quarta-feira, 20 de setembro de 2017

QUEM É? >> Carla Dias >>


Mantém tudo em ordem, que não vai deixar problema a ser herdado. Tem horror à ideia de entregar seus fantasmas aos que esperam recebê-los, apenas para se dizerem gentis ao acudirem ser tão complexo. Não se importa se herdarão seu dinheiro, seus imóveis, sua coleção de quadros, seus discos do Frank Sinatra. O que não deixa de herança é a sua história.

Os mais próximos, como gostam de se colocar, são apenas transeuntes na estrada da história dele. Sim, por mais respeitoso que ele seja com seu semelhante, generoso, até, há esse limite estabelecido em nome da intimidade consigo mesmo. Ninguém ultrapassa a linha que o defende da intimidade com o outro. Tem uma preguiça... sim, meus caros, é preguiça mesmo. Tem uma preguiça imensa de se mostrar ao outro. Imaginem o tempo gasto a contar lorotas, antes de entregar verdades? Não tem paciência para isso, nunca desejou conquistá-la. É absolutamente contra qualquer redenção que exija prefácio.

A casa grande, de cômodos a ecoarem o silêncio. Ali vive a versão oficial dele, entre móveis que moram lá desde sempre, a poeira muito bem-comportada debaixo de tapetes que já foram apreciados por olhares deslumbrados, quando estavam no ápice de sua juventude. Ninguém dá muita atenção aos tapetes que resistem, quando suas cores desbotam sob os pés do tempo. As janelas protegidas do lá fora por leves cortinas, porém ótimas bloqueadoras de olhares curiosos vindos lá rua.

O perfume do café se espalha pela casa. Às vezes, gosta de quebrar o silêncio com uma e outra canção do Frank. Não que ele seja cool, habituado à finesse do cantor. É acomodamento necessário, entende? A alma se entrega à melodia, ainda que lhe dê certa agonia abrandar espírito desejoso por sons mais escandalosos.

Há dias em que o desejo é pelas gritantes guitarras.

Toma seu café a apreciar janela cortinada. Vento entrando pela humilde abertura e levantando suas saias drapeadas. Frank canta as palavras como se elas fossem realidade inquestionável, ainda que, para ele, elas soem mesmo feito invencionice sem fim: You learn from every lonely day/I've learned and I've come back to say/let me try again. Ele sorri, como quem diz ao Frank que há quem aprenda mais do que reconhecer necessidade de companhia, em dias de solidão. Aprende-se o desapego ao desejo do outro em nos transformar em seus sonhos realizados. Aprende-se a aceitar a própria companhia sem o peso de quem não escuta outra voz ecoando pela casa.

Aprende-se que, antes só do que desacompanhado na presença de alguém.

Ele tem consciência do que falam sobre ele por aí. Os que orbitam sua existência, divertem-se e irritam-se com a ironia que ele destila. Acostumados a ela, eles não percebem os entretons, e assim ele se defende do desejo alheio de se alcançar os arrabaldes do ser que ele é. Sabem dele o que ele permite. Recebem dele o que ele permite. E ele, tolamente, acredita que está no comando de si, porque tudo o que quer é que herdem seus fantasmas, e os dispam, e os cutuquem com curiosidade programada, de acordo com o que já foi decidido por pura possibilidade de se emitir uma opinião. Que inventem para ele problemas dramáticos, sentimentos profundos, limitações comoventes. A barbárie do clichê.

Porém, uma dessas revistas de traçar perfil o definiria em um teste. Uma das canções de Frank o faria sem grandes complicações. O que ele faz é distrair as pessoas para que elas não percebam o raso do que ele representa. Porque ele acredita, equivocadamente, que não há forma mais eficiente de se sair ileso dessa vida do que abster-se de seus rompantes. Permanecer à deriva dela.

Raso, apesar do desejo de mergulhar.

Frank para de cantar. Acabou o café. O vento partiu e a saia da cortina despencou sua beleza. Sentado em sua confortável poltrona, ele arrasta pés descalços em seu tapete de muito antes de hoje. A poeira sobe, estreando a mirrada luz do sol como seu holofote. O silêncio de lá fora se acopla ao silêncio daqui de dentro. As paredes parecem gritar a mudez definitiva. Por um segundo, ele se desespera, mas passa. Nada de deixar seus fantasmas de herança. Eles são o seu segredo.

O telefone toca e ele atende. Uma voz que ele não reconhece pergunta quem é? E ele é tomado por um desespero incomum, de quem perdeu o rumo diante de um questionamento nunca feito. Não sabe o que responder.

Silencia.




Imagem: The musings of the solitary walker © Rene Magritt



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Um comentário:

cronica tijucana disse...

Wonderful!!! Just the max! It gives pleasure to read such a text.

Abraços,
Enio