sábado, 30 de janeiro de 2016

EM COPACABANA >> Sergio Geia

O calor era insuportável naquela tarde de verão em Copacabana, mas não queria perder o evento literário; não é sempre que um escritor brasileiro best-seller mundial, que se mudou de mala e cuia para a França, vem falar para seus fãs em seu próprio país. Parei antes num botequim, peguei duas garrafinhas de água, esbarrei na Claudia, uma amiga de faculdade, depois seguimos juntos até o hotel onde aconteceria o encontro. Sentamos nos últimos lugares disponíveis: eu, numa ponta; a Claudia, noutra. Chegamos a tempo de vê-lo entrar vestindo seu inseparável All Star vermelho, sua calça jeans rasgada e uma camisa azul estampada de mangas compridas.

“Boa tarde, pessoal”.

Assim ele começou o bate-papo, cujo início reproduzo pra você.

“O brasileiro não tem o hábito de ler. E em cada nova pesquisa você percebe que ele vem lendo menos. No tempo livre, o brasileiro prefere a TV ou ouvir música, descansar, praticar esportes, sair com os amigos. Poucos são aqueles que têm o hábito de ir a uma livraria ou a uma biblioteca, folhear livros ou mesmo sentar num café e ler alguns trechos. E como não faz isso, não ensina aos filhos. E nós temos gerações e mais gerações de não-leitores sendo formadas.

"Antigamente no Brasil era muito comum a gente comprar CD para ouvir nossos artistas preferidos. Todo mundo tinha um aparelho de som em casa e uma coleção de CDs. Agora, e livros? Alguém tinha livros? Uma biblioteca ou uma pequena estante que fosse? Quase ninguém. As pessoas têm o hábito de ouvir músicas, o que é maravilhoso, mas não têm o hábito de ler, o que é lamentável. É uma questão profunda de educação.

"A gente sempre escuta, e na minha cidade isso era realmente verdade, que antigamente a escola pública era boa. Os nossos políticos viraram as costas para a escola pública.  Se não houver investimento, se não houver políticas públicas sérias que privilegiem a educação, se não houver ações políticas de verdade, cada vez mais as novas gerações vão ler menos.

"Veja o caso da biblioteca. Já está comprovado que nas comunidades onde elas existem o rendimento dos alunos é bem superior em relação àqueles que vivem em comunidades que não possuem biblioteca. Aumenta o índice de aprovação. Diminui o índice de abandono. E é tão difícil assim investir em bibliotecas? E o professor? Todo mundo acha que o professor ganha mal, que o investimento deveria ser no professor, pagando bem, reciclando-o. Agora se ele faz greve por melhores condições de trabalho, de salário principalmente, todo mundo cai de pau, a sociedade organizada é refratária, a própria mídia é. Mas com político, infelizmente, meus amigos, só funciona assim. Você só consegue alguma coisa protestando, fazendo greves, indo até os meios de comunicação. Sem pressão, ele não aumenta o salário do professor. Aliás, não aumenta salário de ninguém, a não ser o seu e de seus apaniguados.

"A Marcia Tiburi diz que por trás disso tudo existe um certo ‘fascismo’, a vontade do sistema de deixar o outro ignorante, porque se ele for ignorante, melhor para a manutenção do governo do jeito que está. Gente esperta, culta, informada é insubmissa, inventa coisas, pode criar outros mundos possíveis.

Minhas desculpas por esse desabafo, mas estou cansado de tanta demagogia”.

Depois disso, ele respirou fundo, aguardou cessar o barulho das palmas, tomou um pouco de água, e começou a falar sobre um de seus livros.

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3 comentários:

Zoraya disse...

haha, muito boa, Sergio. É, não tá fácil pra ninguém... Beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fiquei curioso... Não rolou mais nada naquela noite? :)

sergio geia disse...

Grato, amigos! Rolou... rsrs