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REVERTERE AD LOCUM TUUM
>> Albir José Inácio da Silva

A Reunião


A família dispensou os detalhes, bastava de lenga-lenga, o preço servia. O comprador também tinha pressa e medo da desistência. Era um grande negócio.

Não chegava a ser um castelo como os que ficam na entrada do cemitério, mas era imponente. Granito, esquadrias de aço escovado e vidro fumê — mais de uma década de horas extras e sacrifícios.

Contrariando sua natureza de comerciante, o único com escrúpulos por ali era o Durval:

— Mas e Seu Augusto? Talvez fosse melhor esperar! A gente ainda não sabe o que aconteceu.

— Sabe sim, ô papa-defunto! Virou comida de peixe! A mim você não enrola, não. Vê se eu tenho cara de Augusto!

Papa-defunto era como Dona Quinca humilhava o Durval, que era, na verdade, como ele dizia, corretor de planos funerários, jazigos, urnas e utilidades afins — ramo que cresce muito pelo poder que dá ao cliente vivo de jactar-se da opulência e conforto de que desfrutará no futuro.

Onde, diabos, ia o dinheiro do marido, que trabalhava tanto, perguntava Dona Quinca. A família passando dificuldades, andando de ônibus porque o carro foi vendido, segundo o Augusto, para pagar dívida de cartão de crédito. As crianças com roupas velhas, ela pintando em casa o cabelo e fazendo a própria unha porque não tinha dinheiro.

E não perdoava Durval que, segundo ela, se aproveitou da fraqueza de cabeça de Seu Augusto, explorou sua ingenuidade para vender um elefante branco.

Mulher de fé, indignava-se com o materialismo do esposo. “Deixe que os mortos enterrem seus mortos” e “Tu és pó e ao pó tornarás”, citava a Bíblia, dizendo que o traste do Augusto era tão ruim que nem corrente da prosperidade melhorava a família.  “É viva que eu preciso de conforto”, esbravejava.

Durval respeitava o sonho do cliente e amigo, era testemunha do trabalho duro, com jornadas duplas, que Seu Quincas enfrentava para investir no que, como ele mesmo dizia, “não era só para ele, era para toda a família”.

A reunião de urgência na Sancta Pax tratava da venda do patrimônio deixado pelo morto, mas, antes da chegada do comprador, a coisa já havia desandado. Durval tirou do armário uma placa de bronze com moldura trabalhada:

— Isso pertence à família, ficou pronto ontem. Seu Augusto nem chegou a ver — e entregou à viúva, explicando que ali poderiam ser colocados nomes, mensagens e fotos. Tinha também uma nota fiscal.

— Dois mil cruzeiros! — gritou a mulher.

— Mas não se preocupe, ele já pagou — disse o Durval, como se isso pudesse acalmá-la.
                                                                           

A Crise


Negociações, acertos, cheques, contratos, Dona Quinca já tinha assinado as quatro vias, quando o telefone tocou. Durval atendeu, cochichou com o comprador e ela arregalou os olhos. O que era agora?

— Dona Quinca, o defunto tá vivo! Não tem mais venda nenhuma! — disse pausadamente o comprador.

— Tem venda sim! Já tá assinado e eu quero o meu dinheiro!

— Dona Quinca, a senhora não pode vender o que não lhe pertence.

— Posso sim, já vendi e quero o meu dinheiro, ou então vou quebrar tudo por aqui, inclusive algumas caras.

Irritado, o comprador rasgou o contrato em duas partes. E ela quebrou vidraças, cadeiras, computadores e caixões. Os presentes foram poucos para contê-la. Comerciantes vizinhos também. A polícia colocou algemas, mas ela continuava chutando. Depois, SAMU, diazepan injetável e o sono, finalmente.

O telefonema que desencadeou a crise tinha vindo de um Hospital em Angra dos Reis.


(Continua em 15 dias)

Comentários

Carla Dias disse…
Tá bem... Ficarei na curiosidade até o próximo capítulo. :)
Zoraya disse…
Divertidíssimo, Albir, posta antes do dia 15, vai! Por favoooorrr

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