JOÃO CANASTRÃO >>> Nádia Coldebella

JOÃO CANASTRÃO


(Luzes. Uma mulher gravida chega à uma cigana, que dramaticamente faz uma tiragem de tarot)



1º ATO - A Estreia (Carta: O sol)

(Uma mulher deitada numa maca grita desesperadamente se contorcendo toda. Os médicos caminham pela sala feito loucos. Uma luz incide diretamente sobre um bebê).

Era manhã ensolarada depois de noite-trovoada quando as cortinas se abriram e João estreou nesse mundo botando a boca no trombone.

O médico nem precisou bater as devidas palmas: a estreia foi cheia de holofotes e aplausos.

Ainda nu e sujo das entranhas da mamãe, ele sentiu-se meio deslocado. Não podia exagerar no grito, que era para não sair do papel.

A mãe, ainda estropiada pelo dantesco parto, parece ter percebido, porque pegou o João no colo e ali ele se aquietou.


2º ATO - O Discurso (Carta: O Tolo)

(Uma criança pequena sobe numa mesa e eleva os braços para o alto. Uma luz incide diretamente sobre ela).

Aos dois anos, João subiu na mesa da cozinha com a pretensão de proferir um discurso sobre a ditadura das fraldas, mas as palavras ainda brigavam para sair da sua boca, se embaralhando e fazendo um bolo de letras. Frustrado, se deu conta que ele mesmo não entendia o que as palavras queriam dizer. Além disso, estava ali sozinho, praticamente um bebê, sem plateia e sem apoio.

Ele sentiu-se um pouco deslocado e a mamãe não estava lá para dar colo, estava na lavanderia. Desceu rapidamente da mesa, antes que alguma parte do seu corpo também ficasse deslocada, só que naquele dia ele entendeu que seu sonho era ficar em cima da mesa para sempre. 


3º ATO - A Morte (Carta: A morte)

(Um adolescente dorme numa cama. Abre os olhos brilhantes. Barulho de janela abrindo. Uma luz incide sobre ele).

Um dia, quando tinha treze anos, dormia tranquilamente no seu quarto, exercendo seu papel de calmo filho. Mas o gato não ligou, entrou pela janela carregando um passarinho morto, largou nos pés da cama e deu um miado, saindo faceiro. 

João acordou, pronto para o terceiro ato. Ele sabia que o gato havia lhe dado um presente, mas no escuro mesmo percebeu que a ave estava toda ensanguentada. E do lado de fora da janela, um monte de piados desesperados vinham do gramado. 

Ajuntou a ave pelas perninhas, cuidando para não se sujar - e gritando histericamente para ver se alguém acudia e limpava o resto do sangue no chão. Foi até a janela e viu pousado um pardal, muito pequeno, mudo e triste de dar dó. 

Ignorou o pardal e ao jogar o corpo da ave no meio dos pássaros pousados no gramado, sentiu-se meio deslocado. Talvez devesse ter sido mais sensível, talvez o pardalzinho o achasse egoísta. Mas ele só queria devolver o corpo da ave para ser velado pelos seus. 

E também quis se livrar do corpo. E depois teve que se livrar do sangue no chão, já que ninguém mais o fez. E já que ninguém mais acordou, deduziu que ninguém precisaria ficar sabendo do que havia acontecido naquela noite. Ele havia se livrado de todos os vestígios.


4º ATO - O Presente (Carta "A Roda da Fortuna).

(Um homem de trinta anos corre em direção a porta. Barulho campainha. Cara de espanto. Uma luz incide sobre ele, enquanto estoura um plástico bolha).

Por volta dos trinta anos, ele ouviu a campainha. Era o serviço de entrega e o entregador compadecido o ajudou a levar para dentro da casa um enorme e pesado embrulho. Tão alto quanto sua geladeira, tão largo quanto seu sofá. Tão pesado quanto a geladeira e o sofá juntos. 

Ele afastou os móveis da pequena sala-cozinha e colocou o embrulho lá no meio. Perguntou ao entregador quem mandara uma coisa tão monumental, mas o homem não tinha ideia e não havia nenhuma informação que indicasse quem.

Ele retirou a embalagem e ficou pasmo com um grande elefante branco, esculpido em algum tipo de pedra, que estava escondido debaixo daquele monte de papel e plástico. 

Sentou em frente da estátua e pôs-se a estourar o plástico bolha, pensando em como acomodar aquela coisa tão grande em sua casa tão pequena. Depois de um tempo, resolveu deixar ali mesmo. 

No começo o elefante o incomodou bastante. Mas aos poucos, João deu um jeito. Trocou a mesa cara e escolhida a dedo por uma menor, o sofá sob medida por cadeiras, encostou coisas na parede e se livrou de alguns armários.

Ele sentiu-se meio deslocado, mas com o tempo, fez de conta que o elefante branco não estava mais lá. Sentava na cadeira e curvava o corpo para assistir tevê, se algum amigo vinha, se espremia no canto e se ficasse para jantar, comiam com os pratos na mão mesmo. Tinha aprendido a ignorar o grande elefante branco dentro de sua casa e esperava que os outros fizessem o mesmo.


5º ATO - Gran Finale (Carta "O julgamento")

(Um homem velho abre a porta e permanece parado na soleira. Barulho de transito e buzinas. Uma luz incide sobre ele).

Enquanto algumas coisas estavam só no pensamento, João conseguia fingir que era fantasia. Mas quando foram ditas em voz alta, ele não pode mais negar a realidade. 

E assim foi que, depois da pandemia, depois de ficar isolado, imerso em lives e todo sortilégio de coisa virtual, João, já com uma certa idade, saiu de casa com um grande sorriso no rosto. Estava pronto para o novo mundo, pronto para brilhar.

Mas pisando a rua, nem a cor do prédio da esquina tinha mudado. Os buracos da calçada estavam no mesmo lugar. O mundo ainda estava barulhento e calorento. Nenhum palco havia sido montado para que ele subisse e nele jogassem gliter e purpurina. 

João ia ter que se contentar com o palquinho da sua vida mesmo. 

Mesmo assim ele andou, coluna ereta, peito estufado. E apesar de fazer o sorriso no rosto crescer em um tamanho desproporcional ao de sua boca, apesar de balançar a cabeça em cumprimento a cada pessoa que passava, apesar de olhar para as mocinhas bonitas de canto de olho e ser olhado de volta, apesar de ter se vestido muito bem, estar cheirando muito bem e aparentar ser um grande homem, charmoso. bem sucedido e bem apessoado, uma voz dentro dele gritava a inegável verdade:

- Fraude! Embuste! Engodo!!!

E, sem pestanejar, entonou dramaticamente aquele mantra, para que ele mesmo pudesse ouvir:

- João Canastrão!


(Luzes se apagam)






Comentários

Carla Dias disse…
Nádia, que maneira fantástica de contar uma história tão profunda, de alguém que só quer ser, mas não é. Não se atreve, e mesmo quando dá um passo adiante, desanda. Adorei!
Albir disse…
Que beleza, Nádia!
Aguardo o convite para a estreia do seu metarroteiro.
Zoraya Cesar disse…
Que BAITA texto, NádiaBella!! Que ideia fantástica e bem escrita demais. me pegou na primeira linha e nao me largou mais. Uma lágrima discreta escorrendo em cada linha.

O triste é q ninguém nos força a sermos ninguém nem a acolhermos elefantes brancos, né? Mas a gente se espreme na própria sala de estar,não estar, estar só.

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