sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A SECRETÁRIA (1ª parte) >> Zoraya Cesar

No mundo, cada um com seu papel, e, se você não gosta do seu, rasgue-o e jogue fora. Assim acreditava D. Volga.

Para ela, no entanto, jogar fora seu papel de amante estava inteiramente fora de cogitação. Assumira que cabia à secretária cair de paixões pelo chefe casado, e, ao chefe, levar alguns anos para ajeitar as circunstâncias, separar-se da mulher e, só então, juntar-se publicamente com seu verdadeiro amor, ela, a secretária.

Por acreditar nessa filosofia do each one to his trade, ou, no popular, cada macaco no seu galho; por estar profundamente apaixonada; e por acreditar que era, essa paixão, recíproca, D. Volga recebia de corpo e coração abertos a lascívia e as explicações, confidências, segredos e, também, as tergiversações e evasivas do amante, o chefe.

O chefe. Roberto era seu nome, Dr. Roberto, melhor dizendo, e devo confessar que, quando ele e D. Volga se encontraram pela primeira vez, dentro da empresa, a atração foi mútua e imediata. Eram jovens e sedutores — ela, esguia e arguta; ele, forte e implacável. Os dois, ambiciosos. 

E a ambição pode ser um componente bastante definitivo na composição de um novo elemento químico. Principalmente quando há sexo e dinheiro envolvidos. E quando não houver mais sexo? A ambição permanece. Mas ainda é cedo para falarmos disso. Acompanhemos o desenrolar da história. E voltemos à ambição. 

Dr. Roberto era casado com a filha do principal acionista e diretor-presidente da empresa de incorporações onde era advogado. Conquistar a moça tímida e meio feiosa, que se encantou pelo jovem promissor e arrojado, foi moleza, perdão, foi facílimo para ele, bonito, musculoso, assertivo. Mais difícil foi suplantar a desconfiança do pai, que enxergou ali — acertadamente, aliás — um golpe do baú. Como, no entanto, a filha parecia feliz, e o rapaz era, realmente, muito competente, o velho foi baixando a guarda até chegar ao ponto de fazer, do genro, seu sócio. 

D. Volga chegou à empresa mais ou menos na época em que Dr. Roberto fazia corte cerrada à filha do patrão, e não só percebeu a manobra como a aprovou inteiramente. Tudo estava dentro da filosofia do cada um com seu papel.  Quem não está satisfeito, que o rasgue e jogue fora.  Ela foi, inclusive, ao casamento, cumprimentou os noivos e desejou felicidades ao — já, então — amante. 

E, dentro do papel de secretária-amante do chefe, cabia-lhe ajudá-lo nas pequenas falcatruas, ouvir suas queixas, fazer sexo alucinante, guardar segredos inconfessáveis, passar os finais de semana sozinha. E esperar o momento certo de ele se separar para ficarem juntos. 

E quando seria isso? 

Bem, primeiro, o velho pai tinha de morrer ou se aposentar. Enquanto ele fosse influente nos rumos da empresa, Dr. Roberto não poderia abandonar sua galinha dos ovos de ouro. A mulher lhe dava estabilidade e projeção. E ele ainda não estava rico e independente o suficiente para largar o osso. Estratégia que D. Volga apoiava plenamente.  

(Não estranhem o uso dos pronomes de tratamento “doutor” e “dona”. Era assim que eles se dirigiam um ao outro, até na intimidade — fazia parte da dinâmica do casal.) 

O dia chegou, como chega para todos, e o velho patriarca, finalmente, morreu, para desconsolo de todos os que o conheciam — menos para o casal de amantes, que só gostava de si mesmo e um do outro. Talvez. O patriarca, então, como dissemos, morreu, e deixou uma herança bastante significativa para a única filha, essa mesma, casada com Dr. Roberto. 

Falemos um pouco dessa moça, que se apaixonou e casou com o rapaz arrojado e trabalhador, apesar da contrariedade da família. Após dez anos de casada, continuava a olhar seu querido Roberto com os olhos esbugalhados de admiração e incredulidade com os quais o mirara pela primeira vez. Autoestima não fazia parte de sua personalidade e o vácuo emocional deixado por essa importante característica foi ocupado por um ciúme faminto, e uma fragilidade psíquica que a fazia beber em demasia, fumar e, desconfia-se, cheirar o que não devia. Esse somatório desditoso cobrava seu preço em doenças e achaques. E pronto. Falamos o essencial, voltemos à história principal.

Um momento. Eu disse dez anos de casada, certo? Sim, disse e mantenho. O caso entre Dr. Roberto e D. Volga continuava em não diria pleno, mas constante e estável vapor. 

Isso quer dizer que eles mantinham o relacionamento extraconjugal havia dez anos. Sob as mesmas condições. Sim, significava. E, tão discretos os dois, que nunca, ninguém, jamais desconfiou. 

Com a morte do patriarca chegara a hora, portanto, de Dr. Roberto cumprir o acordado sob os lençóis de D. Volga, separar-se da mulher e assumirem seu caso. Não foi, todavia, o que aconteceu. Embora ele fosse sócio na empresa, a esposa oficial era, agora, a única herdeira do falecido diretor-presidente, tendo herdado, inclusive, as ações com poder de voto. Uma separação, assim, de repente, poderia colocar ambos os amantes no olho remelento e glaucomatoso da rua. Algo soberanamente inadmissível, tanto para ele quanto para D. Volga. Até porque, a essa altura dos fatos, nenhum dos dois era jovem o suficiente para enfrentar a acirrada competição do mercado.

Cada um no seu papel. Era papel da amante ajudar seu amor a sair de uma situação difícil. Era papel do homem enganar a esposa e tentar sair de um casamento que já cumprira sua função. 

O que fazer? Esperar, decidiram. Saber viver em segredo e esperar, ensinara o avô russo de D. Volga, era a arma dos fortes.


Continua dia 12 de fevereiro.



Partilhar

7 comentários:

Carla Dias disse...

Isso é que é plano de carreira. :)
Curiosa para saber aonde essa história vai nos levar.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Não vou nem falar da história, mas você usou umas expressões bem legais, tipo "o olho remelento e glaucomatoso da rua". Divertido de ler. :)

Clarisse Amador disse...

Uma delícia seus textos, amiga! Adorei o comentário da Carla - rsrsrsrs (isso é que é plano de carreira - kkkkk)

Erica disse...

Ai meu Deus, não acabou?! Não vai me colocar a herdeira pra matar os alpinistas, né? rs

albir silva disse...

Acho que ainda vou ter pena desses dois.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Por que eu imagino a D. Volga com o rosto da Nicole Kidman e a esposa do Dr. Roberto com o rosto da Gabriela Duarte? Hey, Jung?!

Anônimo disse...

Hahaha, esse plano de carreira é muito demorado!