terça-feira, 12 de janeiro de 2016

ON/OFF >> Clara Braga

Desde que escolhi Artes como minha profissão, sou constantemente questionada sobre qual a função da arte, ou então, qual o motivo de se estudar Artes. Não vou me atrever a responder essas questões aqui, até porque quando começo não paro mais de falar, mas se tem uma coisa que eu acho que a arte faz é tornar concreta — seja da forma que for — questões que permeiam nosso cotidiano. Não acho que seja uma obrigação da arte fazer isso, mas enxergo como uma consequência, afinal, o artista cria com base em suas vivências, e suas vivências passam, de uma forma ou de outra, pelas questões que todo ser humano está enfrentando na contemporaneidade.

Isso que coloquei já seria o suficiente para um longo debate com diferentes entendimentos, mas essa não é minha intenção. Coloquei isso para dizer que venho observando que cresceu a quantidade de obras, isso claro inclui filmes, que tratam da questão da relação, e até da dependência, do homem com as diferentes formas de inteligência artificial. A temática nem é tão recente assim, é verdade, mas é no mínimo assustador observar como verdadeiras ficções científicas antigas retratam uma realidade que já não está tão longe da nossa.

Robôs que interagem diretamente com o ser humano? Aparelhos que funcionam por comando de voz? Carros quase 100% automáticos? Celular que conversa com você? Sistemas de segurança que funcionam com base em reconhecimento facial, digital ou pela íris? Imprimir peças com as quais podemos construir casas com baixo custo? Imprimir partes do corpo humano? Por favor, isso tudo mal chegou e já quase faz parte de um passado recente, afinal, é assim que as coisas funcionam!

Agora, posso até estar errada, mas uma coisa vem mudando nessas obras que retratam essa realidade digital: a abordagem. Não vou citar os últimos filmes que vi para não dar spoilers ou acabar virando uma crônica sinopse, mas a verdade é que tomei pequenos tapas de luvas ao ser confrontada com desfechos que fogem daqueles finais felizes ou clichês entre homens e máquinas.

O que vem sendo mostrado quase como uma forma de alerta é o quanto nós nos permitimos nos apegar a coisas incapazes de retribuir sentimentos sinceros e verdadeiros, o quanto confiamos nossas memórias e alegrias que deveriam ser eternas a aparelhos com tempo de vida útil cada vez mais curto e, o mais grave, o quanto nos deixamos dominar por pequenos aparelhos abrindo mão de um dos únicos poderes que ainda temos que é o de apertar o botão de ligar e desligar.

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