A FELICIDADE >> Sergio Geia

 


Nunca. Repito: nunca. Nunca foi tão fácil escolher o título de uma crônica. 

Não sei vocês, mas pouca coisa interessante me aconteceu nos últimos dois anos. Fazendo uma viagem no túnel do tempo da vida, eu descobri. Não. Não descobri. Já estava lá. Eu constatei. Também, pudera... 

Respeitei o que disseram as autoridades — as autoridades, não o Alexandre Garcia (aff!); respeitei o que disse a ciência, e, principalmente, fiquei de olhos bem abertos ao que acontecia no resto do mundo. Diferente de muitos, não saí de casa sem necessidade. E quando isso foi realmente necessário, usei máscara, levei álcool gel no bolso, me distanciei ao máximo das pessoas. Não viajei, não fui ao bar, não encontrei amigos, não encontrei a família. 

Do ponto de vista literário, não escrevi contos — malemá escrevi crônicas. Não li os autores dos quais gosto: Lygia, Caio, Rubem, Prata, Cintia, Roth, Coetzee, McEwan. Não assisti a filmes, documentários, lives. Não li jornal. Me faltava vontade, vontade de começar um livro novo, vontade de assistir a um filme ainda que ele tivesse mais de duas horas. Mergulhei numa aridez de tudo. De coisas boas. De coisas que valem a pena. 

A conta do iFood disparou; o peso também, e ganhei uma espécie de pré-diabetes. Me descobri trabalhando sábado, domingo, feriado. A facilidade do trabalho em casa me puxou para a frente do computador. Trabalhei em média 10, 12 horas por dia. Teve dias em que acordava tenso, sentia algo ruim, pensava que fosse desmanchar. 

Mas na última semana, ainda que ensimesmado no meu casulo, eu peguei um livro. Conto a proeza: um homem usando vestes tingidas de marrom-avermelhado e da cor do açafrão, me fez abandonar a letargia literária dos últimos dois anos e enfim revisitar algo que realmente importa. 

Howard C. Cutler é diplomata do American Board of Psychiatry and Neurology, e por um bom tempo esteve ao lado do Dalai-Lama. O objetivo era explorar Sua Santidade num projeto que tinha por escopo obter suas opiniões sobre como ter uma vida feliz. Além das opiniões do Dalai-Lama, Cutler acrescentaria as suas próprias observações e comentários a partir da perspectiva da psiquiatria ocidental. Para ilustrar o trabalho, foi adicionada uma série de descrições de casos e relatos pessoais. Desse trabalho, surgiu “A Arte da Felicidade” - Um Manual para a Vida, de Sua Santidade, o Dalai-Lama e Howard C. Cutler – Editora Martins Fontes. 

Esse livro serviu como base num ciclo de estudos com encontros realizados por alguns amigos que tinham por objetivo enriquecer o humano. Começamos em 2010 com o livro “A Arte de Amar”, de Erich Fromm, Editora Itatiaia. Depois, em 2011, “O Efeito Sombra”, de Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson, Editora Lua de Papel. Por fim, entre 2012 e 2014, “A Arte da Felicidade”. 

Outro dia, folheando o livro, encontrei páginas tingidas com a cor da laranja, encontrei anotações, rabiscos, frases, questionamentos, algo do tipo como levar uma vida feliz. Registros. O propósito da vida é perseguir a felicidade. Você pode desenvolver e sustentar a felicidade treinando a mente. Quais os fatores que levam à felicidade? As fontes da felicidade. A felicidade é determinada pelo nosso estado mental e não por fatores externos. Nós temos um nível de referência de felicidade. Podemos elevá-lo? Serenidade mental. Resista ao primeiro desejo, e por aí vai. Logo me despertou vontades, vontades tão escassas ultimamente. 


P.S.: Há uma pequena anotação aqui, numa agenda velha, que me grita todos os dias: O que me deixa feliz? O que me acalma? O que me alenta? Talvez, um começo. Um bom começo.

Comentários

Darci Siqueira disse…
Obrigado Sérgio, crônica de reflexão em si mesmo. Perfeito!
Albir disse…
É isso aí, Sérgio, precisamos reencontrar essas coisas de felicidade onde estiverem e elevá-las à categoria de títulos.
Paulo Barguil disse…
A felicidade de não buscar a felicidade. Obrigado pela partilha, Sérgio.

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