro interessante: uma sanfona, um pequeno órgão, copo, caneca de café, escova de dente, pente, óculos. São coisas de Irmã Dulce. A pequena cama de madeira que propiciou descanso àquela batalhadora está ali. De repente, surge a foto de um homem desconhecido. Quem será esse cidadão que se atreve a ser destaque numa foto minha? Por qual motivo ele está ali ao lado das coisas de Irmã Dulce, sorrindo, fazendo pose e tudo? Puxo da memória, mas o máximo que encontro são galinhas do convento que Irmã Dulce transformou em canja para alimentar seus doentes, no galinheiro que se tornou hospital.
Ah, a fotografia. Assim como a crônica, ela consegue trazer lembranças esquecidas, num renascimento suave de situações, normalmente a açular bons sentimentos. E fotografia tem cheiro. As minhas aqui têm cheiro de canja, de alfazema, de camarão. Ora, como não me lembrar daquele risoto memorável saboreado num bar no Rio Vermelho? Tenho fotos do momento. Nada de axé, Ivete, Claudia, Timbalada ou Olodum. O proprietário é mais rock. Ao fundo do balcão, onde trabalha um baiano sossegado, há gravuras em preto e branco, delicadamente emolduradas, dos Beatles, do Elvis, do Mike Jagger. Num canto, um enorme quadro com a caricatura de John, Paul, Ringo e George e um escrito de letras grandes: “The Cavern Club”. Há um registro do meu risoto. Consigo até enxergá-lo fumegando; consigo até sentir o aroma da cachaça.
São muitas fotos. Vou passando com rapidez pelo Mercado Modelo, Elevador Lacerda, Baía de Todos os Santos, um marzão, barquinhos, Praia do Forte, uma igrejinha azul e branca, Farol da Barra, Pelourinho, até que me detenho numa. A luz indica que o registro foi feito à tardezinha. É uma praia. Vejo duas pessoas em pé ao lado de um guarda-sol jogando frescobol, uma mulher debaixo de outro guarda-sol. Vejo alguns barquinhos, uma pedras, um mar. A fotografia pegou até os coqueirais, a areia. Puxo da memória. Itapuã. Posso até ouvir o mar, sim, ouço o mar de Itapuã. Ah, linda tarde foi aquela em Itapuã...
Vou puxando tudo, de uma memória ouriçada pelas fotos, ouvindo sons, sentindo cheiros, identificando sabores; a sensação é boa, mas logo o vinho acaba. Deixo tudo no sofá, vou à cozinha, me brindo com uma nova taça, e esquento a pizza, que, fria, jazia molhada de azeite dentro do velho forninho.


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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

NOTÍVAGOS >> Zoraya Cesar

Ele caminhava pelas ruas mal iluminadas, desertas, de uma vizinhança afamada como perigosa e sinistra. Havia poucas lâmpadas acesas -  a maioria, quebrada - fazendo com que a noite de inverno ficasse ainda mais tenebrosa. Somente os corajosos, os desavisados, ou os que não tinham alternativa estariam por ali àquela hora. 

Devia ser o quê? Talvez três da madrugada, um pouco mais, um pouco menos. Ele não saberia dizer ao certo – seu relógio quebrado durante uma refrega e ainda no relojoeiro. Mas era tarde, seu cansaço e a fome não lhe deixando dúvidas quanto a isso. 

Finalmente, encontrou o lugar que procurava. A luz amarelada e forte da lanchonete clareava parcamente a semi-escuridão, e ele se dirigiu para lá, cauteloso, lento, como o beduíno que busca o oásis no deserto: sedento e trôpego de exaustão, mas atento aos predadores noturnos.

Entrou e, imediatamente, como sempre acontecia quando ali estava, sentiu-se em casa. O Phillies era um refúgio aos notívagos, um lugar para descansar o corpo sofrido e a lassidão da alma. 

A lanchonete era pequena, embora ocupasse os dois lados de uma esquina. Largas janelas envidraçadas deixavam à mostra o seu interior e, de longe, um passante podia ver o longo balcão de madeira em formato de L e os bancos fixos ao seu redor, único espaço onde os fregueses podiam sentar e comer. 

Havia um casal sentado lado a lado, ambos calados, ante duas canecas de café aparentemente já sorvido. Um jovem atendente de uniforme branco inclinava-se para pegar algo debaixo da pia. Tudo parecia calmo. Entrou. 

Sua chegada não causou estranheza, ninguém nele prestou atenção. Sentou-se de frente para o casal, do outro lado do balcão, e pediu, também ele, um café, forte, sem creme, acompanhado por um sanduíche de presunto com ovo. Estava com fome, oh, Deus, como estava faminto.

O chapéu baixado sobre os olhos, ocupou-se, até por vício há muito adquirido, a observar em volta, enquanto aguardava que o atendente preparasse seu pedido. 

A mulher, linda, ruiva, deslumbrante em seu elegante e decotado vestido vermelho, olhava as próprias unhas, absorta em si mesma. Ele sentiu, mais do que viu, que, debaixo da maquiagem perfeita, havia um certo embaciamento da pele, uma certa rigidez de feições. Ela levantou momentaneamente os olhos e, neles, o homem do outro lado do balcão viu o abismo dos que já não têm mais esperanças. Era o que ele mais gostava no Phillies; lá, todos – ou quase todos - podiam se despir de suas máscaras. 

Eis um sujeito que sabe cuidar de si, pensou, olhando discretamente para o homem sentado ao lado da ruiva desiludida e voluptuosa. Ele tinha o olhar agudo e fixo dos que não gostam de ser contrariados, a boca fina e o nariz aquilino. Suas faces eram encovadas e, o queixo, quadrado. De vez em quando tragava o cigarro que trazia entre os dedos e soltava lentamente a fumaça pelo nariz. Sua mão e a da ruiva descansavam próximas uma da outra, mas separadas por uma invisível, embora perceptível, parede de gelo e indiferença. 

Não, decidiu o homem que chegara por último, não eram um casal, apenas estranhos que sentaram juntos.

Estranhos e solitários, como ele. Como, até mesmo, o jovem atendente, que olhava a mulher com os olhos arregalados de quem descobre a beleza proibida pela primeira vez.

Depois que seu cigarro terminou, o homem de nariz aquilino não se mexeu mais. A mulher, também não. Ninguém dissera palavra. Tudo era silêncio e escuridão do lado de fora. Tudo era silêncio e solidão do lado de dentro. 

Comeu vorazmente seu sanduíche e continuou onde estava.

Sua experiência lhe dizia que uma mulher como aquela, bem vestida e bem tratada, não estaria na rua àquela hora se não fosse habituada ao bas fond, ao submundo, ao perigo. Era uma mulher da noite e, obviamente, segura de si. Por instinto, ele sabia que o homem de terno impecável e olhos implacáveis ao lado dela era um meliante, provavelmente guarda-costas de algum bandido em ascensão, ou, mais provavelmente, pistoleiro de aluguel.

Sentado sozinho, a cabeça baixa, o homem que chegara por último gostaria de quebrar o silêncio e conversar com a mulher; talvez ela não estivesse cansada demais e consentisse em dividir o leito com ele, oferecer sua carne quente, branca e macia, por algumas horas apenas. Gostaria de quebrar o silêncio oferecendo um cigarro ao homem, uma última bebida antes de saírem para a noite fria e o destino inevitável que os aguardava, cada um do lado do caminho que escolhera para suas vidas. Faria, também, alguma observação para o atendente, por que não?

Mas não fez nada disso. Sabia que, embora fosse como eles - predadores soltos na noite, aves notívagas sem pouso certo -, sua tentativa de socialização não seria bem vinda. Prostitutas, bandidos, atendentes que vendiam drogas por baixo do balcão… nenhum deles iria querer a companhia de um policial. Por mais solitários que todos estivessem.
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O Phillies era seu lugar preferido. Lá todos podiam ser quem eram sem dar satisfações a ninguém.
Nada era perguntado. Nada era respondido. 


Foto: Nighthawks - pintura de Edward Hopper


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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

HOMENS OPACOS>> Analu Faria


Homens que não falam, aparentemente não sentem, homens que não discutem, homens de salão. Homens cordiais demais (cercados de mulheres assustadas demais ou acomodadas demais) para afrontar as atrocidades de outros homens que, nesses mesmos salões, dizem violências em tom de piada, com naturalidade. Homens que se dessensibilizam em dinheiro, status, álcool, religião. Homens que, em meninos, fecharam-se e jogaram as chaves de si mesmos fora.

Fantasmas. Vagando pelo limbo casa-trabalho-happy-hour-fim-de-semana, em busca de uma masculinidade perdida, isenta de memória, isenta de criatividade, isenta de qualquer traço florido. Bolsonaros-wanna-be e suas versões mais light, deixando-se levar apenas pela sensibilidade das crianças. Só delas.

Crianças crescidas. Com grossas capas amarelas que os protegem contra uma chuva que não vem. A vontade de gritar quando criança, a diferença enxergada desde cedo – repelida - , a violência que não se desvê e outros porcos selvagens grunhindo no porão estão todos dentro de casa, mas a proteção é usada para o exterior, mesmo em dias ensolarados: longas capas de chuva grudadas à pele embranquecida e desnutrida.

Animais doentes, que atacam insetos como quem caça javalis e deixam-se pisotear por leões mansos de jubas grandes. Perderam o contato com o espírito selvagem e sábio que os alimentava. Homens com medo de serem monstros, homens que temem deixar de sê-lo.


Uma reflexão sobre alguns homens que conheço e sobre a dor de linhagens e linhagens de mulheres aparentemente condenadas a viver com homens fechados, sempre encapuzados, desnutridos, sensíveis apenas a crianças e olhe lá. Uma reflexão de fim de semana, motivada pelo belíssimo “Sete minutos depois da meia noite”, filme em que um garotinho tem que admitir para si mesmo que queria que a mãe morresse logo, porque assim, pelo menos, ele não sofreria mais com a dor de não saber se iria ou não perde-la para o câncer. No filme, o garoto é procurado por um monstro que o força a admitir essa verdade dolorosa. Pareceu-me que depois de dizê-la em voz alta o garoto se transformou, toda a fotografia do filme mudou de cor, deixando o menino finalmente visível em tons brilhantes, acabando com a opacidade que o caracterizava.


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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

QUEM É? >> Carla Dias >>


Mantém tudo em ordem, que não vai deixar problema a ser herdado. Tem horror à ideia de entregar seus fantasmas aos que esperam recebê-los, apenas para se dizerem gentis ao acudirem ser tão complexo. Não se importa se herdarão seu dinheiro, seus imóveis, sua coleção de quadros, seus discos do Frank Sinatra. O que não deixa de herança é a sua história.

Os mais próximos, como gostam de se colocar, são apenas transeuntes na estrada da história dele. Sim, por mais respeitoso que ele seja com seu semelhante, generoso, até, há esse limite estabelecido em nome da intimidade consigo mesmo. Ninguém ultrapassa a linha que o defende da intimidade com o outro. Tem uma preguiça... sim, meus caros, é preguiça mesmo. Tem uma preguiça imensa de se mostrar ao outro. Imaginem o tempo gasto a contar lorotas, antes de entregar verdades? Não tem paciência para isso, nunca desejou conquistá-la. É absolutamente contra qualquer redenção que exija prefácio.

A casa grande, de cômodos a ecoarem o silêncio. Ali vive a versão oficial dele, entre móveis que moram lá desde sempre, a poeira muito bem-comportada debaixo de tapetes que já foram apreciados por olhares deslumbrados, quando estavam no ápice de sua juventude. Ninguém dá muita atenção aos tapetes que resistem, quando suas cores desbotam sob os pés do tempo. As janelas protegidas do lá fora por leves cortinas, porém ótimas bloqueadoras de olhares curiosos vindos lá rua.

O perfume do café se espalha pela casa. Às vezes, gosta de quebrar o silêncio com uma e outra canção do Frank. Não que ele seja cool, habituado à finesse do cantor. É acomodamento necessário, entende? A alma se entrega à melodia, ainda que lhe dê certa agonia abrandar espírito desejoso por sons mais escandalosos.

Há dias em que o desejo é pelas gritantes guitarras.

Toma seu café a apreciar janela cortinada. Vento entrando pela humilde abertura e levantando suas saias drapeadas. Frank canta as palavras como se elas fossem realidade inquestionável, ainda que, para ele, elas soem mesmo feito invencionice sem fim: You learn from every lonely day/I've learned and I've come back to say/let me try again. Ele sorri, como quem diz ao Frank que há quem aprenda mais do que reconhecer necessidade de companhia, em dias de solidão. Aprende-se o desapego ao desejo do outro em nos transformar em seus sonhos realizados. Aprende-se a aceitar a própria companhia sem o peso de quem não escuta outra voz ecoando pela casa.

Aprende-se que, antes só do que desacompanhado na presença de alguém.

Ele tem consciência do que falam sobre ele por aí. Os que orbitam sua existência, divertem-se e irritam-se com a ironia que ele destila. Acostumados a ela, eles não percebem os entretons, e assim ele se defende do desejo alheio de se alcançar os arrabaldes do ser que ele é. Sabem dele o que ele permite. Recebem dele o que ele permite. E ele, tolamente, acredita que está no comando de si, porque tudo o que quer é que herdem seus fantasmas, e os dispam, e os cutuquem com curiosidade programada, de acordo com o que já foi decidido por pura possibilidade de se emitir uma opinião. Que inventem para ele problemas dramáticos, sentimentos profundos, limitações comoventes. A barbárie do clichê.

Porém, uma dessas revistas de traçar perfil o definiria em um teste. Uma das canções de Frank o faria sem grandes complicações. O que ele faz é distrair as pessoas para que elas não percebam o raso do que ele representa. Porque ele acredita, equivocadamente, que não há forma mais eficiente de se sair ileso dessa vida do que abster-se de seus rompantes. Permanecer à deriva dela.

Raso, apesar do desejo de mergulhar.

Frank para de cantar. Acabou o café. O vento partiu e a saia da cortina despencou sua beleza. Sentado em sua confortável poltrona, ele arrasta pés descalços em seu tapete de muito antes de hoje. A poeira sobe, estreando a mirrada luz do sol como seu holofote. O silêncio de lá fora se acopla ao silêncio daqui de dentro. As paredes parecem gritar a mudez definitiva. Por um segundo, ele se desespera, mas passa. Nada de deixar seus fantasmas de herança. Eles são o seu segredo.

O telefone toca e ele atende. Uma voz que ele não reconhece pergunta quem é? E ele é tomado por um desespero incomum, de quem perdeu o rumo diante de um questionamento nunca feito. Não sabe o que responder.

Silencia.




Imagem: The musings of the solitary walker © Rene Magritt



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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

JÁ? >> Paulo Meireles Barguil

— Já? 
 
Esse vocábulo é utilizado para expressar alívio ou tristeza em relação a algum acontecimento, seja em virtude do seu término ou do seu início.
 
Cada pessoa e seus padrões: ora segue o relógio externo — regulado por dispositivos mecânicos, elétricos... — ora pactua com o marcador interno — guiado por sentimentos e imagens, cujas conexões escapam do seu desejo de compreendê-las na totalidade.
 
Um beijo, uma refeição, um filme, uma viagem, um curso, uma vida, um aconchego, uma crônica...


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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DANOU-SE >> Carla Dias >>


Danou-se, meu caro.

Eu pensei que, finalmente, a liberdade de ser estivesse ali, na esquina das nossas buscas. Não se tratava mais de uma estrada a ser percorrida, mas de destino acenando, nos dando boas-vindas.

Estradas a serem percorridas perderam até o quê poético para mim. Veja, percorremos estradas bem longas, até aqui. Ser tem sido o desafio mais complexo que já encaramos. Ser sem medo de sê-lo. Ser com direito a sê-lo.

Talvez, tenhamos nos deslumbrado com perspectivas e perdemos a noção da força daquele que prefere ecoar um outro alguém. Um alguém oco, destinado a sobreviver feito reservatório de percepções obsoletas. Porque, se o ser humano tende a evoluir, nada mais natural do que seu olhar se apurar, certo? Suas percepções se aprumarem.

Na minha cabeça – e no meu coração, na minha alma, ou sabe-se lá em que lugar do dentro você entende como sensível ao mundo -, o futuro seria o tempo no qual compreenderíamos que somos seres humanos; que nos trataríamos, primeiramente, como pessoas. Que cortejaríamos as diferenças. Que nos despiríamos da necessidade de nos provarmos superiores. Que nos conheceríamos profundamente e, assim, seríamos capazes de nos reconhecermos em mais, muito mais do que nos permitem as regras empoeiradas às quais nos acostumamos a cumprir.

Esse futuro foi ontem e isso não aconteceu.

Talvez, por conta da nossa curiosidade a respeito do tudo e de todos, sejamos mais dedicados ao provocador. Observá-lo tem se mostrado uma forma efetiva de aprender pessoas, obras, mudanças. Mas danou-se, meu caro. Teremos de encarar outras estradas desacreditadas e batalhas vencidas, com vitórias descartadas, apesar de legítimas. E quando traímos a legitimidade, damos muitos passos para trás. O tempo dedicado à evolução é descartado como se tempo nenhum tivesse acontecido. Como se tivesse sido um sonho com a brevidade de décadas. Séculos.

Assim, diminuímos as chances de alcançarmos a nós mesmos.

Eu compreendo sua apreensão. É começar de novo um novamente que tem jeito de ciclo vicioso. Gostaríamos de fazer a roda girar, mas que não fosse para nos enganar, dizendo que nos leva a algum lugar, quando, na verdade, nos mantêm prisioneiros de tradições que nada significam, além de correntes.

Eu realmente pensei que seríamos melhores no tempo-hoje. Então, que acordei desacreditada nesse meu pensamento. Senti uma desolação digna de quem se esvaziou daquela esperança sobre a qual falamos ontem. Foram muitas doses de café, livros folheados, roupas lavadas, contemplação de rua, lá da janela. Tentei me distrair de mim, exercendo a rotina. Então, dei-me conta de que, apesar da desolação, danou-se, meu caro, mas vou continuar a buscar um mundo onde caiba o entendimento sobre o significado do que é oferecido e do que é imposto. Da importância de podermos escolher, de termos opções disponíveis, de assumirmos o que não é suscetível à mudança, porque é essência.

Danou-se, meu caro.

Imagem: Midday Sorrow © Angel Planells

carla.dias.com



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terça-feira, 12 de setembro de 2017

ORGANICAMENTE GRATA >> Clara Braga

Há alguns anos abandonei o curso de letras faltando apenas um ano para me formar. Muitos acharam que fiz uma loucura e confesso até que cheguei a ir a uma dessas mulheres que fazem leitura de borra de café e perguntei o que ela achava da minha decisão, ela me orientou a voltar atrás da minha decisão ou eu iria me arrepender. 

Resultado: não voltei atrás e não me arrependi. E continuo achando que não preciso ser formada em letras para gostar de ler, não preciso ser formada em letras para gostar de escrever e não preciso ser formada em letras para ser uma curiosa da língua, ou seja, estava no curso pelos motivos errados. Acabei me arrependendo de gastar uma grana tomando um café ruim e ouvir a mulher falar um monte de coisas que nunca aconteceram, mas de largar o curso não.

Enfim, mas foi exatamente o fato de continuar sendo muito curiosa que digo que venho percebendo uma mudança na nossa escolha de palavras, uma mudança na nossa forma de falar. Agora você deve estar pensando que eu não deveria ter largado o curso, pois assim saberia que a língua está em constante mudança, mas não é essa a questão. 

A primeira questão é que eu nunca tinha me observado no meio dessa mudança, só percebia que ela havia acontecido depois de um tempo, quando todo mundo já estava comentando sobre termos e frases que já não eram mais utilizados e haviam sido trocados. A segunda é que as palavras que estamos trocando são um tanto curiosas.

Por exemplo, o obrigado/obrigada foi trocado pela gratidão. Ser trocado por uma palavra tão leve faz mesmo o obrigada parecer uma palavra sem jeito, até quase mal educada. Talvez a forma como falamos, já quase sem perceber, tenha esvaziado a palavra de significado e, embora possam ter abrangências diferentes, fez-se necessária a substituição de uma pela outra.

Outra palavra que foi comprar um cigarro e nunca mais voltou foi a compaixão. Nunca se falou tanto nela para dizer que ela está em falta ou não existe mais. E de tanta falta que ela faz, agora é necessário que sinônimos sejam usados, mas não sinônimos perfeitos e sim palavras com significado próximo que servem para situações específicas, como é o caso da sororidade.

A diversidade se tornou extremamente diversa, se antes parecia abranger poucos grupos hoje já precisa vir acompanhada de alguma outra palavra para que se possa entender de qual diversidade estamos falando, o que é ótimo.

E o orgânico? Já entendi que comer comidas orgânicas é mais saudável, embora por algum motivo seja muito mais caro, mas estou tendo muita dificuldade em lidar com o fato das coisas e das pessoas também serem mais orgânicas, até onde eu pude entender isso parece ser algo bom, mas ainda é o tipo de palavra que eu não sei aplicar em uma frase.

É isso, as palavras estão se modificando e se adaptando a um novo mundo, o problema é que esse mundo parece doente e a necessidade da mudança de palavras é só um reflexo da necessidade urgente de mudança de atitudes. De nada adianta a gratidão se ela for tão vazia quanto o obrigada que a gente diz sem nem olhar na cara da outra pessoa. 


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sábado, 9 de setembro de 2017

BANALIDADES >> Sergio Geia

 

Deitado, meio dormindo, me lembro da afta debaixo da língua. Achei que ela não iria pra frente; foi. Levanto. Vou ao banheiro e pego um cotonete. Olho no espelho, ergo a língua, começo a cutucar. Cutuco, cutuco, cutuco. Levo o cotonete mais a fundo. Cutuco, cutuco, cutuco e encontro a danada. Viro o cotonete e, a ponta ainda seca, encharco com Omcilon. Vou deitar com a boca cheia de pomada, o estômago esquisito, um gosto de tempero pronto na boca. Na tevê, passa um documentário legal sobre o Jards Macalé. 
Uma vez ouvi alguém dizer que homem não consegue organizar nem o bolso da calça. Na frente da minha porta, vasculhando o meu bolso, a sacolinha do supermercado pesando nas mãos, tento encontrar a chave. São várias chaves no bolso, uns papeizinhos, um pen drive, um halls preto, um clipe de papel. Me irrito profundamente. Acho que pouca coisa me irrita mais que isso. Tiro um molho de chaves, cai um comprovante de débito no chão, o halls também cai, pego outro molho de chaves, mudo ele de mão, até que depois de tirar quase tudo, eu consigo pegar a chave da porta. Dou uma virada, tiro-a da porta, volto pro bolso, puxo a maçaneta pra baixo e entro. Ou tento. A porta não abre. Estava com duas voltas, o dedão do pé doendo. 
Levanto, vou ao banheiro, pego um cotonete. Cutuco, cutuco, cutuco. O tubo da pasta está de cabeça pra baixo. Sonolento, a primeira impressão é de estranhamento. Depois, a ficha cai. É a nova técnica para tubos quase vazios. Em pé, o creme fica embaixo, você aperta, ele não sai. De cabeça pra baixo você resolve o problema. Aperta, sai. A técnica é simples, mas funcional. Olho pro espelho. O cabelo desgrenhado me força a tomar banho. Quando eu cortava à máquina não precisava. Tá frio e desisto de caminhar. Mais uma vez. Sempre que isso acontece, me bate uma melancolia. Na janela, um alvorecer lindo.
Enjoado de hambúrguer industrializado, converso com o Julio, e decido criar o meu. Pego a carne moída já descongelada e a divido em três. Ponho uma porção nas mãos e começo a modelagem. Meio imberbe no processo, fabrico três bolotas disformes. Tempero por fora com um temperinho pronto e jogo na panela. Aumento o óleo, diminuo o fogo. Descubro que o sabor é bom, muito melhor que um Sadia, embora tenha carregado no tempero. No quarto, vejo os sapatos enfileirados debaixo da cama. Honestamente, não me incomodo. Deveria? A primeira faxineira que teve aqui guardava tudo no guarda-roupa. Falei pra parar. 
A amiga que me ajuda na limpeza do apartamento vem. Me lembro dos produtos de limpeza que ela me pediu e que esqueci de comprar. Vou a pé até o Extra que fica na avenida de casa. No caminho, me arrependo de ter ido de havaianas. Tenho o segundo dedo do pé encavalado sobre o dedão, isso nos dois pés, um pequeno defeito de fabricação. A tira do chinelo se infiltra entre o dedão e segundo dedo, e vai detonando os dois. Chego ao supermercado e ainda consigo manter a pose, tentando esquecer o ménage que acontece entre a tira, o dedão e o segundo dedo. A faxineira vem. Penso que tenho que separar as roupas pra lavar, algumas camisas pra passar, anotar instruções, deixar o dinheiro debaixo da tartaruga. Chego com o dedão doendo, e não encontro a chave da porta.  
O cabelo desgrenhado me força a tomar banho. Quando eu cortava à máquina não precisava. Lembro que a resistência do meu Lorenzetti queimou. Vi um vídeo no YouTube outro dia e fui à luta. Trocar a resistência de um chuveiro é um ato prosaico. Basta saber qual é o conector “a”, o conector “b” e o conector “c”. No chuveiro, tem marcado as bases “a”, a “b” e a “c”. E só encaixar e dar uma apertadinha usando um alicate. O problema é que não sou muito habilidoso com essas coisas; além do mais, tenho que fazer a troca lá em cima mesmo, com o chuveiro instalado; não quero retirá-lo, mexer com a parte elétrica. Meus dedos são grossos, os espaços que tenho pra trabalhar são estreitos. Tá frio e desisto de caminhar. Mais uma vez.
Entro debaixo do edredom. Desejo descansar os dedos, o dedão detonado por um ménage com a tira das sandálias e o segundo dedo. Ponho os óculos, pego o livro. Antes, olho as anotações à mão, que encabeçam umas páginas. Faço assim: quando encontro uma palavra bonita, escrevo na parte superior da página. Tem livros com muitas palavras bonitas. Açular, por exemplo. Açular significa provocar, estimular, excitar. Açular é uma palavra linda. A sensação é tenra, um céu todo feito de rosa dúbio e vagaroso, outra lindeza que encontro. Não a sensação, que é minha mesmo, mas o céu, que é do Raduan. E são muitas, mas nada que impeça esse mesmo céu de escurecer, o corpo lasso acusando a semana. Fecho a janela, não sem antes dar uma espiada nas plêiades, que descobri outro dia lendo um conto do Caio Fernando Abreu. Apago a luz. Ligo a tevê. Passa um documentário legal sobre o Jards Macalé. Deitado, meio dormindo, me lembro da afta debaixo da língua... 


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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A TEIA DE IRENE >> Zoraya Cesar

Vivíamos isolados, numa chácara modesta, nem três alqueires. Nossos únicos parentes eram dois primos de caráter duvidoso.

Durante o dia, eu cuidava da terra, ou ia à cidade tratar dos negócios e comprar novelos de lã; durante a tarde lia os clássicos – sempre no original, claro. Minha irmã Irene cuidava dos afazeres domésticos pelas manhãs e, após o almoço, tricotava. Só nos encontrávamos à noite, para jantar e contar como fora nosso dia. Nossos dias eram sempre iguais, mas contávamos assim mesmo. Antes de nos recolhermos, eu ficava a bebericar meu xerez preferido, o Tio Pepe, e a fumar meu cachimbo, absorto em ver Irene tricotar. As mãos de Irene tricotando eram pura arte em movimento.

Era um ás das agulhas. Podia fazer qualquer coisa com linhas e lãs e creio que nem mesmo Aracne, em sua melhor performance, seria páreo para ela. Doce e meiga Irene. Pequena, magra, pálida. Seus grandes e espantados olhos azuis faziam-na parecer uma frágil boneca de louça. Mantinha cortados rentes os cabelos negro-corvo, e digo, orgulhoso, que era tão inteligente e sagaz quanto a ave que lhe dava cor às madeixas. Todos se enganam com a aparência infantil de Irene. Os primos cometeram esse erro. 

Numa tarde especialmente modorrenta, recebemos um telegrama desanimador, anunciando sua visita. Ora, vejam! Típico deles fazer isso. Nem perguntaram se seria conveniente recebê-los. Desde crianças eram inoportunos, buliçosos e amigos do alheio, se me faço entender. Por que mudariam depois de adultos? Confesso que fiquei nervosíssimo. Não gostava deles nem da confusão que sua estada provocaria em nossa rotina. Irene manteve a calma – como sempre – e deu-me um cálice de Tio Pepe. Tudo daria certo, disse. Senti-me um tolo. Devia saber que Irene cuidaria de tudo.

Foi nessa época que a aranha apareceu. Apesar de vivermos no meio do mato, Irene nunca tolerou a entrada de qualquer inseto, cobra, aracnídeo em casa. Por isso estranhei quando ela não só aceitou a presença da aranha como permitiu que construísse uma teia na parede da sala. Para pegar moscas, explicou-me, sorrindo. Sorri também, sem entender nada. Mas, à noite, distraía-me em vê-las a tecer. Uma lindeza que só!

Ao cabo de alguns dias, percebi que o tricô de minha irmã estava cada vez mais parecido com a trama da aranha. Não poucas vezes Irene levava seu trabalho para a aranha examinar; de outras, sua nova amiga descia elegantemente em seu fino fio até Irene e posso jurar a vocês que elas conversavam.

Então, nossos primos chegaram. Eram irmãos e se odiavam com ferocidade. Só não se matavam porque uniam forças por um objetivo comum: herdar nossa chácara. Irene e eu antevíamos dias difíceis. Não nos enganamos. Comiam e bebiam à nossa custa, bisbilhotavam e desarrumavam tudo. Diziam claramente que a casa um dia seria deles, portanto, não fazíamos favor algum em recebê-los. A coisa tomou um rumo mais sério quando, uma noite, a aranha trouxe, para Irene, um fio de teia vindo do quarto onde os primos dormiam. E foi pelo fio que ouvimos o horror, o horror: estavam falidos. Perderam tudo na jogatina. Não tinham onde morar ou quem os acolhesse. Ficariam conosco até a nossa morte. E se demorássemos a morrer...

Desesperei-me. Irene e eu já não éramos crianças. A presença odiosa deles nos acuava em nossa própria casa. Tinham a maldade e a força ao seu lado. E nós? O que tínhamos?
Eu já não distinguia mais onde terminava a teia da aranha,
onde começava a de Irene.
Sei apenas que elas teciam, teciam, teciam
sem parar.
A aranha, disse-me Irene. E, dando-me uma dose dupla de Tio Pepe, afiançou-me que tudo ficaria bem. Pediu-me que, no dia seguinte comprasse novelos de linhas de seda. Muitos. Dezenas deles. Nunca a vira fiar com linhas de seda, mas nada perguntei; saberia quando chegasse a hora.

A partir daquele dia, Irene e a aranha passaram a tecer ininterruptamente, teias finas e fortes, que se misturavam, formando uma única trama. Irene nem comia, o que me preocupava profundamente, mas ela apenas sorria e tecia, tecia, tecia. Eu não via a aranha pegar mosca alguma, e isso também me preocupava, não fosse ela morrer e causar sofrimento em Irene. Incansáveis, elas apenas teciam, teciam, teciam. Eu não conseguia dormir. Passava as noites insone, observando-as trabalhar. Não entendia nada, mas vê-las juntas era a única coisa que me trazia alguma paz.

Uma noite – tempestuosa e fria, lembro-me bem – elas, repentinamente, param. Teias enormes se espalhavam pelo aposento, indistinguíveis as feitas por Irene das tecidas pela aranha. Silenciosa e delicada como uma sombra, Irene se encaminha até o quarto onde os primos dormiam, roncavam e babavam após a bebedeira, e recobre-os com uma teia, estendendo-a por todos os cantos e com ela vedando a porta. Findo o trabalho, ela, finalmente, dorme. Dormi também.

Acordei com sons abafados e desesperados vindos do quarto dos primos. Tentei entrar, mas a teia transformara-o numa cela impenetrável. Irene interrompeu-me.

- A aranha tem fome – disse, simplesmente – foram muitos dias de jejum.

Nunca abrimos aquele quarto; a aranha sumira. Encomendei outra garrafa de xerez, fumo para meu cachimbo, e voltamos à nossa rotina. Irene, no entanto, continuou a tricotar com fios de seda.

Tempos depois, um policial bateu à nossa porta, perguntando pelos primos. Dissemos a verdade (Irene e eu jamais mentíamos): que não os víamos nem deles tínhamos notícias havia muitas semanas. O rapaz foi embora, mas Irene e eu sabíamos que ele retornaria com mais perguntas e, quiçá, com um mandado para revistar a casa.

Nessa noite, a aranha regressou ao nosso convívio, e as duas voltaram a tecer freneticamente. Teciam uma enorme teia que recobriu a casa toda. Estávamos, agora, em uma fortaleza inexpugnável. Ninguém entrava. Ninguém saía. Nem mesmo nós.

Irene deu-me uma espécie de pijama de teia de seda que me envolvia inteiramente, da cabeça aos pés, e vestiu um igual. Notei que a aranha se enrolava em seus próprios fios. Parecíamos três larvas de borboleta no casulo final. Múmias a se eternizarem pelos anos vindouros.

Senti-me confortável. Um leve torpor me tomava aos poucos. Ouvi, como se de uma longa distância, Irene dizer que nunca mais seríamos perturbados, poderíamos viver em paz novamente. Antes de cair num profundo sono reconfortador, ainda pensei em como era afortunado por ter uma irmã como Irene.






Foto: TRAPHITHO in Pixabay

Mitologia grega - o mito de Aracne - resumo resumidíssimo de uma das versões: Aracne era uma mortal, tecelã cujos trabalhos eram reconhecidos como perfeitos. E que cometeu a imprudência de desafiar a Deusa Atena para uma competição. Ao ver que o trabalho de Aracne ficara excepcional, Atena, tomada pela fúria, destruiu-o. Deprimida, Aracne tentou se enforcar. Compadecida, Atena resolveu transformá-la em aranha, para que nunca deixasse de tecer. 


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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

OS REIS DO DRAMA>>Analu Faria

Olho pro garotinho com uma casca de ferida enorme no joelho e digo: ai, isso deve doer. "Dói nada, quer ver?" E arranca um pedacinho da casca, expõe uma pele quase em carne viva, a ferida sangra. A mãe do garoto me olha com cara de poucos amigos e dá bronca no filho. Maroto, o menino esconde da mãe um sorrisinho transgressor, que reserva para mim. Penso que o garoto pode ter tendências psicopatas, talvez fosse bom uma avaliação psiquiátrica, psicológica... melhor não ficar perto, vai que ele tem um canivete, um estilete ou algo assim escondido, meu Deus, eu posso ser morta por um menininho!

Minha mãe costumava dizer para os filhos: "Não corram na sala, que eu tô vendo a hora de vocês racharem a cabeça na quina da mesa", colocando uma ênfase especial em "racharem a cabeça". Talvez um "... que vocês vão se machucar." fosse suficiente. Lembro-me de que, já mais velhos, a frase virou motivo de piada para mim e meu irmão: "Cuidado que você vai RACHAAAAAAAR A CABEÇAAAAA na quina da mesa."

Meu pai nunca deve ter chegado atrasado a qualquer compromisso que tenha marcado. Isso porque toda vez que íamos viajar, ele chegava umas duas horas antes no aeroporto ou na rodoviária. Se a viagem era de carro e saíamos de madrugadinha, ele já começava a acordar com as galinhas, uma semana antes, "para acostumar". Já melhorou: hoje ele chega uma hora e meia antes da partida do vôo, mesmo já tendo feito check-in e sem mala para despachar.

Percebe-se que o drama corre na família. O único que não endrameava as coisas era meu irmão, mas o garoto também era alto (o resto da família é de baixinhos) e todo paz e amor (o resto da família é meio briguento), ou seja, um ponto fora da curva. Se não se parecesse com meus pais, eu diria que foi trocado na maternidade. Tive a felicidade de conviver com ele durante 25 curtos anos e sinto sua falta só quando eu respiro. Ele faleceu deixando um rastro de tranquilidade suficiente para que, ao pensar em seu sorriso, eu aceite com mais compaixão a natureza hiperbólica dos meus pais e a minha própria. Louvo o exagero desta minha família de reis do drama quando penso que é essa explosão de coisas do espírito que me faz pensar no meu irmão como o melhor irmão de todos os tempos, desde os primórdios da existência até depois do infinito. É também o que me faz gargalhar, mesmo estando em público, ao lembrar das piadas que fazíamos sobre nossos pais.










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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O ANDAMENTO DO TEMPO >> Carla Dias >>


Há o que já não fazemos, porque esgotamos a capacidade de nos dedicar ao feito. Há também o que abandonamos, nem sempre por vontade própria, quase sempre por conta dos acontecimentos que não temos como comandar.

Olhamos para a juventude com certa distância. Ainda a achamos atraente, a desejamos – metafisicamente – com certa elegância. Porém, concordamos que seria um fardo viver a eternidade, não é mesmo? As urgências, aquelas urgências que perdem o valor com o tempo. Tivemos de vivê-las para reconhecermos que a utilidade delas não é nos levar às conclusões, mas ao questionamento.

Levamos uma vida para entendermos que as perguntas, ainda que desprovidas de respostas, contam histórias. Mais do que isso, acontece de elas mudarem essas histórias.

Olhamos para a juventude com certa intimidade, quando se trata dos nossos afetos. Chegamos mesmo a nos emocionar com a forma como eles descobrem a vida. Como não observar o tempo acontecendo a eles e torcer para que o processo seja menos complexo quanto foi para nós? Porque pode acontecer de a complexidade não apenas desnortear, mas também doer, enfraquecer, desesperar. E se há algo que a vida nos ensinou é que sempre desejaremos mais leveza à vida dos que amamos.

Até chegarmos aqui, muito foi incluído nesse currículo existencial: nascimentos, abandonos, descobertas, perdas, conquistas e muitas canções, que nossa vida jamais seguiria inspirada se não fosse a música.

A partir de um momento, variando de acordo com o freguês, observar-se é mais complexo, e não apenas no espelho. Aceitar a efemeridade de quem somos não é das coisas mais fáceis, tampouco deleitáveis. Mas não vivemos apenas dos prazeres, certo? Nossas dores e tristezas nos acompanham e nos moldam e nos abraçam e nos sustentam e nos inspiram. As alegrias, idem, mas não com tamanho poder de nos fazer escutá-las. Felizes, acabamos distraídos das pequenas tragédias. Essas fugazes distrações não são somente bem-vindas, mas necessárias.

Precisamos de pausas.

Não vamos cair naqueles clichês que resumem o que não pode ser resumido. Envelhecer é aprendizado árduo, porque o processo chega com a necessidade do desapego, e não é por objetos que adoramos, dos quais não queremos nos desfazer. É por aquela pessoa que imaginávamos ser, sendo que, hoje, percebemos que aquelas eram identidades forjadas na espera pela conquista mais importante. Aquela conquista que nunca veio, como aquele evento especial no qual usaríamos roupas especiais que nunca saíram do guarda-roupa.

Envelhecemos, então. Sei que muitos dirão que ainda é cedo para falar a respeito, outros darão a sugestão de mantermos a máscara da juventude por mais algum tempo, até que seja impossível usá-la.

Não enxergamos outro caminho. Despir-se dessa máscara é o que temos feito, porque as outras opções em nada nos agrada. Talvez haja alguma beleza em se entender com essa versão de nós, que não se fia mais pela possibilidade de deslumbramentos vazios, pela forçada adequação, pela necessidade de se identificar com todos, exceto consigo mesmo. As outras identificações precisam da honestidade do querer.

A honestidade do querer é parecida com o tempo. Ela nos ajuda a compreender o que importa, o que de fato faz parte de quem somos.

As histórias de quem fomos convergem nesse ponto. Então, envelhecemos. Ainda somos os mesmos de antes, mas o antes já não nos toca mais como antigamente.

Imagem: Femme au miroir © Pablo Picasso


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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ANJOS E PARAÍSOS >> Albir José Inácio da Silva

Toda vez que Stepan Nercessian aparece na televisão, acabo transportado ao personagem  Marcelo Zona Sul naquele cinzento ano de 1970.

Um tempo em que não cabiam aquelas suaves transgressões adolescentes, mas, como meu coração ainda não enxergava as cinzas, eu só via o paraíso em que se espalhavam e, às vezes, se entediavam aqueles jovens.

Enquanto diplomatas estrangeiros eram sequestrados, o Brasil virava tricampeão e eu sonhava com o mundo de Marcelo. Não era apenas inveja que eu sentia, era uma espécie de reverência.

Copacabana, Lagoa e Alto da Boa Vista eram muito mais do que minha imaginação dizia sobre o pobre Éden com suas árvores, cobras e maçãs. Era lá, na zona sul, que a vida devia acontecer de fato para os que merecessem.

Eu achava que não merecia porque fazia coisas abomináveis, até que vi, ou imaginei, que Marcelo fazia tudo aquilo com a naturalidade de um anjo. Isso servia como anistia geral, mas não se aplicava a tudo. Algumas transgressões só podiam ser cometidas por ele. Pra mim seriam heresias.

Eu também não encontrava respostas para algumas perguntas. Havendo um ator lourinho feito querubim, por que ele não fazia o papel de Marcelo? Louro não fica melhor como protagonista?

Outra questão que me confundia a cabeça era a indignação de Marcelo ante a ameaça do pai de obrigá-lo a trabalhar num escritório. Filho de operário, trabalhar num escritório era o meu sonho mais acalentado. Como podia isso ser castigo? Parece até condenação de juiz corrupto no Brasil - ganhar salário sem trabalhar pelo resto da vida, numa espécie de enriquecimento sem causa autorizado por lei.

A música que termina o filme, “Canção da Volta” de Denoy de Oliveira, parece que ainda nos define a vida tanto quanto naquela época:
“E assim termina a nossa história. Que será de Marcelo? E o que será da gente triste que trabalha sem amor? Aonde irá teu sonho, louco por voar?”

Quase cinquenta anos depois, não acho mais que louros são melhores que morenos e fico entediado com trabalho sem amor.


E sou tentado a dizer, parafraseando Drummond, que “eu não sabia que minha história” em Madureira era tão bonita quanto a de Marcelo Zona Sul.


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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

HOMO SAPIENS IGNORANS >> Paulo Meireles Barguil


Sem os sentidos, como sentimos?

Sem sentirmos, como vivemos?

Sem vivermos, o que somos?

Dentro de diferentes caixas – de osso, madeira, papelão, cimento, plástico, ferro, verdade, metal, transistor... – estamos.

Fora dessas caixas, somos.

Ignorar os limites implica sermos deles reféns.

Identificá-los nos enseja tatear grades invisíveis e, assim, atravessar incontáveis portais.

Sapiens é quem se reconhece ignorans.

Ignorans é quem se crê sapiens.

Palavras e silêncios são matérias-primas que modelam fortalezas e pontes.

Usá-las é uma arte, cujo aprendizado está relacionado à qualidade da nossa vida.


[A Cabeça Quadrada, Nice – França]

[Foto de minha autoria. 02 de março de 2013]

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