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Mostrando postagens de Janeiro, 2016

HELENICES >> Whisner Fraga

O título foi ideia da Zoraya Cesar. A ela, por isso, minha gratidão.

1.
Helena diz que a picada de pernilongo está coçando. Busco uma pomada que promete aliviar coceiras e besunto o machucado. Ela pergunta se pode passar o dedo em cima. Pode, digo. Ela cutuca o creme e leva a ponta do indicador à boca. Que gosto horrível, reclama. Menina, pare com isso, vai lá lavar os lábios, que é perigoso, é veneno!, recrimino. Ela corre. Pouco depois, volta com a boca toda cheia de espuma, se queixando que agora estava sentindo um gosto horrível de sabonete.

2.
Helena me alerta, assustada: pai, isso daqui está com gosto de guacamole. Caramba. Um robalo com gosto de guacamole? Era o coentro.

3
Fui dar outra moeda para Helena: é para seu cofre. Ela responde que não quer, obrigada. O cofre já está bem cheio. Tão cheio que nem consegue mais carregá-lo.

4.
Na saída do médico, Helena falou: já que o doutor disse que não tenho alergia a frutos do mar, quero almoçar só lula e camarão, tudo bem?

5.
Quando …

EM COPACABANA >> Sergio Geia

O calor era insuportável naquela tarde de verão em Copacabana, mas não queria perder o evento literário; não é sempre que um escritor brasileiro best-seller mundial, que se mudou de mala e cuia para a França, vem falar para seus fãs em seu próprio país. Parei antes num botequim, peguei duas garrafinhas de água, esbarrei na Claudia, uma amiga de faculdade, depois seguimos juntos até o hotel onde aconteceria o encontro. Sentamos nos últimos lugares disponíveis: eu, numa ponta; a Claudia, noutra. Chegamos a tempo de vê-lo entrar vestindo seu inseparável All Star vermelho, sua calça jeans rasgada e uma camisa azul estampada de mangas compridas.

“Boa tarde, pessoal”.

Assim ele começou o bate-papo, cujo início reproduzo pra você.

“O brasileiro não tem o hábito de ler. E em cada nova pesquisa você percebe que ele vem lendo menos. No tempo livre, o brasileiro prefere a TV ou ouvir música, descansar, praticar esportes, sair com os amigos. Poucos são aqueles que têm o hábito de ir a uma livrari…

A SECRETÁRIA (1ª parte) >> Zoraya Cesar

No mundo, cada um com seu papel, e, se você não gosta do seu, rasgue-o e jogue fora. Assim acreditava D. Volga.
Para ela, no entanto, jogar fora seu papel de amante estava inteiramente fora de cogitação. Assumira que cabia à secretária cair de paixões pelo chefe casado, e, ao chefe, levar alguns anos para ajeitar as circunstâncias, separar-se da mulher e, só então, juntar-se publicamente com seu verdadeiro amor, ela, a secretária.
Por acreditar nessa filosofia do each one to his trade, ou, no popular, cada macaco no seu galho; por estar profundamente apaixonada; e por acreditar que era, essa paixão, recíproca, D. Volga recebia de corpo e coração abertos a lascívia e as explicações, confidências, segredos e, também, as tergiversações e evasivas do amante, o chefe.
O chefe. Roberto era seu nome, Dr. Roberto, melhor dizendo, e devo confessar que, quando ele e D. Volga se encontraram pela primeira vez, dentro da empresa, a atração foi mútua e imediata. Eram jovens e sedutores — ela, esguia e…

SIGNOS>>Analu Faria

Como boa pisciana, eu ligo para astrologia. Não olho o horóscopo todo dia, nisso eu não acredito. Mas acho que aquelas características gerais, aquela descrição da personalidade do "nativo" de Peixes, ou de Touro, ou de Capricórnio etc. , isso bate com o real.

O problema é quando alguém não tem nada a ver com a descrição. Como é que explica, gente? Tenho duas colegas de trabalho do mesmo signo que são totalmente diferentes. TEM QUE TER UMA EXPLICAÇÃO! E eu descobri qual é. Astrologia é como um sistema — se uma coisa parece fora da regra, é porque é preciso harmonizar essa exceção com as regras do sistema como um todo. Em Direito isso tem até nome (concordância prática ou harmonização).

Quando alguém parece fora da curva demais, dê uma olhada no ascendente, na Lua (ou signo lunar) e  onde está o "Vênus" da pessoa. Procure em qualquer site de astrologia e eles te explicarão o que é a Lua e o Vênus (já tô vendo o Eduardo Loureiro me matar por usar esses termos de forma…

UM CONTO SOBRE NINGUÉM >> Carla Dias >>

Pessoa essa, que caminha sem pressa, entre apressadas presenças. Não tem hora marcada, lugar aonde ir, não tem o que a guie. Há esse infinito de lugar nenhum e hora que seja; de revoltoso silêncio margeando sua alma.

Seu espírito sempre foi agreste, inóspito. Acanhou-se, e de tal forma, que nele não cabe serenidade. Nele tudo é inquieto e evita proximidade com o alento. Pessoa essa é tão desacostumada a receber gentileza, que duvida quando ela dá as caras, que só faz maldizer essa benfeitoria, e de tal forma, que a seca, aniquila.

Para pessoa feito essa seria o fim desapontar-se com a gentileza. Melhor evitá-la.

Dizem por aí que tal pessoa é dos infernos, um demônio com fervoroso desejo de acabar de vez com a felicidade do outro. Que acha esse deleite uma afronta, já que sofrimento e escassez marcam a realidade do ser humano. Dizem até que não gosta de música, que dançou sobre túmulos de poetas, que vandalizou declarações de afeto, por puro prazer de desmenti-lo. Que acredita que afe…

MEUS DIAS DE PINK E CÉREBRO >> Clara Braga

Em uma segunda-feira o SINPRO anunciou: hoje é dia de esquecer um livro! Isso mesmo, esqueça um livro em algum local, outra pessoa irá encontrar, ler e depois esquecer o mesmo livro em um outro local. Dessa forma, estamos compartilhando conhecimento. Iniciativa genial, mas confesso que me deu uma invejinha básica e uma certa nostalgia.

Há alguns bons anos, logo que entrei na faculdade, eu e uma amiga fizemos um curso de literatura e fomos incentivadas pelo professor a esquecer alguns livros em locais diversos. Como boas calouras que éramos, com a cabeça fervilhando de ideias e vontade de engolir tudo que era novidade, abraçamos a ideia como se tivesse sido nossa e partimos para a saga.

A princípio foi complicado, não tínhamos muito dinheiro para comprar livros, o que tornou difícil a escolha de qual livro conseguiríamos nos desapegar. Lembro das capas dos livros como se fosse hoje. Os dois eram livros infantojuvenis, um sobre um hotel mal assombrado e o outro uma adaptação de Romeu e …

REVERTERE AD LOCUM TUUM
>> Albir José Inácio da Silva

A Reunião
A família dispensou os detalhes, bastava de lenga-lenga, o preço servia. O comprador também tinha pressa e medo da desistência. Era um grande negócio.

Não chegava a ser um castelo como os que ficam na entrada do cemitério, mas era imponente. Granito, esquadrias de aço escovado e vidro fumê — mais de uma década de horas extras e sacrifícios.

Contrariando sua natureza de comerciante, o único com escrúpulos por ali era o Durval:

— Mas e Seu Augusto? Talvez fosse melhor esperar! A gente ainda não sabe o que aconteceu.

— Sabe sim, ô papa-defunto! Virou comida de peixe! A mim você não enrola, não. Vê se eu tenho cara de Augusto!

Papa-defunto era como Dona Quinca humilhava o Durval, que era, na verdade, como ele dizia, corretor de planos funerários, jazigos, urnas e utilidades afins — ramo que cresce muito pelo poder que dá ao cliente vivo de jactar-se da opulência e conforto de que desfrutará no futuro.

Onde, diabos, ia o dinheiro do marido, que trabalhava tanto, perguntava Dona …

A RUA DO AMOR >> Eduardo Loureiro Jr.

A Rua do Amor — quem saberia? — começa à praia, num porto de jangadas, que maravilha. Mas tem uma rampinha de lixo, mal acaba a areia, que porcaria. Depois tem subida íngreme, esculpida pela água que escorre na ladeira, o barro é enrugado, o calçamento é desordeiro. A vista é bonita, mas o  terreno é baldio.

A Rua do Amor — quem preveria? — tem galpão à venda, de muros tão altos e sem pintura que não se sabe o que se vai por dentro. O que se vê um quarteirão à frente faz até supor que a rua é sem saída. Já não se olha para trás, para o verde, para o mar, tudo que se vê é um encurtamento da perspectiva.

A Rua do Amor — quem andaria? — como qualquer rua, tem esquina, e dá vontade de dobrar à direita ou à esquerda só pra não ter que seguir em frente. Já no terceiro quarteirão, fica estreita, e é guardada por um cão tão sentado, tão triste e tão despelado, que dá pena, muita pena, pena até de si mesmo.

A Rua do Amor — quem cheiraria? — tem um caminhante fixo, um fluxo de água intermitente…

SOBRE PEQUENAS FRATURAS >> Cristiana Moura

— O que foi isso no seu pé?
— Quebrei o dedinho.
— Derrubou o peso da academia no pé?

E, ao longo da semana ouvi várias perguntas assim: Foi fazendo stand up? Foi dançando? Bem, parte dos amigos e conhecidos sabem do meu apreço por algumas atividades físicas. Um funcionário do prédio onde moro perguntou: "Foi jogando vôlei?" Vôlei? — pensei. De onde ele tirou que eu pudesse jogar vôlei? Não importa. Ao final da semana, eu tinha acumulado horas de repouso e leituras de perna para cima e a sensação de ser atlética e dinâmica aos olhos dos outros.

Priscila perguntou:
— Quem você chutou? Em poucos segundos me veio à mente uma lista significativa de pessoas que eu gostaria de ter chutado. Desde a professora do colégio de freiras em infância remota vivida em São Paulo até, até... Bem, melhor não fazer citações mais recentes. Cheguei a sentir saudades dos chutes do passado que não existiu. Fariam valer o dedo quebrado.

— Os xamânicos dizem que machucar o pé significa mudança de rot…

CRÔNICA EXPRESSA >> Paulo Meireles Barguil

— Boa tarde, Paulinho — falou-me o editor chefe.
— Boa tarde, Duju — replicou o cronista. — Rapaz, o que aconteceu? A sua crônica ainda não foi publicada... — indagou-me pacientemente o escritor-cantor-astrólogo-professor.
— Pois é... [eu nunca imaginei que ele iria me ligar para cobrar uma crônica] Estou finalizando! Dentro de uma hora ela estará no ar — respondi com um sorriso maroto. Está inaugurado o serviço de escrita e entrega de crônica. Espero que a estreia agrade o cliente, pois o prazo eu cumpri! Tem algum outro cliente?

NÃO SEJA CHATO, POR FAVOR >> Mariana Scherma

Quando você estiver mal-humorado, contenha-se. Você se lembra da professora que dizia que uma batata podre estragava o saco inteiro? Pois é! Ao conversar com seus amigos, tente falar coisas agradáveis em vez de destilar todas as suas lamúrias. De repente, é melhor marcar com um terapeuta do que abusar do ombro amigo. Ser amigo não inclui abusos de chatices. Tá bom, às vezes inclui, mas só de vez em quando. Você é mãe e tem amigas sem filho? De repente, é uma boa não falar apenas da sua criança-mais-linda-do-munddo-cuti-cuti, viu!

Vai sair com alguém? Esqueça o celular na bolsa ou no bolo, converse olhando nos olhos, sorria mostrando os dentes. Suas redes sociais super podem esperar. Ah, e se estiver desesperado pra postar alguma coisa, segure-se: as pessoas não estão enlouquecidas pra saber o que você anda fazendo. A não ser que você seja o Barack Obama ou o Papa. E se for mandar uma mensagem ou fazer um comentário, por favor, desligue o caps lock. Caixa alta é grito e é chato — a não…

MAIS INDICAÇÕES DE FILMES >> Carla Dias >>

Quando se trata de cinema, sou bem democrática. Obviamente, há categorias que não me agradam, mas é questão de gosto, não significa que geram somente filmes ruins.

Há muitos filmes sendo produzidos. Assim como na música e na literatura, há uma demanda enorme de obras disponíveis. Em meio a tantas opções, às vezes é difícil de se escolher.

Vou citar cinco filmes que assisti e achei muito interessantes. Filmes para pensar, refletir mesmo, ainda que os temas pareçam óbvios.



Conectar-se ao outro em tempos da falsa sensação de que #estamostodoshiperconectados, tornou-se um desafio. Apesar de estarmos cientes disso, Os Desconectados (Disconnect/2012) conseguiu tocar no assunto de uma forma tão profunda, que não há como ser indiferente à narrativa e aos personagens.

A trama entrelaça histórias de pessoas que utilizam a tecnologia de forma a afastá-las da realidade, assim como para atacar outros. Vida exposta online, roubo de dados, bullyng virtual, está tudo lá, mas colocado de forma tão cru…

ENFRENTANDO OS IDEAIS >> Clara Braga

Esses dias estava assistindo a uma entrevista com a atriz Denise Fraga na qual ela falava sobre uma das reflexões que ela pretende deixar para os espectadores em sua peça mais recente. A reflexão vem de uma simples pergunta: por que você trabalha? A intenção é fazer as pessoas refletirem, também, sobre o fato de hoje a questão financeira estar se sobrepondo a questões diversas que deveriam ser mais importantes, mas aparentemente já não conseguimos mais viver assim. Pensar em um trabalho que talvez não te traga tantas alegrias ou em um trabalho que não tenha a ver com sua área de formação, é luxo ou necessidade? Existe uma fórmula que funciona a longo prazo?

São tantas as questões que surgem dessa primeira pergunta que uma crônica só não seria capaz de abordar todas elas, talvez nem um livro inteiro desse conta. E eu com certeza não sou a pessoa mais indicada para tentar fazer isso, mas não posso negar, me peguei pensando nessa pergunta. Por que trabalho? Bom, pra responder sem ser cli…

OUTRA PESCARIA >> Whisner Fraga

Até noticia em contrário, os peixes preferem o silêncio. E também não podemos considerar que são bobos ou imperitos. São peixes, como se sabe e, outras vezes,se desconfia. As entranhas de um rio são mistérios. De forma que recomendo um anzol adequado. Isto é, quando se tratar de tucunarés. Gosto de pescar tucunaré, porque é um bicho valente, rebelde. A isca também precisa estar de acordo com a dieta do danado. Gosto de levar uns lambaris ainda vivos para o barranco, o que tem agradado tanto pescadores quando pescados.

Silêncio. Quietude. A chumbada, quando alguém optar por uma, não deve ser encorpada. É sabido que as correntes carregam linhas para debaixo de pedras e de troncos, de forma que não convém que a chumbada chegue muito rapidamente ao fundo. Escolha um lambari vivo e o espete com o anzol. Afrouxe o molinete, deixe a linha correr à vontade. O lambari deve tentar encontrar o ninho dos peixes. Lance-o para todos os lados, recolha lentamente a linha, simulando o movimento de bar…

CAPITAIS >> Sergio Geia

O assunto passa léguas de distância das grandes capitais do mundo. Não vou falar sobre São Paulo, Rio, Porto Alegre, BH; ou Paris, Madri, Roma, Londres. Estou interessado em outro tipo de capital.

Dizem que Novo Hamburgo é a capital nacional do calçado. Sua economia nasceu e se desenvolveu em torno dessa modalidade de indústria, sendo que todos os anos a cidade sedia duas importantes feiras do segmento: a FENAC — Feira Internacional do Calçado, e a FIMEC — Feira Internacional de Máquinas para Curtumes, Couros, Componentes para Calçados e Acessórios. É o maior polo calçadista do país. Até museu sobre o assunto tem: o Museu Nacional do Calçado.

Dizem que Jaú é a capital nacional do calçado feminino, que Franca é a capital nacional do calçado masculino, e que Birigui é a capital nacional do calçado infantil.

Do calçado pros vinhos. Dizem que Bento Gonçalves é a capital nacional do vinho. Segundo reportagem do portal UOL, você encontra em Bento Gonçalves um museu dedicado à bebida, degust…

FELIZ DIA NOVO >> Analu Faria

Conversava com minha fisioterapeuta sobre as expectativas para este novo ano e ela me contou que recebeu uma mensagem dessas prontas, que se passa para todo mundo, via aplicativo de mensagem, que dizia: “O que te espera para 2016 – a gasolina vai aumentar, a conta de energia vai aumentar, a conta de água vai aumentar...” Era logo de manhã. Nem rolou um “bom dia” para amaciar.

A gente tende a ser absurdamente negativa quando se trata do lado ruim da vida. Acho que quase todo mundo é assim. Começo a achar que é preciso tentar combater isso, se a gente quiser viver melhor.   Ser realista é preciso, é preciso correr atrás, é preciso vencer o comodismo, a preguiça etc.. Mas o medo do futuro não parece ser o motor mais eficiente para isso. Afinal, a gente se acostuma a tudo, inclusive a condições negativas. Dizer que o futuro vai ser pior que o presente pode não surtir muito efeito.

Aos trinta e cinco anos de idade, não sei nada da vida. Aliás, sei cada vez menos. Mas observo. Vejo que muit…

ENREDADOR >> Carla Dias >>

Nasceu...

Então?

Escreveu muitas histórias, assim, vivendo cada uma delas, nem todas por gosto. Descobriu-se autor de apenas parte de sua vida, que a outra se esbarra frequentemente às escolhas de outros. Vem exercitando a capacidade de lidar graciosamente com essas escolhas que têm o poder de modificar o desfecho das suas próprias, tentando minimizar o poder delas de afetar sua biografia.

Aconteceu de se interessar pelo improvável, desde cedo. Sendo assim, céu e inferno se misturam aos seus interesses.

Quando no céu: encanta-se.
Quando no inferno: inquieta-se.
Quando mergulhado em ambos: deleita-se.

Estudou dedicadamente a arte da manipulação. Há dias em que a usa em benefício alheio, em outros, exerce o direito ao egoísmo, mas sempre a usa de forma elegante. Há os que o temem e os que o respeitam, mas também há os que dele duvidam e sem reservas. São essas pessoas que mais lhe atraem a atenção. Observá-las é como requintar sua habilidade, já tão afiada, de levá-las aonde ele deseja…

ON/OFF >> Clara Braga

Desde que escolhi Artes como minha profissão, sou constantemente questionada sobre qual a função da arte, ou então, qual o motivo de se estudar Artes. Não vou me atrever a responder essas questões aqui, até porque quando começo não paro mais de falar, mas se tem uma coisa que eu acho que a arte faz é tornar concreta — seja da forma que for — questões que permeiam nosso cotidiano. Não acho que seja uma obrigação da arte fazer isso, mas enxergo como uma consequência, afinal, o artista cria com base em suas vivências, e suas vivências passam, de uma forma ou de outra, pelas questões que todo ser humano está enfrentando na contemporaneidade.

Isso que coloquei já seria o suficiente para um longo debate com diferentes entendimentos, mas essa não é minha intenção. Coloquei isso para dizer que venho observando que cresceu a quantidade de obras, isso claro inclui filmes, que tratam da questão da relação, e até da dependência, do homem com as diferentes formas de inteligência artificial. A temá…

BABÁ DOS BEATLES >> Albir José Inácio da Silva

Lando baixou os olhos do suplemento esportivo e viu que uma das guias estava frouxa. Amassou de susto o jornal, pegou a alça em baixo da perna e puxou as cordas com força. Três cães latiram, reclamando porque foram esfregados nos galhos do arbusto. Mas onde estava Ringo?
Lando correu até a borda do canal e olhou a água até onde a vista alcançou, olhou em volta e viu que ele desaparecera. Logo o Ringo!
Dona Honorina tinha duas grandes paixões na vida: os Beatles, mortos ou vivos, e os cães. Não qualquer cão — os seus  cães:  John, Paul, George e Ringo. Quanto aos Beatles, ouvia-os durante todo o dia e não lhe davam trabalho, a não ser apertar o play. Mas com os cães era mais complicado.
Na entrevista de emprego com Dona Honorina, Lando jurou paixão pelos animais, chorou ao lembrar seu gato falecido e disse que sempre sonhou com esse trabalho. A velha ficou encantada.
—Seu Lando, sei que o senhor tem amor pelos bichos, mas cuidado principalmente com Ringo. Além de desobediente, ele é a…

REPOUSO ETERNO PARA UM SONHO?
Eduardo Loureiro Jr.

Houve um tempo em que era muito fácil escrever. Em trinta minutos, eu conseguia escrever uma pequena crônica ou um pequeno livro infantil. Textos maiores levavam mais tempo, mas eram escritos também sem esforço. Não existia falta de assunto, eu poderia escrever sobre qualquer coisa, até sobre um provérbio sorteado ao acaso. Nem tudo era bom, mas era fácil, e o que era realmente bom dava aquela sensação de fluidez e alegria.

Aqueles dias acabaram.

Não tenho tido vontade de escrever. Mesmo quando me vem alguma ideia e penso, como antigamente, que aquilo daria um bom texto, não consigo me motivar para sentar e escrevê-lo. Sinto que não tenho mais o que dizer. Tento justificar, dizendo que tudo já foi dito, que nada mais há por dizer, mas sei que isso não é verdade: é sempre possível encontrar uma forma nova de dizer algo que já foi dito. Outra justificativa é dizer que não há quem queira ler o que escrevo, o que também não é verdade porque, de vez em quando, alguém comenta que gostou de …

CRISÁLIDA >> Paulo Meireles Barguil

Crisálida estou.



Ignoro se borboleta fui ou serei...



Ou se larva serei ou fui.


[Borboleta Euploea core]

SABER ESPERAR >> Mariana Scherma

Fila pra mim é o momento de soltar a imaginação e me perder nas minhas próprias terminações nervosas. Eu penso no que preciso fazer, no que quero fazer, no que sonho fazer, enfim, eu penso. Por isso, posso dizer que não me importo em encarar uma filinha. Costuma ser necessário. Mas também não pense que eu sou o tipo que vê um aglomerado de gente e entra atrás. Sim, porque tem gente que nutre um amor doido pela fila de qualquer espécie. Já vi gente em fila sem saber pra que ela servia. Eu entro só quando não tem volta, tipo na da lotérica pra Mega Sena da virada. Ou na da padaria para o pão quentinho.

Me esforço pra ir pra fila com bom humor. Esperar já é chato, esperar reclamando não é nada agradável. Fila é um espaço pra trocar uma ideia, um sorriso... É um mal necessário, às vezes, portanto não precisa ser um terror. A gente pode junto construir uma fila divertida. Imagina uma com concurso de melhor piada, pior mico no trabalho, essas coisas. Mas tem gente que prefere fazer o infern…

CLARO-ESCURO >> Carla Dias >>

Encontrou a si há cinco minutos, durante uma reflexão profunda. Sente-se atordoado ao se perceber, enquanto esperava o trem. O trem que atrasou quarenta minutos, veio abarrotado de pessoas. Conseguiu espaço para colocar os pés dentro do maquinário, seguir seu rumo, porque lutou muito. Lutou para embarcar nesse trem como já viu pessoas lutarem entre si por comida. Sabe como? Quando há tanta gente faminta que entregar as doações só é possível se os alimentos forem lançados do caminhão. É a sorte — e o fôlego — que define quem fará e quem ficará na vontade de fazer ao menos uma refeição no dia.

No trem, escuta histórias que preferia não conhecer, seus tons, suas vozes e seus cheiros. A proximidade é tanta que ele sente o suor de outros escorrer em seu corpo. Não há espaço para reclamações sobre tal proximidade. Estão todos — quase sempre desarticuladamente — preocupados com questões mais imediatas do que as existenciais, exaustivamente ruminadas por filósofos e intelectuais de barriga ch…

A ÚLTIMA PESCARIA DO ANO >> Whisner Fraga

Carlinhos ajeita o braço de Pedro nos ombros da mãe. Mãe é colo. O menino se aquieta e avança em seu sono cômodo e legítimo. O barulho, a música, o céu encrespado não o incomodam. Uma toalha cobre as costas nuas da criança e sua cabeça repousa na segurança da mãe. Mãe é colo. Pedro nem de longe lembra o menino arteiro e festivo de minutos antes. Cansou de levar o peso das coisas. Uma criança de dois anos não deveria ter fardo nenhum para transportar. Mas tem. É preciso entender e respeitar a carga de cada um.

A água está hostil. As ondas encrespadas surram o casco da embarcação. Nos equilibramos naquele marulhar sonolento, à espera dos peixes. Carlinhos desiste da pescaria e resolve se sentar ali perto de nós, ajudando na troca de anzóis. Estamos todos, até onde possível, em silêncio. Bebericamos uma cerveja enquanto os lambaris se escondem na bacia. Em breve serão iscas. Meu irmão, mais experiente, já está no terceiro tucunaré. Não temos inveja, pois a bebida está gelada e o dia está…

SENTADO À BEIRA DO MAR (DOIS ANOS DEPOIS)
>> Sergio Geia

Ubatuba. Praia da Almada. Vejo-o sentado olhando o mar. Sobre a mesa estão dispostos cuidadosamente em forma de pirâmide: uma carteira de documentos preta, na base; um maço de cigarros Marlboro; um isqueiro cinza, no vértice. Pela cara tomada de rugas, ele deve ter uns setenta. Está sozinho. Veste uma bermuda démodé bege, uma camisa de botão listrada, sandálias de couro.

É uma tarde de verão especialmente linda. O mar nunca esteve tão verde (o mar é azul! — uma voz me buzina no ouvido). Não, amigo, neste caso, o mar que está agorinha à minha frente, este aqui que estou vendo com os olhos que Deus me deu, este mar é verde. Ah, é verde! Radiantemente verde! As espumas que brotam da arrebentação são brancas, mas são tão brancas, e tudo é de uma nitidez tão impressionante, que a cena toda parece irreal, uma imagem digital, trabalhada, coisa de cinema. Deveria estar no mar, isso sim, lá dentro, sentindo o sol e o vento na pele, a água gelada a refrescar o corpo. Mas confesso que a coisa a…

O AMOR DE JORCIVAL >> Zoraya Cesar

Viera do interior de Minas, naquela época em que as malas não tinham rodinhas, em que capiau tinha cara e porte de capiau, mas que gente de pouco estudo, desde que trabalhadora, tinha alguma chance de subir na vida. 
Viera sem grandes ambições, não almejava riqueza, festas, luxos; só queria duas coisas: olhar para o infinito e ganhar a vida honestamente. O combinado era morar na Rua do Riachuelo, com um primo, que lhe havia arrumado um emprego de vendedor em loja de sapatos femininos. “Só tem mulherão, primo, é trabalho de primeira, o dia inteiro tocando o pé delas sem marido empombar”, dizia o tal primo, entusiasmado. Jorcival até gostou da ideia.
No primeiro final de semana, porém, os dois rapazes foram passear à beira-mar do cartão postal mais famoso da cidade. O recém-chegado ficou embasbacado. Nunca vira nada tão lindo. As calçadas, com suas pedras portuguesas desenhando linhas sinuosas, lembravam-lhe as curvas do corpo feminino, e eram, certamente inspiradas nas Certinhas do Lalau…