quinta-feira, 21 de setembro de 2017

HOMENS OPACOS>> Analu Faria


Homens que não falam, aparentemente não sentem, homens que não discutem, homens de salão. Homens cordiais demais (cercados de mulheres assustadas demais ou acomodadas demais) para afrontar as atrocidades de outros homens que, nesses mesmos salões, dizem violências em tom de piada, com naturalidade. Homens que se dessensibilizam em dinheiro, status, álcool, religião. Homens que, em meninos, fecharam-se e jogaram as chaves de si mesmos fora.

Fantasmas. Vagando pelo limbo casa-trabalho-happy-hour-fim-de-semana, em busca de uma masculinidade perdida, isenta de memória, isenta de criatividade, isenta de qualquer traço florido. Bolsonaros-wanna-be e suas versões mais light, deixando-se levar apenas pela sensibilidade das crianças. Só delas.

Crianças crescidas. Com grossas capas amarelas que os protegem contra uma chuva que não vem. A vontade de gritar quando criança, a diferença enxergada desde cedo – repelida - , a violência que não se desvê e outros porcos selvagens grunhindo no porão estão todos dentro de casa, mas a proteção é usada para o exterior, mesmo em dias ensolarados: longas capas de chuva grudadas à pele embranquecida e desnutrida.

Animais doentes, que atacam insetos como quem caça javalis e deixam-se pisotear por leões mansos de jubas grandes. Perderam o contato com o espírito selvagem e sábio que os alimentava. Homens com medo de serem monstros, homens que temem deixar de sê-lo.


Uma reflexão sobre alguns homens que conheço e sobre a dor de linhagens e linhagens de mulheres aparentemente condenadas a viver com homens fechados, sempre encapuzados, desnutridos, sensíveis apenas a crianças e olhe lá. Uma reflexão de fim de semana, motivada pelo belíssimo “Sete minutos depois da meia noite”, filme em que um garotinho tem que admitir para si mesmo que queria que a mãe morresse logo, porque assim, pelo menos, ele não sofreria mais com a dor de não saber se iria ou não perde-la para o câncer. No filme, o garoto é procurado por um monstro que o força a admitir essa verdade dolorosa. Pareceu-me que depois de dizê-la em voz alta o garoto se transformou, toda a fotografia do filme mudou de cor, deixando o menino finalmente visível em tons brilhantes, acabando com a opacidade que o caracterizava.


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2 comentários:

sergio geia disse...

Estava me perguntando onde a Analu foi buscar essa inspiração... Profundo, Analu, pra ler mais de uma vez. Bela reflexão! Vou procurar esse filme. Por falar em filme, outro dia me peguei tomando um uísque na sala de casa, plena segundona de manhã (estava de férias tá) assistindo "A última vez que vi Paris", com Elizabeth Taylor, um filme de 54. Fim de carreira? Nada! Tava uma delícia, e que filme maravilhoso. Indico sem pestanejar! Nada a ver com a crônica, né? Desculpa rsrs. Mas voltando nela, adorei. Aliás, vou ler de novo. Bjs, Analu!

Anônimo disse...

Como sempre um belo texto. Com um pouco do filme e muito do seu caos.