quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

CLARO-ESCURO >> Carla Dias >>

Encontrou a si há cinco minutos, durante uma reflexão profunda. Sente-se atordoado ao se perceber, enquanto esperava o trem. O trem que atrasou quarenta minutos, veio abarrotado de pessoas. Conseguiu espaço para colocar os pés dentro do maquinário, seguir seu rumo, porque lutou muito. Lutou para embarcar nesse trem como já viu pessoas lutarem entre si por comida. Sabe como? Quando há tanta gente faminta que entregar as doações só é possível se os alimentos forem lançados do caminhão. É a sorte — e o fôlego — que define quem fará e quem ficará na vontade de fazer ao menos uma refeição no dia.

No trem, escuta histórias que preferia não conhecer, seus tons, suas vozes e seus cheiros. A proximidade é tanta que ele sente o suor de outros escorrer em seu corpo. Não há espaço para reclamações sobre tal proximidade. Estão todos — quase sempre desarticuladamente — preocupados com questões mais imediatas do que as existenciais, exaustivamente ruminadas por filósofos e intelectuais de barriga cheia. Eles pedem por aquilo que deles é direito desde o nascimento: respeito pela sua existência. Pedem pelo o que é tirado deles, diariamente.

Ainda que suas histórias não sejam dignas de ganharem versão de roteiro de cinema, que frequentem diariamente os telejornais sensacionalistas. Mesmo que o nascimento deles não seja celebrado em grande estilo, mas nos quintais de pais nem sempre amorosos, em vez de torteletes de frutas vermelhas, bolo de aipim, não há como permanecer indiferente ao escutar o que ele escuta. O que ele gostaria de não escutar, mas não por zelo, por não querer vergar seu espírito no tom do chicote da dor alheia, mas sim por compreender, com a clareza que a maioria ignora, que as aflições são voláteis, e apesar da empatia, às vezes tememos até mesmo tentar nos colocar no lugar do outro. O medo é de nos identificarmos com ela, de recebermos essa clareza que jamais sumirá de nós, e ficará ali, lembrando-nos de que somos abençoados mil vezes mais que alguns outros.

Só que ele entendeu isso como deveria. Acontece de ser mil vezes mais, assim como mil vezes menos. Acontece de a vida ter seu jeito de equilibrar as coisas.

Em pé, pendurando o corpo em um agarro frouxo, o pé perdendo espaço, vez e outra, quando o levanta ao tirá-lo de debaixo da pisada de outro. Uma mulher fala com ele, meio chorosa, sem se importar se ele nem mesmo olha para ela. Do outro lado, um senhor fala com ele sobre a história triste da mulher, de dar nó na garganta. Ele olha para frente, atem-se à paisagem de janela. Escuta o que dizem, mas sem identificar palavras. Não quer compreender suas histórias. Não hoje, quando a sua própria o alfineta.

Antes de hoje, ele era apenas ouvinte dessa miscelânea de alegrias e tristezas desfiadas em transporte público. Achava inconveniente as pessoas exporem a intimidade de suas biografias, enquanto lutam, mais uma vez, por espaço. Aprendeu a se esgueirar de jeito a garantir seu canto no trem lotado. Era tudo o que precisava: de um canto. Agora, enquanto dança desengonçadamente para manter os pés no chão, compreende que é apenas mais um nessa fila de pessoas que não são ouvidas, mas que insistem em dizer, porque, vai que...

Naquela estação o trem quase esvaziou. Estranhou o espaço ao seu redor, chegou a cambalear, percebendo que, desde o embarque, largara o peso do seu corpo para outros carregarem. Sentiu-se culpado por não ter dado atenção aos que lhe contavam suas histórias.

Senta-se, observa as poucas pessoas no vagão, aproveitando tanto espaço e o vento bom que entra pelas janelas. Respira fundo, reconhecendo que está há três estações depois da sua. Mas não importa, ele voltará sentado, feito um rei. Segurará a bolsa de alguém com dificuldade em se equilibrar. Escutará sua história. Fará comentários gentis, inspiradores. Talvez faça isso por algumas viagens, até, quem sabe, ele mesmo crie coragem de contar sua história, passando a existir, ainda que timidamente, naquele vagão de trem.

carladias.com



Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Você é extraordinária, Carla!

Carla Dias disse...

Eduardo... Ok, fiquei feliz com o comentário e sem repertório apurado para agradecer tal gentileza.