ACERVO >> whisner fraga


decorridos os quatorze dias protocolares da segunda dose, com os cuidados que um trauma coletivo exige, após ano e meio de uma quarentena rígida e apavorante, caminhei até o sebo. duas máscaras escudando nariz e boca, álcool gel no bolso, o aparato de guerra inteiro e lá estava eu, espremido entre prateleiras abarrotadas de traças e mofo, explorando cada lombada, cada folha de rosto, em busca de algum tesouro. desnecessário declarar que a regra é retornar para casa de mãos vazias, o que é bom para o orçamento e também para a residência, já repleta de livros por todos os cômodos. 

aliás, não só de obras raras um vício é construído. sou um ser ajuntador - não ouso afirmar que o colecionismo faz parte da alma humana, preciso de dados para chegar a semelhante conclusão, mas posso falar de mim. nutro diversas admirações por objetos culturais, que carregam, por concepção, uma história. caso dos cd e dos vinis também. tenho abandonado os long plays, não por vontade própria, mas por motivos econômicos: ficaram caros, fora dos meus padrões de consumo. 

tento, portanto, arranjar espaço entre as gatas, entre nossos corpos mesmo, entre os móveis indispensáveis para as demandas civilizatórias, para abrigar meus acervos. com a idade, chega também um pouco de sabedoria, casmurrice e outras manias e ficamos mais seletivos. edições só autografadas, cd só os essenciais de cada estilo musical e vinis, bem, apenas os que adquiri há cinco, dez anos, sem seguir à risca estes critérios de imprescindibilidade.

é de se fantasiar que ganhamos espaço na pandemia, pois cultivamos o hábito do isolamento e novos itens para meu arsenal de coisas eram escolhidos cara a cara - peça e homem. não foi bem assim, porque mantenho um certo apreço à maleabilidade (apesar de testemunhar uma queda vertiginosa em minha capacidade de adaptação). essa flexibilidade extemporânea me convenceu a migrar para as compras virtuais, não sem uma certa resistência, óbvio. da mesma forma que me ajustei a essa púbere estratégia de aquisições, também alterei meus padrões de custódia de utensílios. era assim ou seríamos expulsos do lar por esses seres inanimados. sempre foi uma questão de sobrevivência.


Comentários

OSWALDO ANTONIO BERALDO disse…
Pelo menos um dia no mês me pego junto às minhas coisas velhas guardadas. Algumas organizadas inclusive, e separo o que vou jogar, o que vou doar, afinal preciso deixar este vício de acumulador. Geralmente são coisas de baixo valor para outras pessoas, discos, objetos antigos, caixas de componentes eletrônicos que um dia vou querer usar. Mas espero o tempo necessário até que a vontade de defenestração vire algo do passado também. E tudo volta ao seu lugar. A casa é grande, vou deixar para o dia que me mudar para um lugar pequeno, uma nave espacial talvez...
whisner fraga disse…
Beraldo, nesta altura, só tento manter meu acervo do tamanho que está. Tenho feito o mesmo com roupas. Quando compro uma camisa (o que demoro a fazer), doo outra. E assim por diante. Mas gostei da história da nave espacial... Se não sacolejasse tanto, gostaria de ir tb. Abraços, meu caro!
Albir disse…
Falem mais. Estou precisando administrar isso também.
Carla Dias disse…
Acho extremamente sofrido o processo de desapego de relicários culturais e que carregam registros de afetos. Mas também acho muito interessante como isso nos permite certas levezas. Também venho há algum tempo exercitando o menos de um mais que vem se provando, a cada doação, necessitado de mudar de casa. Quando damos um fim a algo que se torna um começo para outra pessoa, nos lembramos que a vida é movimento.

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