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UM CONTO SOBRE NINGUÉM >> Carla Dias >>


Pessoa essa, que caminha sem pressa, entre apressadas presenças. Não tem hora marcada, lugar aonde ir, não tem o que a guie. Há esse infinito de lugar nenhum e hora que seja; de revoltoso silêncio margeando sua alma.

Seu espírito sempre foi agreste, inóspito. Acanhou-se, e de tal forma, que nele não cabe serenidade. Nele tudo é inquieto e evita proximidade com o alento. Pessoa essa é tão desacostumada a receber gentileza, que duvida quando ela dá as caras, que só faz maldizer essa benfeitoria, e de tal forma, que a seca, aniquila.

Para pessoa feito essa seria o fim desapontar-se com a gentileza. Melhor evitá-la.

Dizem por aí que tal pessoa é dos infernos, um demônio com fervoroso desejo de acabar de vez com a felicidade do outro. Que acha esse deleite uma afronta, já que sofrimento e escassez marcam a realidade do ser humano. Dizem até que não gosta de música, que dançou sobre túmulos de poetas, que vandalizou declarações de afeto, por puro prazer de desmenti-lo. Que acredita que afeto fragiliza, colocando a pessoa na posição de ser enganada.

Pessoa essa que observa seus semelhantes, durante um passeio marcado por passos lentos. Debaixo desse sol escaldante, sente-se confortável, como poucos, ambienta-se facilmente aos incômodos oferecidos. Aliás, essa ambientação se tornou sua habilidade mais afiada. Não precisa se esforçar para adaptar-se ao que o destino lhe desfere. Tem facilidade em defender-se de abismos.

Talvez se resuma a isso: a capacidade de adaptar-se aos infortúnios, diferente da leitura do outro, para pessoa essa é o único talento que lhe foi concedido por um Deus que escolheu ignorá-la, logo após a oferenda. Talvez Deus não tenha nada a ver com isso, os políticos que a ignoram, sim, quem sabe os incrédulos, os leitores de biografia a partir de rótulos e pré-julgamentos.

Trata-se de sobreviver aos recôncavos de sua reles existência, tendo um número de documento que a inclui em estatísticas, e a maioria delas não recita ganhos. Pessoa essa que, sim, já conheceu pessoa outra de mesma formação, com o espírito açoitado pela má sorte de nascer onde o amor não era bem-vindo. Limitada aos quintais das avenidas, aos solavancos da excentricidade da violência, e que ainda assim reverberava – o olhar lindo de beleza que não se pode nomear – a tal da felicidade, pelo simples fato de estar viva.

Lembra-se a pessoa essa de ter se emocionado com a honesta felicidade da pessoa outra. E de como lhe doeu o estômago ao perceber que ela jamais seria como a outra. Que seu espírito carecia de tal envergadura.

Aos que se acham bem-afortunados, providos da elegância dos desejos atendidos, da excelência das oportunidades oferecidas, da silhueta do que é dito perfeito, acredita que deveria ser proibido analisar alma feito a sua, que não quer, além de tudo, abraçar a culpa de ter enveredado devotos da felicidade pelas entranhas de seus abismos, rasurando-lhes o deleite.

Pessoa essa, que aprendeu a dizer muito com longos silêncios, e compreende lamentos como se tivesse sido doutrinada para isso, sabe que seguir em frente é uma questão de fôlego, quando o estômago dói pela ausência de alimento. E que raramente a decifrarão a contento, sem trocar sua condição de sobrevivente pela inadequação do negligente.

Imagem © Johann Heinrich Füssli

Comentários

Zoraya disse…
Continuo dizendo que você está cada vez mais abusada de boa!
Cristiana Moura disse…
Deusdocéu... ô prosa boa demais da conta!
Carla Dias disse…
Zoraya... Obrigada :)

Cristiana... Opa! Obrigada :)
albir silva disse…
Pessoa essa que nada tem de invisível. Nós é que somos cegos.
Carla Dias disse…
Albir... Ainda assim, adoro pensar que a a opção de enxergar será sempre nossa.

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