EM SÃO BENTO >> Sergio Geia

 


João diz que vai pegar uma cachoeirinha.
 
Espio pela janela o céu cinzento. 

— Mas com esse tempo? 

Pergunto e me arrependo. E jovem está lá interessado se vai chover ou fazer sol, se a água da cachoeira é fria ou quente, se o dia é bom pra pegar uma cachoeirinha? 

Eu organizava coisas em casa. A semana fora pesada no trabalho e elas ficaram pelo caminho. Uma lâmpada queimada na luminária que fica sobre a minha mesa de trabalho; um chuveiro novo que chegara e eu mal desembrulhara; e até xampus que me foram encaminhados e ainda estavam empacotados. Afora as rotinas domésticas, como lavar a louça, pensar no que fazer pro almoço, aspirar o pó da casa. Ah, Deus, são tantas coisas a fazer, a desembrulhar, a trocar, a resolver! 

Certa vez fomos à cachoeira. Um bando: os coroinhas da Santa Teresinha. Terríveis. Ficava em São Bento do Sapucaí. Nelsinho, o corajoso amigo da criançada, se dispôs a levar a turma em sua Kombi que mal conseguia subir um morro. E lá estávamos nós preocupados com isso? Havia um seminarista entre o bando, então o passeio tinha tudo para ser santo e abençoado. 

Na primeira parada, um campo de futebol. Ficamos doidos. Lembro-me que era um raspadão malcuidado, mato a crescer nas bordas, traves de madeira. Para nós? O paraíso. Acostumados a qualquer pedaço de chão abandonado na cidade, aquele espaço calvo no centro e com mato nas bordas era um Maracanã em nossos devaneios. 

Descemos estampando a arrogância juvenil daqueles que se acham craques. Antes de começar a partida, Darci cismou de se aquecer um pouco fazendo barra numa das traves. Frágil e carcomida, ela não suportou o corpanzil daquele coroinha mais velho e se partiu ao meio, deixando a todos incrédulos e com gosto amargo na boca. 

Da cachoeira mesmo me restou pouca coisa. Lembro da água gelada, e que havia pedras no fundo que machucavam os pés. Mesmo assim, não dispensamos um banho. 

Muito tempo depois, estive de volta a São Bento do Sapucaí. Fomos à cachoeira dos Amores. Sempre me pergunto qual foi a cachoeira daquele dia perdido na infância. Talvez alguém da turma ainda se lembre. 

São Bento, aliás, um lugarejo onde se come bem: a truta recheada no Sabor com Arte. Ou o nhoque ao gorgonzola da Cantina do Tio Giuseppe. Deus, quando provei foi como encontrar um outro nível de sabor. Ou a truta com molho de amêndoas, batatas sauté e risoto de queijo, do Trincheira. 

Mas são recordações, amigos, que ficaram perdidas no tempo e que renasceram hoje graças à cachoeirinha de João, num sábado que acordou cinza, escuro, frio, mas que logo se alegrou, dourando a paisagem de sol.


Ilustração: Pixabay

Comentários

Darci Siqueira disse…
Que Crônica sensacional. Claro que sendo eu o protagonista na trave quebrada é ainda mais extraordinário; más, bateu uma saudade. Parabéns por mais uma bela crônica.
Carla Dias disse…
Adorei ler suas lembranças compartilhadas em crônica. :)
Zoraya Cesar disse…
Sergio, nem sei dizer o quanto amo suas crônicas de reminiscências. Para além de boas. Um prazer vivenciá-las com vc! Ou melhor, através de vc!

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