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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

AOS MEUS NETOS >> Sergio Geia

Para João Cláudio e Maria Alice
Era um pedaço de papel com uma mensagem de afeto escrita à mão: “Aos meus netos: Que eu envelheça. Que na minha pele possam surgir rugas. Mas que meu coração jamais fique indiferente ao amor. Que eu jamais perca o poder de demonstrar um gesto de ternura”. E a mensagem de um avô que se dirige aos seus netos termina aí. O texto é datado de 20 de março de 2013, quatro meses antes de seu falecimento. Sua filha o encontrou e o postou. E hoje, somente hoje, mais de três anos depois, eu o encontrei. Sua filha, a propósito, é prima do Geia; pois ele, o avô, o autor de tão singelo gesto, é tio. E o pensamento que ele escreveu quatro meses antes de morrer é de uma autora chamada Rachel Free. Pois consigo imaginar a cena: quarta-feira, 20 de março de 2013, uma bela manhã de sol, passarinhos voando, cigarras chiando, Claudio em seu apartamento na frente do computador, lendo coisas, pesquisando um assunto, lendo as notícias do jornal, vendo a sua caixa de mensagens, q…

UMA AVENTURA DE NATAL DO VELHO PADRE >> Zoraya Cesar

Pleno verão de 40°C. As ruas estavam tão movimentadas e repletas que era impossível andar sem empurrar, pisar ou acotovelar alguém. O nível de irritação parecia prestes a explodir numa grande comoção dramática e violenta. Era entrar e sair de lojas, comparar preços, comprar os últimos itens para a ceia, presentes, roupas, tudo, qualquer coisa. Todos cumprindo seus afazeres com olhos vidrados, boca apertada, punhos fechados.
Na contramão de toda essa correria e nervosismo, um homem caminhava calmamente, olhando as gentes sem julgá-las, compadecendo-se apenas, sabendo que todas tinham uma necessidade a ser suprida, uma dificuldade a ser superada, uma dor a ser consolada. Ele, porém, continuava seu caminho, naquela azáfama toda, sem que nada o importunasse; parecia que dele emanava algo como um campo energético, que o protegia da confusão reinante.

E,talvez, por, inconscientemente, perceberem isso, algumas pessoas o paravam, de vez em quando, a pedir uma bênção, um conselho,  uma conversa,…

SOMBRA>>Analu Faria

Acho que a melhor coisa que podemos fazer por nós mesmos é admitirmos que temos os defeitos mais deploráveis do mundo. Nós mesmos é que somos egoístas, mesquinhos, cruéis. Não é o mundo, não é a vida. É você mesmo, colega. Sou eu também. É aquele parente querido e o vizinho gente boa.  Não existe "eles" e "nós". Isso é uma divisão humana, criada para que o mundo pudesse caber em caixinhas classificáveis e, assim, nós pudéssemos ter a ilusão de que pode controlá-lo. Uma vez me disseram que isso tinha a ver com o que nossos ancestrais tinham que fazer com o mundo natural que os cercava: era preciso dividir para conquistar. E conquistar, no tempo das cavernas, era basicamente ter passado pelo dia com a incolumidade física em 100%. Então, para meramente sobreviver, era preciso dividir o mundo, saber o que era cada coisa, para, então, poder tomar alguma atitude
Se aprendemos a separar o " bom" do "ruim" e conectá-lo, respectiva e necessariamente ao …

O NÓ >> Carla Dias >>

Deram-nos um nó. Não daqueles que desatamos facilmente. Também não foi um nó dado por um motivo exclusivo, o que facilitaria o desatamento. Trata-se de um nó baseado em uma série de acontecimentos ligados não somente a mim ou a você, mas à maioria de nós. Caso você não tenha detectado esse nó, provavelmente é por ter encontrado uma forma de seguir seu caminho, distraidamente, como um personagem de uma história de autoria desconhecida.

Não tem sido um ano fácil para a maioria. Indivíduos, lutamos para lidar com as escolhas de alguns que só fazem subtrair o básico para sobrevivermos. Humanos, assistimos à crueldade tão de perto, que nossos espíritos se alardeiam fácil, mantendo-nos em ponto de questionamento: para quê?

Por quê?

Por quem?

Questionar é o princípio da revelação. Mas de que nos adianta questionamento quando não estamos preparados para as revelações? Para o reconhecimento da nossa responsabilidade diante da vida, do outro, de nós mesmos?

O nó foi dado de um jeito, que não ap…

LÁ VEM ELE DE NOVO >> Clara Braga

Amor não se define, mas quando a gente sente aquele amor bom, quer que o mundo sinta igual!
Aquele casal que briga e ela se recusa a atender as ligações dele, por mais que se entendam depois, não parece amor para alguns.
Tem também aquele casal que as vezes não consegue nem dormir na mesma cama, cada um precisa do seu canto ou parecem enlouquecer! E então alguns se perguntariam, e isso lá é amor?
O outro casal quebra um pau que poucos acreditam, falam coisas um para o outro que você jamais falaria  ou jamais perdoaria seu parceiro caso ele falasse, mas em questão de minutos já estão conversando como se nada tivesse acontecido! E você pensa: ah, comigo isso seria muito diferente, eu não deixaria nunca meu relacionamento chegar nesse nível.
O outro casal gosta de sair com outros casais, o outro curti rir junto das fotos engraçadas do tinder, o outro se vê todo dia enquanto aquele outro prefere fim de semana, ele fica em casa enquanto ela curte a balada, o outro só sai se for junto, e v…

AI, MEU CORAÇÃO! .. Albir José Inácio da Silva

Atravessou a quadra silenciosa naquele horário e subiu a escada que dava acesso à secretaria do clube. Havia algo estranho. Primeiro o portão encostado, que ele se lembrava de ter fechado ontem, depois a porta destrancada e agora a luz acesa. Arakém proferiu a clássica pergunta que antecede os assassinatos.
- Quem está aí?
A reunião da diretoria só começaria às oito, mas ele chegou antes das sete da manhã. Queria examinar documentos, além dos que tinha lido durante a madrugada, queria mais provas porque sabia que além de fraudes, superfaturamentos e desvios, havia outros crimes praticados pela quadrilha, que há anos se instalou na administração do Grêmio Recreativo Tarietense. Depois da reunião, iria direto à delegacia.
O escritório estava desarrumado porque ele mesmo o deixou assim ontem à noite, quando recolheu às pressas alguns papéis e foi pra casa. Agora sentia algo de errado no ambiente. Um arrepio subiu-lhe pela espinha. Entrou na sala de reuniões que estava escura, mas não co…

ENTRE NATAIS E natales >> Paulo Meireles Barguil

Natal, conforme o Houaiss, pode ser um adjetivo – relativo a nascimento, natalício; onde ocorreu o nascimento (de alguém ou de algo) – ou um substantivo – dia do nascimento, natalício; festa do nascimento de Jesus, celebrada no dia 25 de dezembro desde o século IV pela Igreja ocidental e V pela Igreja oriental; cântico natalino de origem medieval. Ainda conforme a compilação lexical supra, nascimento significa o começo ou princípio de algo; nascença. Celebrar, comemorar, louvar, agradecer a vida, presente do Universo ao Homem.  Um sopro... Uma chama... Um grão... Uma gota... Quão pequeno é cada um de nós! Quão grande é quem nos lembra de onde viemos e para onde voltaremos, possibilitando-nos desfrutar aqui o júbilo inerente à morada celeste. Jesus, o Cristo, há 2 milênios, nos convida e ensina a viver o Amor, não com discursos, mas com atitudes e sentimentos. A cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada segundo... Sabedor da nossa fragilidade, indicou-nos a necessidade do perdão para q…

ONDE BROTA A CONFIANÇA >> Mariana Scherma

_ Mas e se ele me achar uma loser?
_ Por quê?
_ Porque eu sou...
_ Ah, não é. Você é linda, engraçada, com emprego bom... Tá longe de ser loser
_ Ah, obrigada. Mas você é minha amiga, né?
Essa conversa é real e acontece sempre entre mim e minha amiga. Minha amiga é uma pessoa incrível, cheia de potencial, mas que não passou na fila do amor-próprio. Na verdade, ela passou longe dessa fila e tem o péssimo hábito de se colocar pra baixo. Confesso que fui achar meu pote de autoestima (que nem é dos maiores) na vida adulta apenas, mas isso fez toda a diferença.
Na adolescência, eu queria muito ser aquelas meninas lindas e cheias de admiradores. Era tímida, lotada de espinha, zerada nas curvas, de óculos, com cabelo arrepiado e aparelho nos dentes. Adorava passar despercebida, me rebaixava sempre e me enfiava nos livros, adorava ficar em casa e coisa e tal. Ainda bem que naquela época não havia Snapchat, Instagram e cia. porque eu lidava mal com a minha imagem. Bem mal.
Não sei quando o barco …

APESAR DA IRONIA >> Carla Dias >>

Notícias sobre política, violência urbana, malabarismos marqueteiros e várias versões a respeito das mulheres de Aleppo. Das meninas de Aleppo. Das pessoas de Aleppo.

Há cinco minutos, o destaque era a fragilidade da pele diante das tatuagens. Não tatuem em locais inclinados à flacidez, se não quiserem que a tatuagem se torne outra coisa com o tempo.

O tempo.

Às vezes, o tempo transforma para melhor.

Aniversário de querido alguém que já não está aqui, celebra-se a vida diante da ausência irrevogável. A sensação de impotência - que nos faz engolir o fato de que nem sempre podemos mudar isso e aquilo - toma o dia. Ainda assim - apesar do peso da morte -, ainda é a vida que desvela belezas e preciosidades. As lembranças - esse livro de recortes da vida que mora dentro da gente - são fortes e trazem momentos de alegria.

É permitido sorrir e sentir alegria por tudo o que foi vivido com a pessoa que partiu.

Os barulhos de carros, de gritos vindos do bar, entoados por bêbados matutinos, con…

DESMISTIFICANDO PAPAI NOEL >> Clara Braga

Quando saímos da faculdade e entramos no mercado de trabalho parece que somos obrigados a deixar de lado algumas de nossas ideologias para nos enquadrarmos à realidade.
Enquanto estava estudando, prometi para mim mesma que não permitiria que minhas aulas de arte fossem resumidas a criar cartões de dia das mães, coelhos dos olhos vermelhos na páscoa e produção de bandeirinhas na festa junina! Embora tenha conseguido fugir de muitas dessas datas, percebi que nem sempre trabalhar datas comemorativas é preguiça do professor, mas pode ser sim um desejo dos alunos. E foi assim que eu acabei passando para meus alunos uma atividade sobre o natal, mas nunca imaginei o problema que isso poderia me trazer!
Depois de ver sua coleguinha desenhando o Papai Noel, o garoto não se aguentou, foi até a mesa dela e disse sem titubear: não desenha o Papai Noel, ele não existe! Quando ouvi aquela frase eu já me tremi, sabia que sobraria pra mim! Então a menina respondeu toda confiante: existe sim, ele lev…

QUINZE ANOS >> Sergio Geia

Eu preparava a pequena lista havia dias: cerveja, coca-cola, pratinhos para bolo, velas, copo de cachaça (pois tenho aqui em casa apenas dois e precisava atender bem os meus convidados, apreciadores de uma boa cachacinha); presunto, queijos, patês e salsicha para o cachorro quente. Mais à noite, pegaria o bolo, de chocolate com morangos, encomendado na véspera. Uma festa simples. Na verdade, uma singela comemoração para não passar em branco. Já são quinze anos, e, se estou aqui, mais entusiasmado com a vida do que antes, se estou aqui assistindo a vida correr, a evolução, os progressos, a vibração ― e a vida não para, a vida voa, e tudo vai ficando pelo caminho ―, é preciso comemorar.
Há quinze anos acordei com dor de cabeça; era um sábado alegre, promissor, quente, primaveril. E com a cefaleia, insistente, a sensação de aperto no peito, de dor na nuca, de esgotamento profundo. Na farmácia, fui aconselhado a procurar um pronto-atendimento. Nessas alturas, a pressão atingia os píncaros…

JANTAR SANGRENTO >> Zoraya Cesar

Anyta estava ansiosa. Aquele jantar significava muito, muitíssimo, para ela.  Seria a primeira vez que receberia os amigos de Osmar como anfitriã, noiva, futura esposa, não mais a amante escondida, relegada a um quarto e sala com vista para um muro quebrado e cinza. Nascera pobre mas, por sorte, bonita. Bonita e inteligente. Bonita, inteligente e astuciosa, capaz de qualquer coisa para casar com um homem rico.  
Seus ardis tiveram sucesso, pois Osmar largou a mulher e dois filhos para casar com ela, a linda, sexy e 20 anos mais nova Anyta. 
Onze convidados, mais o casal, seriam 13 à mesa. Que estava posta como nas fotos das melhores revistas de decoração - flores brancas, talheres de prata, guardanapos de pano, copos de cristal, louça inglesa. Mais chique, impossível, deliciava-se Anyta. Iria impressionar a todos com sua elegância e maneira de receber. E ia entuchar aquele bando de parasitas com comida de rico. Para evitar contratempos, contratara o bufê e a cerimonialista mais caros da…

35 + >> Analu Faria

Depois dos 35 você ganha o irritante direito de dizer que "na sua época" _______ (insira aqui qualquer coisa) era melhor. Como eu tenho 36, vou começar exercendo esse direito e dizendo que o rock dos anos 90 era melhor que o de hoje. Me julguem, eu tô velha mesmo e gente velha não liga muito para isso.

Na verdade, não foi o rock que mudou. Fui eu. Fiquei "vintage" demais para ouvir o que eu - do alto da minha pretensão - acho um rock leite-com-pera. Para quem foi adolescente ao som de Nirvana, não tem Imagine Dragons que chegue. Tudo bem que curto coisas como Arctic Monkeys, mas o resto de rock de que eu gosto ou é Foo Fighters ou Rolling Stones ou já morreu.

Redescobri - ou melhor - voltei a ouvir essas músicas, talvez porque estamos perto do Natal e eu estou nostálgica, talvez porque estivesse cansada de ouvir mantras - coisa de balzaca estressada -  e me sentindo plebeia demais para ouvir jazz - coisa de gente cult. Benditos sejam os aplicativos que te sugerem m…

CARDÁPIO >> Carla Dias >>

Hoje tem silêncio. Uma penca deles a se embaraçar às curiosidades sazonais. Tem roupa lavada, casa varrida, comida engolida, verdade berrada. Hoje tem desaforo. Uma leva deles a desfilar nas passarelas do fim de tarde.

Hoje tem música repetida à exaustão. Mentira repetida à exaustão. Ilusões vividas à exaustão. E jardins suspensos imaginados por conta de desejos de se criar jardins suspensos legítimos. A insistência em permanecermos em modo “talvez amanhã...”.

Hoje tem colecionadores se desapegando de seus badulaques e de umas e outras obsessões. Como a de seguir alguém com o olhar e se sentir morrendo quando esse alguém se mistura à multidão. Perde-se da vista.

Hoje tem humor negro bebericando da boca entreaberta da leveza, simplesmente porque deseja um desafogo. Antagonistas enchendo os salões de baile para valsarem aos pares. Hoje tem trégua, bebidas exóticas, amarração e bênçãos. Tem liberdade com data de validade, livros de arte servindo de mesa de centro para xícaras de café mo…

TUDO NOVO DE NOVO >> Clara Braga

2016 definitivamente foi um ano instável! Um ano cheio de surpresas e mudanças que deixaram todos receosos, independente de estarem felizes ou não, afinal, a dúvida do que está por vir sempre nos deixa com um pé atrás! 
E diante de tanta mudança, foi difícil se manter na estabilidade! Parecíamos estar o tempo todo andando em uma corda bamba, o que acabou obrigando muita gente a mudar também!
Aquela menina que sentava na frente decidiu assumir os cachos! E que mudança maravilhosa, ela percebeu a beleza e o poder que tinha dentro dela! Aquele lá do fundão conseguiu, finalmente, mostrar o que realmente gosta de fazer, e desde que pôde se expressar da forma que sabe nunca mais foi o mesmo!
No fundo tinha também um outro, que surpreendeu todo mundo com os deveres e as provas bem feitas, como pode, ele só dormia! Obrigou todo mundo a mudar seus conceitos, nem sempre quem dorme demais é vagabundo, é apenas mais uma pessoa cansada e, afinal, não estávamos todos?
Teve quem foi obrigada a apre…

ACADEMIA, LIVROS E HALTERES >> Albir José Inácio da Silva

- Você está muito perto. Suas pernas são compridas – além da boa-vontade, a voz também era gentil. Ajustou ele mesmo o aparelho e o meu exercício ficou mais fácil.
Na semana passada, última vez que vim à academia, fiquei observando esse mesmo marombeiro, confesso, com algum desprezo. Ele era a futilidade em movimento e ritmo. A cada gesto olhava-se no espelho, procurando o melhor ângulo para os músculos retesados e mal contidos pela camiseta. As logomarcas famosas brilhavam nele em tênis, camiseta e meias.
Mas havia alguma gentileza no seu olhar, e isso me dava algum remorso. Pouco, mas dava. Pouco porque percebi várias vezes que também me desprezava. Chegou a fazer careta olhando meu tênis com lama seca, mas disfarçou com um sorriso.
Eu era desleixado como fica bem a um intelectual, camiseta grande e esgarçada, short grande e desbotado e um indefectível livro de sebo para abrir no painel da ergométrica. No fundo ele tinha uma humildade de marca e eu, uma arrogância maltrapilha.
Eu s…

TIPOS DE ALEGRIA >> Paulo Meireles Barguil

 Na crônica passada, intitulada Desafios de aprendizagem, escrevi, na versão inicial, que "A alegria, embora não seja uma boa mestra, é uma ótima companhia.". Uma estimada leitora, educadamente, indagou-me: "A alegria não é mestra, mestre?". Após lhe explicar que o texto era apenas uma crônica, ou seja, não tinha, tem ou terá qualquer intenção pedagógica ou científica, quiçá literária, informei-lhe que o trecho havia sido reescrito, com a explicitação da justificativa da minha blasfêmia, nos seguintes termos: "A alegria, embora não seja uma boa mestra, uma vez que não nos prepara para aceitar o efêmero – muito pelo contrário! – é uma ótima companhia, pois com ela nos lambuzamos com odores, sons, texturas e sabores agradáveis do Universo.". Ocorreu-me, então, a necessidade de clarificar, mesmo que brevemente, os motivos que me fizeram proferir tal asserção. Durante décadas no século passado, acreditou-se que as gorduras eram nocivas para a saúde humana. …

NÃO CULPE OS ASTROS >> Mariana Scherma

Eu não curto essa ideia de que fazer aniversário traz junto a questão do inferno astral. Culpar a astrologia e suas conexões místicas porque derrubei isso, porque aquilo deu errado, porque o rodinho quebrou no meio da faxina (sim, faço minha faxina e lavo minha roupa com muito orgulho) não tá certo. Eu derrubei isso porque me descuidei. Aquilo deu errado porque alguma falha rolou no meio do processo. O rodinho quebrou porque estava velho e uma hora aconteceria.
Agora em anjos eu acredito. Eita que sim. Principalmente quando parada no trânsito, um filha da mãe de um assaltante escolhe os coitados do carro de trás como alvo. Poderia ser o táxi onde eu estava. Sorte minha. Tristeza do de trás. Maldição da violência, da nossa desigualdade, da nossa falta de governo. Se fosse o táxi onde eu estava, será que culparia o tal do inferno astral? Talvez. Mas ainda seria errado, a culpa é da violência, da impunidade, da desigualdade, não da proximidade do meu aniversário.
Não acho que os astros de…

PERFIL >> Carla Dias >>

O telejornal que eu assisto, não é o mesmo que você assiste. Na verdade, abandonei telejornais há cinco escândalos, que eles deram de competir com programas de entretenimento. Isso vem confundindo a realidade como nunca.

Manifestações públicas de ignorância me tiram do prumo, quando seus autores tendem a ser inflexíveis. Por que não aceitar de vez que opinião não é lei, justiça, nem sempre é amparo para quem dele necessita, tampouco verdade?

Ah, a verdade... Essa Dona Doída que tende a aparecer nua, crua, desleixada, avessa ao desejo vigente.

Não me importo de ser acordada pela conversa animada de um bando de maritacas. Não maldigo pássaros, árvores, café e dias de chuva. Tento não maldizer pessoas, mas frequentemente sou tentada por elas. Humana, pessoa que sou, acabo abrindo a boca, a alma, a cabeça, a porta de saída. Maldigo, desdigo, às vezes, cinco minutos depois, quero bem de um jeito que somente maritacas alucinadas entenderiam. Aquele jeito do quando cada sentimento grita, ao…

NÓS E AS METÁFORAS >> Clara Braga

No início do caminho tudo é dúvida. Será que fiz a escolha certa? De onde surgiu mesmo a ideia de trilhar esse caminho dessa forma?
Antes que desse tempo de elaborar outras questões já deu a hora de começar a jornada, e é bem ali, na linha de partida, que somos logo contemplado com uma das imagens mais bonitas que já vimos na vida: um lindo nascer do sol aparece para dizer que mesmo que as coisas não saiam como planejamos, já valeu a pena.
E assim começamos. A jornada vai ser longa, e por mais que a gente se prepare para lidar com imprevistos, podemos sempre ser pegos de surpresa. E é por isso que quando, na parte mais difícil do percurso, começa aquele temporal, temos que estar abertos para a mudança repentina de estratégia. 
De que adianta querer repetir uma experiência anterior se as condições não são as mesmas?
A única regra é não desistir.
O caminho é longo, e por mais que a gente corra, o horizonte parece sempre distante. Os pensamentos voam, e depois de passarem vários filmes …

O PADRE E O GEIA >> Sergio Geia

Somos dois operários da mastigação; nem bem amanhece o dia, lá estamos batendo o ponto. Sem uma ajudante, ele toma o café e faz as refeições na rua; eu, sozinho, também. Conheço Eugênio de longa data, desde os bons tempos em que ele, um magro seminarista, frequentava os Castilhos. Eu, um magro coroinha, também frequentava os Castilhos; e a igreja. Nunca tivemos uma amizade na acepção usual do termo, apenas o conhecia, mesmo porque, depois, Eugênio sumiu — seminarista é assim; costuma andar pra lá e pra cá, a conhecer realidades díspares em comunidades centrais e periféricas — e virou padre; eu fiquei, cresci, larguei a batina (de coroinha), virei coordenador de pastoral da juventude, depois cresci mais, casei, sumi. Agora, Eugênio é pároco do Santuário, e eu não sou nada; ou, talvez, seja apenas um simples sujeito que gosta de escrever. Pois topo com o Eugênio quase todos os dias na padaria. Outro dia escrevi sobre ele e um carteiro (ele nem sabe); hoje escrevo sobre ele e o Geia; porqu…

ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM>>Analu Faria

Assisti ontem ao filme que dá título a esta crônica. Que delícia! Lembro como se fosse ontem de uma longínqua Analu dizendo a alguém que Harry Potter era para crianças (essa Analu de outros tempos tinha 19 anos quando o primeiro livro saiu no Brasil). Também me lembro de alguém respondendo: "Confie em mim, você vai gostar." Ponto para essa pessoa que sabia das "ressonâncias humanas" daquela mocinha cheia de si.
Desde o primeiro livro de Harry Potter*, aprendi a não subestimar a fantasia. Freud explica!! - eu, que vivo no mundo da lua, costumava achar o fantástico uma coisa "de criança"! Sabe-se lá porque ainda não investi em escrever um livro, um conto ou inventar qualquer coisa que envolvesse um mundo fantástico. Quando o martelar da realidade vira lugar-comum, talvez faça mais sentido escrever sobre uma mulher que vive com um véu mágico sobre os olhos do que rabiscar uma crônica sobre alguém que acha Harry Potter infantil.
"Animais Fantásticos e O…