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Mostrando postagens de Novembro, 2021

FUNCIONÁRIO DO MÊS >> Albir José Inácio da Silva

  A demissão surpreendeu Marcondes. Três vezes funcionário do mês, ele se considerava um assessor para tudo e amigo do patrão. Com ele não tinha tempo ruim, nem dia santo. Era dedicado a ponto de avalizar para a madame as noitadas do Seu Filinto como viagem de trabalho.   Para os colegas era um puxa-saco e evitavam sua presença. Só Seu Armando – um veterano bom de trabalho, mas sindicalista cheio das reivindicações – conversava com Marcondes e o levou para uma reunião no sindicato.   Marcondes entendeu quase nada dos discursos e discordou do que entendeu: acreditava em meritocracia e que cada um tinha o seu lugar no mundo. Patrão era patrão e empregado, empregado. Este não devia cobiçar o lugar daquele. Não tinha a menor ideia do que seja mais-valia, mas injustiça ele conhecia bem: horas extras não pagas e tapinha nas costas no lugar de reajuste.   Assim resolveu acompanhar aquela comissão que lotou o corredor no andar da diretoria. Ninguém foi recebido, mas todos foram dem

CENAS DE NOVEMBRO >> Sandra Modesto

  Um copo cheio de água é a única inspiração do dia. Palavras escorrendo goela abaixo escuto o apito da escola no quarteirão da minha rua, aulas presenciais no último bimestre.  Atravesso quarteirões com minha roupa justa e o sol batendo no pedaço de rosto, nas costas, braços, colo. De repente, respingos de chuva bêbados prenunciando o verão.  Nesse quase dezembro meio doído.  Algumas dúvidas carregam suportáveis restos.  Meu olhar segue pelas avenidas. O moço passa por mim, sem máscara. “Essa gente sem proteção”. Sinto-me uma estranha querendo julgar as pessoas.  Envolta nessas intrigas, fiz uma rápida filmagem artesanal das horas em que chorei e prossegui.  No boteco da esquina, uma confraria sagrada de homens, bebe cerveja. Passo por perto.  A chave do portão enfia na fechadura.  Reabro minhas intenções.  Falta pouco, muito pouco pra eu segurar o tempo. Banho frio relaxando nuca, libido acesa descendo por todo o corpo. Afago meus cabelos brancos numa lentidão proposital.  São sete h

TRÊS CIGARROS E UM CINZEIRO >> Zoraya Cesar

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O amor não é uma “coisa” estranha – o amor é um ser quase humano, tais suas emoções e caprichos, capaz dos atos mais sublimes e execráveis. Às vezes acredito que o amor é invenção do Demo. Sou loucamente romântica, no entanto. O senhor veja, Lando sempre foi o homem da minha vida, nunca tive outro, desde os meus 15 anos, e já se passaram muitas águas desde então. Ele era lindo, um moreno de 28 anos, arrasa-quarteirão, podia ter a mulher que quisesse, mas se enrabichou comigo. Não queria saber de mais nada, só de ficar com ele, me sentindo adulta e matadora, pois conseguira o cara mais arretado das redondezas. Minha tia Jurema deitou as cartas – comuns, sabe, sem frescura, nada de baralho cigano, tarô, não senhor, baralho de mesa de jogo mesmo, sebento e usado – e disse que se eu ficasse com ele encontraria meu destino nas cinzas. Sempre achei esse negócio de cartas uma bobajada. Tudo bem que a casa de tia Jurema vivia cheia, era madame, faxineira, gente honesta, trambiqueira, cren

TEXTURA >> Carla Dias

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Sente falta do barulho do arrastar chinelos sobre tacos desbotados. De escutá-los roçando o tempo derramado naquele chão da casa, trazendo lembranças dos aniversários, casamentos, celebrações que aconteceram ali. E também dos lamentos, quase sempre patrocinados por mortes repentinas, como a do Border Collie do vizinho.  Nunca o chamou pelo nome, nem mesmo depois de ele invadir seu quintal e decidir voltar todos os dias, sempre no fim da tarde. O vizinho acabou desistindo de tentar mantê-lo no próprio quintal. Firmou-se assim, sem vocábulos que endossassem o trato, a guarda compartilhada. Nunca o chamou pelo nome, nem mesmo depois de se tornarem íntimos, e ele passar horas em sua companhia, e, vez ou outra, aproximar-se com a gentileza estampada no olhar, amansando tudo dentro dele: temores, mágoas, faltas. Nem mesmo quando o Border Collie não estava mais lá e o homem desejou gritar por seu nome, até que ele voltasse.   Há algum tempo, os sons o abandonaram e ele passou a hospedar um es

DEIXAR >> Clara Braga

Por vezes, me pego pensando verbos. Nada de profundas análises gramaticais pois, infelizmente, nunca fui boa nisso. Mas me surpreendo com a variedade de significados que uma mesma palavra pode ganhar dependendo do seu contexto.  Nesses últimos dias, tornou-se quase impossível para mim não pensar no verbo deixar. O verbo deixar está comumente relacionado à sair de um lugar ou parar de fazer alguma coisa. Mas, pelo menos para mim em toda a minha ignorância, está ligado à coisas que você faz consciente de estar fazendo.  Claro, você pode “deixar o celular em casa” sem querer, mas ainda assim era uma ação que dependia de você para acontecer, foi você que esqueceu.   Estou dizendo tudo isso pois me incomodo demais com o uso do verbo deixar para se referir à pessoas que morreram. Principalmente quando usam para dizer que essa pessoa, a que morreu, deixou alguém. E quando dizem que essa pessoa deixou o filho, aí sim me dói a alma. Filho a gente deixa na casa da avó, na escola, na casa dos ami

EM SÃO BENTO >> Sergio Geia

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  João diz que vai pegar uma cachoeirinha.   Espio pela janela o céu cinzento.  — Mas com esse tempo?  Pergunto e me arrependo. E jovem está lá interessado se vai chover ou fazer sol, se a água da cachoeira é fria ou quente, se o dia é bom pra pegar uma cachoeirinha?  Eu organizava coisas em casa. A semana fora pesada no trabalho e elas ficaram pelo caminho. Uma lâmpada queimada na luminária que fica sobre a minha mesa de trabalho; um chuveiro novo que chegara e eu mal desembrulhara; e até xampus que me foram encaminhados e ainda estavam empacotados. Afora as rotinas domésticas, como lavar a louça, pensar no que fazer pro almoço, aspirar o pó da casa. Ah, Deus, são tantas coisas a fazer, a desembrulhar, a trocar, a resolver!  Certa vez fomos à cachoeira. Um bando: os coroinhas da Santa Teresinha. Terríveis. Ficava em São Bento do Sapucaí. Nelsinho, o corajoso amigo da criançada, se dispôs a levar a turma em sua Kombi que mal conseguia subir um morro. E lá estávamos nós preocupados com

INTERESSE >> Paulo Meireles Barguil

Ele é indispensável para viver, pois nos projeta ao futuro. Sem tal ingrediente, o presente não tem sabor, cheiro... Na balança existencial, é necessário considerar os dois pratos: o eu e o outro. É na relação entre ambos, mais ou menos equilibrada, que alguém oscila de interesseira para interessada. Durante séculos, a Humanidade realizou trocas em múltiplos espaços, sendo a feira livre a manifestação mais conhecida. Ao longo do tempo, a exposição a céu aberto tem diminuído o seu status , embora continue sendo bastante usufruída por variadas comunidades em distintas sociedades. Se, no início, os produtos eram majoritariamente alimentícios, o tempo propiciou a ampliação do cardápio, com a inserção de itens inimagináveis. Ingênuo é quem ignora que todo artigo nutre não somente o corpo, pois este não tem vida sem o espírito. Lembre-se: no Shopping ou no mercado popular, no Ocidente ou no Oriente, cuidado com o vírus que nos impede de respirar...

JOÃO CANASTRÃO >>> Nádia Coldebella

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JOÃO CANASTRÃO (Luzes. Uma mulher gravida chega à uma cigana, que dramaticamente faz uma tiragem de tarot) 1º ATO - A Estreia (Carta: O sol) (Uma mulher deitada numa maca grita desesperadamente se contorcendo toda. Os médicos caminham pela sala feito loucos. Uma luz incide diretamente sobre um bebê). Era manhã ensolarada depois de noite-trovoada quando as cortinas se abriram e João estreou nesse mundo botando a boca no trombone. O médico nem precisou bater as devidas palmas: a estreia foi cheia de holofotes e aplausos. Ainda nu e sujo das entranhas da mamãe, ele sentiu-se meio deslocado. Não podia exagerar no grito, que era para não sair do papel. A mãe, ainda estropiada pelo dantesco parto, parece ter percebido, porque pegou o João no colo e ali ele se aquietou. 2º ATO - O D iscurso (Carta: O Tolo) (Uma criança pequena sobe numa mesa e eleva os braços para o alto. Uma luz incide diretamente sobre ela). Aos dois anos, João subiu na mesa da cozinha com a pretensão de proferir um disc

INSPIRADO >> Carla Dias

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Aceitou aquela incumbência. Reservou tempo, adquiriu conhecimento, fez planejamento. Uma missão daquelas exigia dedicação que ele não estava acostumado a oferecer.  Ateve-se aos detalhes, estudando suas nuances, analisando seus ecos, as consequências consideradas inesperadas somente porque não foram assumidas, mesmo estando estampadas na barra das ações cometidas.  Concentrou-se no que não sabia, inclusive naquele quadro pendurado na parede que não era sua, porque preferia não viver com 2400 prestações do que fosse e era incapaz de permanecer no mesmo ambiente por mais de um ano. Havia o que desamava profundamente: mensagens de divulgação de produtos que nunca cobiçou, água saborizada, café morno e ralo, pessoas nos trens do metrô que falavam mais alto do que os seus fones de ouvido eram capazes de superar.  Alcançou resultados nunca almejados. Metas foram negociadas, objetivos foram derrubados, forças positivas e negativas brigaram pelo próprio espaço no cenário de realizações. A vida

ENCONTRARAM-SE - Albir José Inácio da Silva

  Não, talvez melhor dizer desencontraram-se. Porque não se pode chamar de encontro uma tal repelência. Também não foi marcado, não foi querido, planejado. Foi obra do acaso, e o acaso, quando quer, trabalha mal. Mas se alguém quiser insistir no tema, pense num encontrão.  Teriam se evitado, teriam tomado direções opostas se desconfiassem da existência um do outro. Mas, sabe-se lá por que coincidência, esbarraram-se. E repugnaram-se.  “Docinha” como era conhecida, desmanchava-se em delicadezas, singelezas e doçuras. Voz de anjo e jeito de fada, sonhadora, de sua boca só se ouviam carinhos, homenagens e orações. De suas mãos, só afagos.  Ele, um ogro mesmo, como era chamado. Voz alta, mal-educado, arrotava e xingava em qualquer lugar. Mulheres, para ele, objetos. Chatinhas, mas, quando não eram muito frescas, atendiam umas vontades. “Servem quando servem”- dizia sempre.  — Um brucutu, só a custo deve manter-se nos dois pés. Quando ri parece relinchar. Pode haver alguém mais sem noção? –

NA FILA DO OSSO >> Sandra Modesto

Eu enfiava a cara no trabalho. Trabalhava mesmo. A sopinha pronta da Nestlé, não perdia tempo com esse negócio de comida caseira. As fraldas descartáveis, o iogurte que ajudava no crescimento, a camiseta de grife, o bife de filé. Por isso eu enfiava a cara no trabalho. A dona Cida babá das crianças do mesmo prédio que eu, me olhava de um jeito como se perguntasse por que eu não parava em casa. Se eu não enfiasse a cara no trabalho, eu não moraria naquele prédio. Meus filhos em escola pública? Nem pensar. E a bola cara para jogar com os  amiguinhos ricos, é por isso. Enfiei muito a cara no trabalho. Minha filha fazia inglês na Cultura Inglesa. Currículo impecável. Valia a pena pagar esses privilégios. Ah daqui a pouco eu vou trabalhar, amanhã eu vou trabalhar. 32 anos assim nessa labuta. É noite. Na tela da TV, o jogo do Flamengo. Fico plantada com a bunda no sofá vendo o jogo.  Esse time sempre ganha?  Meu filho e meu marido gritam gooool como se o mundo fosse acabar.  Abandono o clima

ACERVO >> whisner fraga

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decorridos os quatorze dias protocolares da segunda dose, com os cuidados que um trauma coletivo exige, após ano e meio de uma quarentena rígida e apavorante, caminhei até o sebo. duas máscaras escudando nariz e boca, álcool gel no bolso, o aparato de guerra inteiro e lá estava eu, espremido entre prateleiras abarrotadas de traças e mofo, explorando cada lombada, cada folha de rosto, em busca de algum tesouro. desnecessário declarar que a regra é retornar para casa de mãos vazias, o que é bom para o orçamento e também para a residência, já repleta de livros por todos os cômodos.  aliás, não só de obras raras um vício é construído. sou um ser ajuntador - não ouso afirmar que o colecionismo faz parte da alma humana, preciso de dados para chegar a semelhante conclusão, mas posso falar de mim. nutro diversas admirações por objetos culturais, que carregam, por concepção, uma história. caso dos cd e dos vinis também. tenho abandonado os long plays, não por vontade própria, mas por motivos ec

CONTANTO QUE >> Carla Dias

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Desviam-se da calçada de concreto estourado. Raízes de uma árvore cansada se rebelaram e modificaram o cenário do bairro. Trouxe para a rotina do lugar a feiura da beleza exposta. Transeuntes costumam confrontá-la, vociferando o incômodo da sua presença, defendendo a nobreza e a justiça da compreensão compartimentada: se ela morasse na outra calçada, eu gostaria mais dela. Chega de folhas sujando as calçadas e ruas, de galhos atrevidos de se enroscar nas roupas e cabelos das pessoas. Estava mais do que na hora de descartar a dita, porque ela é dada a acolher barulhentos pássaros que pensam que o mundo é um palco imenso para seus cânticos histriônicos. Esses dispersores de sementes, sujadores de tetos de carros.   O botequeiro convocou os amigos-clientes para discutir o melhor plano de aproveitamento do espaço que ela deixará ao ser condenada pelo crime de violentamente se estremecer até ferir calçada de concreto mais jovem que ela. Em cinco minutos, o empreendedor estava em posse de um

UM CLÁSSICO é SEMPRE UM CLÁSSICO?

De uns tempos para cá, eu e meu marido começamos a assistir e/ou reassistir alguns filmes considerados clássicos de seus gêneros. Não necessariamente aqueles clássicos cults que são parte da história do cinema, mas filmes que por motivos diversos acabaram chamando atenção. Como só conseguimos assistir alguma coisa depois que a criança da casa dorme, nem sempre conseguimos assistir um filme inteiro em uma sentada. Alguns filmes, inclusive, assistimos em tantos pedaços que mais parecem um seriado. Mas mesmo com esse processo lento, já conseguimos assistir filmes como Halloween, De volta para o futuro, Marte Ataca, Um Drink no Inferno e outros. Porém, depois de assistir uns três desses filmes, uma coisa começou a me incomodar: por que esses filmes tem tanta necessidade de mostrar mulheres nuas e/ou homens diminuindo as mulheres de alguma forma? Claro que entendo que tem uma questão cultural por trás disso, mas é no mínimo curioso pensar que até pouco tempo esses filmes eram assistidos e e

Marta e Magda >> Alfonsina Salomão

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                       Marta não estava satisfeita com a cor dos cabelos. Certo, era ruivo, fiel aos seus fios e aos de Magda antes dos brancos chegarem. Mas era um ruivo austero, que refletia sobretudo o estado de espírito da irmã. Marta teria preferido um vermelho vivo. Não eram mais meninas, mas era motivo para renunciar à alegria de viver? Pensara em reivindicar quando Magda mostrou a cor escolhida à cabelereira. Chegou a abrir a boca, mas as palavras não saíram. Sempre fora Magda quem decidira tudo, como mudar isso agora? Ainda por cima se tratando uma escolha tão importante quanto a cor dos cabelos... Agora estava arrependida, seria obrigada a ostentar o tom desesperançoso até a próxima visita ao salão, quando provavelmente se resignaria, mais uma vez, à escolha da irmã.   Magda nasceu quatro minutos antes e se apropriou inteiramente do papel de irmã mais velha. Nos ardores da juventude, era ela quem deliberava quais rapazes as cortejariam. Tinham que ser gêmeos, como elas. Devia

A FELICIDADE >> Sergio Geia

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  Nunca. Repito: nunca. Nunca foi tão fácil escolher o título de uma crônica.  Não sei vocês, mas pouca coisa interessante me aconteceu nos últimos dois anos. Fazendo uma viagem no túnel do tempo da vida, eu descobri. Não. Não descobri. Já estava lá. Eu constatei. Também, pudera...  Respeitei o que disseram as autoridades — as autoridades, não o Alexandre Garcia (aff!); respeitei o que disse a ciência, e, principalmente, fiquei de olhos bem abertos ao que acontecia no resto do mundo. Diferente de muitos, não saí de casa sem necessidade. E quando isso foi realmente necessário, usei máscara, levei álcool gel no bolso, me distanciei ao máximo das pessoas. Não viajei, não fui ao bar, não encontrei amigos, não encontrei a família.  Do ponto de vista literário, não escrevi contos — malemá escrevi crônicas. Não li os autores dos quais gosto: Lygia, Caio, Rubem, Prata, Cintia, Roth, Coetzee, McEwan. Não assisti a filmes, documentários, lives . Não li jornal. Me faltava vontade, vontade de come

CARTEIRADA >> Paulo Meireles Barguil

– Você sabe com que está falando? Esta frase expressa, como poucas, a arrogância, a soberba e a ignorância de uma pessoa.  Mario Sergio Cortella elaborou uma breve  resposta bem interessante .  Para quem dispõe de um pouco mais de tempo, recomendo a leitura do livro homônimo de Roberto DaMatta.  Muitos dos espetáculos com tal enredo eram restritos, pois faltavam os registros. A internet possibilita que tais cenas, uma vez capturadas, sejam assistidas por quem desejar, retirando o caráter privado das mesmas. Reconheço ser um ato de coragem quando alguém, desprezando a garantia constitucional do direito de não produzir prova contra si mesmo, proclama, solenemente, que é especial e, portanto, isento de obedecer às leis e merecedor de regalias. Admito minha surpresa quando vejo depoimentos de indivíduos denunciadores da exploração burguesa, decorrente do sistema capitalista, e proclamadores de uma nova ordem social, pleiteando publicamente, sem qualquer pudor, um tratamento diferenciado. D

SOBREPOSTOS >>> Nádia Coldebella

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O guardião viu a jovem de traços delicados sentar-se no gramado da casa de campo e encontrar a noite, silenciosa e fresca, à sua espera. No céu, a lua cheia desfilava para uma plateia de milhares de estrelas cintilantes, que, sem as luzes da cidade, podiam contrastar a vontade com o negrume da noite. A moça estendeu as pernas brancas e bem proporcionadas sobre a grama. Seus braços agora eram como duas colunas de marfim que sustentavam um tronco e uma cabeça obstinada, projetada para o alto. Ela olhava diretamente para um ponto sobre si e, para isso, envergava-se de tal forma que os seios transmutaram-se em protuberâncias misteriosas, querendo revelar-se sob o tecido leve da roupa. Os cabelos pretos e longos contornavam-na como um véu que caía sobre a grama úmida de orvalho. Os seus olhos brilhavam e a boca carnuda estava levemente entreaberta e úmida. Ela parecia em êxtase, perscrutando assim, tão entregue, o inexorável céu sobre sua cabeça.  Uma onda de eletricidade percorreu o corpo

AOS MÁRTIRES COM CARINHO >> Albir José Inácio da Silva

  Não é sem tristeza que cumpro o dever de solidariedade aos novos mártires na luta contra o mal. Mais uma vez se levantam as hostes inimigas infiltradas para perseguir os cidadãos de bem. E qual o pecado dos nossos heróis?   Alguns são perseguidos porque criticaram os poderes da República que sabemos infiltrados pelo comunismo satânico vermelho.   Outros apontaram fraudes no voto eletrônico daqui da mesma forma que denunciaram as manipulações no voto de papel dos Estados Unidos. Neste caso, e só neste caso, o que é bom para os Estados Unidos não é bom para o Brasil.   Outros, ainda, são perseguidos porque ganharam seu dinheirinho honesto divulgando suas verdades. Não as verdades comuns – ou sejam, comunistas – mas aquelas reveladas ao astrólogo e seus iniciados.   Agora estão na cadeia, usando tornozeleira eletrônica ou foragidos e caçados pela Interpol. É a luta do bem contra o mal. O armagedom é aqui, último bastião, depois que os vermelhos tomaram o poder pela fraud