terça-feira, 12 de setembro de 2017

ORGANICAMENTE GRATA >> Clara Braga

Há alguns anos abandonei o curso de letras faltando apenas um ano para me formar. Muitos acharam que fiz uma loucura e confesso até que cheguei a ir a uma dessas mulheres que fazem leitura de borra de café e perguntei o que ela achava da minha decisão, ela me orientou a voltar atrás da minha decisão ou eu iria me arrepender. 

Resultado: não voltei atrás e não me arrependi. E continuo achando que não preciso ser formada em letras para gostar de ler, não preciso ser formada em letras para gostar de escrever e não preciso ser formada em letras para ser uma curiosa da língua, ou seja, estava no curso pelos motivos errados. Acabei me arrependendo de gastar uma grana tomando um café ruim e ouvir a mulher falar um monte de coisas que nunca aconteceram, mas de largar o curso não.

Enfim, mas foi exatamente o fato de continuar sendo muito curiosa que digo que venho percebendo uma mudança na nossa escolha de palavras, uma mudança na nossa forma de falar. Agora você deve estar pensando que eu não deveria ter largado o curso, pois assim saberia que a língua está em constante mudança, mas não é essa a questão. 

A primeira questão é que eu nunca tinha me observado no meio dessa mudança, só percebia que ela havia acontecido depois de um tempo, quando todo mundo já estava comentando sobre termos e frases que já não eram mais utilizados e haviam sido trocados. A segunda é que as palavras que estamos trocando são um tanto curiosas.

Por exemplo, o obrigado/obrigada foi trocado pela gratidão. Ser trocado por uma palavra tão leve faz mesmo o obrigada parecer uma palavra sem jeito, até quase mal educada. Talvez a forma como falamos, já quase sem perceber, tenha esvaziado a palavra de significado e, embora possam ter abrangências diferentes, fez-se necessária a substituição de uma pela outra.

Outra palavra que foi comprar um cigarro e nunca mais voltou foi a compaixão. Nunca se falou tanto nela para dizer que ela está em falta ou não existe mais. E de tanta falta que ela faz, agora é necessário que sinônimos sejam usados, mas não sinônimos perfeitos e sim palavras com significado próximo que servem para situações específicas, como é o caso da sororidade.

A diversidade se tornou extremamente diversa, se antes parecia abranger poucos grupos hoje já precisa vir acompanhada de alguma outra palavra para que se possa entender de qual diversidade estamos falando, o que é ótimo.

E o orgânico? Já entendi que comer comidas orgânicas é mais saudável, embora por algum motivo seja muito mais caro, mas estou tendo muita dificuldade em lidar com o fato das coisas e das pessoas também serem mais orgânicas, até onde eu pude entender isso parece ser algo bom, mas ainda é o tipo de palavra que eu não sei aplicar em uma frase.

É isso, as palavras estão se modificando e se adaptando a um novo mundo, o problema é que esse mundo parece doente e a necessidade da mudança de palavras é só um reflexo da necessidade urgente de mudança de atitudes. De nada adianta a gratidão se ela for tão vazia quanto o obrigada que a gente diz sem nem olhar na cara da outra pessoa. 


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Um comentário:

Rafael Vespasiano disse...

Ótima crônica, Clara Braga.


Atualíssimo (s) o(s) tema (s) levantado (s);

e direto ao ponto a forma pela qual você se propõe a debater os mesmos.


Parabéns.

Rafael Vespasiano