terça-feira, 26 de janeiro de 2016

MEUS DIAS DE PINK E CÉREBRO >> Clara Braga

Em uma segunda-feira o SINPRO anunciou: hoje é dia de esquecer um livro! Isso mesmo, esqueça um livro em algum local, outra pessoa irá encontrar, ler e depois esquecer o mesmo livro em um outro local. Dessa forma, estamos compartilhando conhecimento. Iniciativa genial, mas confesso que me deu uma invejinha básica e uma certa nostalgia.

Há alguns bons anos, logo que entrei na faculdade, eu e uma amiga fizemos um curso de literatura e fomos incentivadas pelo professor a esquecer alguns livros em locais diversos. Como boas calouras que éramos, com a cabeça fervilhando de ideias e vontade de engolir tudo que era novidade, abraçamos a ideia como se tivesse sido nossa e partimos para a saga.

A princípio foi complicado, não tínhamos muito dinheiro para comprar livros, o que tornou difícil a escolha de qual livro conseguiríamos nos desapegar. Lembro das capas dos livros como se fosse hoje. Os dois eram livros infantojuvenis, um sobre um hotel mal assombrado e o outro uma adaptação de Romeu e Julieta. Na contracapa, um texto que nós criamos, explicando que aquele livro havia sido deixado ali de propósito, para que quem achasse fizesse o melhor proveito possível e depois deixasse em outro local. Ao final do texto, um email para que as pessoas contassem para a gente onde tinham encontrado o livro e o que tinham achado da ideia.

O primeiro deixamos em um parque e ficamos observando de longe, esperando e filmando as pessoas que achariam. Duas meninas pequenas foram brincar no balanço e acharam o livro. Levaram para os pais, que leram o texto, riram da ideia e guardaram o livro. A sensação era ótima, realmente parecia que estávamos fazendo um bem para a humanidade, espalhando conhecimento e essas coisas. Nos sentíamos como o Pink e o Cérebro: iríamos dominar o mundo!

Foi uma experiência tão divertida que nem pensamos muito, já partimos para o segundo local: um banco de um shopping. Mais uma vez nos escondemos e assistimos ao guarda encontrar o livro, rir do texto e começar a andar pelo shopping com o livro na mão contando a história para seus colegas. Na nossa cabeça todos tinham se surpreendido com a ideia e não viam a hora de esquecer um livro por aí também. Estávamos tão empolgadas que já tínhamos várias versões dessa história de esquecer, queríamos esquecer poemas, reproduções de obras de artes, enfim, tudo que pudesse ser esquecido nós estávamos esquecendo.

Não sei dizer bem ao certo o que aconteceu com a nossa ideia genial, só sei que, como o Pink e o Cérebro, não dominamos o mundo. Acabou que depois desses dois livros nunca mais esquecemos nada em lugar nenhum, pelo menos não de propósito. E também nunca recebemos notícias dos livros que deixamos, ninguém nunca mandou um email dizendo se tinha dado continuidade para a ideia, e acabou que a pequena corrente de compartilhamento acabou muito antes do que deveria ter acabado.

Depois de ver que agora já existe um dia para celebrar e incentivar o esquecimento de livros percebo que nossa ideia (que na verdade era uma proposta do professor, mas como ele propôs e não fez, virou nossa ideia) era realmente genial. Fiquei com uma invejinha básica desse tal paulistano que está sendo colocado como o idealizador da parada, porque respondem os emails dele com a localização dos livros e os meus não?

Bom, mas apesar da leve inveja, é muito bom ver que as pessoas estão se empenhando nessa ideia de compartilhar livros, afinal, o que é bom nós temos mesmo é que compartilhar. Sem contar que as vezes podemos encontrar um livro que, se não fosse o acaso, jamais iríamos ler.

Já estou doida para estar do outro lado da história e encontrar um livro por aí dando sopa. Mas podem deixar, depois eu juro que esqueço outro livro para dar continuidade para a corrente, não vou deixar minha inveja ser maior do que essa ideia genial e essa sensação ótima de estar fazendo algo positivo, mesmo que agora eu seja só mais uma reprodutora da ideia desse paulistano e de meio mundo que já participou de diversas iniciativas como essa, droga...

Partilhar

3 comentários:

Carla Dias disse...

Esse projeto é bem bacana mesmo. E com certeza a internet vem ajudando a espalhar a ideia.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Divertida, Clara. :)
Essa ideia não é do paulistano. Isso já funciona há pelo menos quinze anos nos Estados Unidos. E talvez até venha antes disso...

Pri disse...

Nossas ideias sempre eram as melhores. Pena que não botávamos em prática!